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Disputas fronteiriças frequentemente permanecem dormentes por anos, ou mesmo décadas, até serem reativadas por dinâmicas políticas internas. O recente confronto entre Tailândia e Camboja exemplifica esse padrão, comum em diversas regiões da Ásia, em que fronteiras mal resolvidas tornam-se gatilhos para escaladas militares periódicas. Neste caso, a disputa territorial se entrelaça com instabilidades políticas domésticas e memórias históricas, transformando um litígio antigo em uma ameaça renovada à paz regional.

Os primeiros-ministros da Tailândia e do Camboja, reunidos na Malásia, acordaram, em 28 de julho de 2025, um cessar-fogo após seis dias de combates fronteiriços que resultaram em cerca de 35 mortos, aproximadamente 200 feridos e o deslocamento forçado de 270 mil civis em ambos os lados da fronteira. Mediada pelo primeiro-ministro malaio, Anwar Ibrahim, a trégua incluiu o compromisso de prosseguir com negociações para resolver a disputa fronteiriça, raiz do conflito entre os dois países vizinhos.

Os ataques, iniciados em 23 de julho, foram os mais violentos em mais de uma década. A disputa, porém, remonta a mais de um século, quando o mapeamento da fronteira, elaborado em 1907 pelos colonizadores franceses do Camboja, foi considerado impreciso pela Tailândia.

Assim, os limites entre os dois países do Sudeste Asiático, que têm cerca de 800 km de extensão, possuem grandes trechos ainda em disputa. O templo hindu de Preah Vihear, nas Montanhas Dangrek, dedicado ao deus Shiva e construído a partir do final do século IX, está localizado em um desses locais onde a fronteira não é perfeitamente delimitada.

                 Templo de Preah Vichear

 

Em 1962, a Corte Internacional de Justiça decidiu que o templo está situado em território cambojano. O status de uma área de 4,6 km² ao redor da construção, entretanto, permaneceu indefinido. Em 2008, quando a UNESCO inscreveu o templo como patrimônio da humanidade, as tensões voltaram a escalar, resultando em escaramuças militares, que se repetiram em 2011, com a morte de dezenas de pessoas.

O conflito de agora, entretanto, atingiu um novo patamar de violência: soldados cambojanos dispararam foguetes contra a Tailândia, atingindo alvos civis em quatro províncias tailandesas, enquanto a Força Aérea da Tailândia, usando caças F-16, bombardeou alvos militares cambojanos.

A crise militar foi precedida por um ambiente político cada vez mais tenso na Tailândia. Nas semanas que antecederam os confrontos, o país foi abalado por uma controvérsia política envolvendo a então primeira-ministra Paetongtarn Shinawatra. Em um gesto diplomático controverso, ela se reuniu com Hun Sen, ex-primeiro-ministro e figura influente no Camboja, pai do atual líder Hun Manet. Hun Sen divulgou trechos de uma conversa com Shinawatra, na qual ela se referia a ele como “tio” e, em tom deferente, criticava o exército tailandês — uma instituição com grande poder político no país. A conversa gerou forte indignação popular e política na Tailândia, resultando na suspensão de Paetongtarn do cargo em 1º de julho.

A crise política interna tailandesa alimentou o clima de instabilidade que, dias depois, desembocaria em confronto militar. Em 23 de julho, um soldado tailandês perdeu a perna ao pisar em uma mina terrestre durante uma patrulha na fronteira. A Tailândia acusou o Camboja de minar seu território, rebaixando as relações diplomáticas, chamando de volta seu embaixador e expulsando o embaixador cambojano. Essas tensões culminaram nos combates iniciados no mesmo dia.

Após o acordo de cessar-fogo, comandantes dos dois exércitos se encontraram e concordaram em não enviar mais tropas para as fronteiras e fortalecer o contato entre os dois lados, a fim de evitar violações do acordo de cessação das hostilidades.

A violência parece contida neste momento. Entretanto, a persistência de disputas territoriais mal resolvidas, somada à instabilidade política interna, sugere que o risco de uma nova escalada permanece elevado. Assim como em outros contextos asiáticos — como nas fronteiras entre Índia e Paquistão ou as disputas no Mar do Sul da China — querelas fronteiriças continuam a alimentar instabilidades, expondo a fragilidade dos mecanismos de contenção de crises na Ásia.

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Fontes

New York Times: https://www.nytimes.com/2025/07/29/world/asia/thailand-cambodia-cease-fire-generals.html
Martin Wagener – Lições de Preah Vihear: Tailândia, Camboja e a natureza dos conflitos fronteiriços de baixa intensidade: https://journals.sagepub.com/doi/full/10.1177/186810341103000302

 

 

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