À beira do abismo: Trump, Irã e a lógica da escalada
Trump escala sua retórica até o limite máximo. A ameaça, feita hoje, ao dizer que “uma civilização inteira morrerá esta noite, para nunca mais ser ressuscitada”, caso os iranianos não cedam às exigências norte americanas até as 20h de hoje (21 horas de Brasília), se soma à feita no domingo de Páscoa: “abram a porra do Estreito, seus bastardos loucos, ou vocês vão viver no inferno” e a muitas outras, em diversas entrevistas, no mesmo tom.
A retórica de Trump é sem precedentes para um líder global, ainda mais para o chefe do governo dos Estados Unidos. Tentar explicar sua conduta é um desafio, mas a Teoria dos jogos pode ser de alguma ajuda na tentativa de se compreender a estratégia do presidente norte-americano.
Um conceito importante aqui é o “brinkmanship”. Nela, um ator deliberadamente aumenta o risco de um resultado catastrófico para forçar o adversário a ceder. A ideia central é transformar uma ideia aparentemente irracional (destruir a civilização inteira do Irã) em uma ameaça crível ao adversário, de modo que este pense que, se não recuar, a coisa toda pode sair do controle. Um exemplo clássico é o “chicken game”, ou “jogo da galinha”, no qual dois carros avançam em rota de colisão, e o que desvia primeiro, perde. O risco aqui é óbvio: se ninguém desviar, haverá o desastre.
O problema dessa estratégia é que ela assume que o lado iraniano vai recuar quando o risco ficar alto demais. No entanto, Trump parece subestimar que a liderança iraniana opera com uma racionalidade distinta (a expressão “bastardos loucos” revela o desconforto americano com uma reação que não segue o esperado).
Em primeiro lugar, o regime teocrático iraniano se apoia na profunda propensão ao sacrifício existente no xiismo. Raiz da “cultura do martírio”, essa propensão transforma perdas em propósito religioso e político. Para muitos, a resistência ao “opressor” (EUA/Israel) tem valor religioso e político positivo, mesmo que tenha um enorme custo em vidas e para a economia do país. Isso aumenta significativamente a disposição iraniana no “jogo da galinha”: eles estão dispostos a aguentar mais dor do que uma análise dentro de uma lógica exclusivamente materialista preveria.
Em segundo lugar, ao ameaçar uma “civilização inteira”, Trump esbarra na memória histórica iraniana. O Irã é berço de uma das mais antigas civilizações do mundo e já sobreviveu a múltiplas invasões. Essa narrativa de resiliência está presente tanto na população quanto na liderança, que vê a atual pressão como mais um capítulo de confrontos com potências externas. Isso torna ameaças existenciais menos intimidantes internamente.
Do lado americano, Trump também paga um preço alto. Recuar após tantas ameaças públicas geraria altos custos de reputação: ele seria visto como fraco por sua base e pelos republicanos, especialmente com as eleições de meio de mandato se aproximando. Além disso, o fechamento prolongado do Estreito de Ormuz já elevou os preços do petróleo, pressionando a economia americana com inflação e combustível mais caro para os eleitores. Simplesmente declarar vitória agora e retirar suas tropas, mantendo o Estreito fechado, seria desastroso para sua imagem.
O resultado é que ambos os lados estão presos em uma clássica armadilha de escalada (escalation trap). Trump não pode recuar sem perder credibilidade perante sua base e os aliados regionais, enquanto o regime iraniano não pode ceder sem enfraquecer sua narrativa ideológica de resistência e martírio. Cada nova ameaça ou cada dia de resistência reforça o compromisso do outro lado, tornando mais difícil encontrar uma saída honrosa.
O mundo vive hoje um dia crítico. Esperemos que, no último momento, um dos atores recue, afinal, milhares, senão milhões, de vidas estão em jogo.
