Trump não comprou a Groenlândia — mas conseguiu parte do que queria

Desde os primeiros dias de seu governo, o presidente Trump vem afirmando que a Groenlândia, a enorme ilha autônoma integrante do Reino da Dinamarca, deveria passar a ser controlada pelos EUA. Na sexta-feira, dia 18 de setembro, Trump finalmente encontrou razões para comemorar o resultado de sua pressão. Em sua rede social, o presidente anunciou que havia chegado a um acordo com a Dinamarca e a Groenlândia, que finalmente concederia aos Estados Unidos “o controle permanente sobre a segurança e todas as demais necessidades na Groenlândia”.

O texto do acordo final deverá se tornar público esta semana, quando será formalmente assinado, durante a Assembleia Geral da ONU, em Nova York. Pelo que Trump divulgou, entretanto, já se sabe que o acordo não teve “custos para os Estados Unidos” e lhe daria a capacidade de “fazer o que for necessário” para “garantir e defender a segurança da Groenlândia”.

Os EUA já tinham, desde 1951, bastante liberdade para atuar na Groenlândia. Um acordo firmado naquele ano entre os EUA e a Dinamarca — e ainda em vigor — já autorizava os EUA a criar e operar “áreas de defesa” em comum acordo com os dinamarqueses. Dentro delas, os EUA têm direitos muito amplos de construção, operação, estacionamento de tropas, armazenagem e segurança. Além disso, o acordo de 1951 dá aos EUA o direito de trânsito terrestre, marítimo e aéreo entre as áreas de defesa e permite que aeronaves americanas sobrevoem e pousem na Groenlândia. Neste ponto, portanto, não parece ter havido grandes mudanças no entendimento entre os dois países sobre o direito dos EUA de operar militarmente na ilha.

Sendo a Dinamarca um membro da OTAN, seria politicamente inconcebível, nas circunstâncias atuais, imaginar a instalação de bases militares russas ou chinesas na Groenlândia, independentemente da existência de qualquer acordo adicional. Há, entretanto, um aspecto inovador no acordo anunciado por Trump: os adversários dos EUA estariam impedidos de realizar determinados “investimentos sensíveis” na ilha. Segundo Trump, tais investimentos dependeriam de aprovação americana. Esse tipo de restrição não está previsto no acordo de 1951 e acrescenta uma dimensão econômica às restrições estratégicas à atuação, por exemplo, de empresas chinesas na ilha. Pode-se imaginar que, a partir de agora, empresas chinesas possam ser impedidas de controlar portos groenlandeses, explorar determinados recursos minerais estratégicos ou realizar outros investimentos considerados sensíveis por Washington.

Essa vedação aos “investimentos sensíveis” de adversários na Groenlândia está perfeitamente alinhada com o “Corolário Trump à Doutrina Monroe”, constante da Estratégia Nacional de Segurança dos EUA, divulgada em dezembro do ano passado. Segundo tal corolário, apelidado de “Doutrina Donroe”, os EUA “negarão aos competidores extra-hemisféricos a capacidade de posicionar forças ou outras capacidades ameaçadoras, ou de possuir ou controlar ativos estrategicamente vitais em nosso Hemisfério”. A novidade do Corolário Trump está justamente aí: a lógica de exclusão de potências extra-hemisféricas passa a alcançar, além da presença militar, portos, infraestrutura, recursos minerais e outros ativos econômicos considerados estratégicos.

O governo dinamarquês já se posicionou acerca do anúncio. A primeira-ministra Mette Frederiksen afirmou estar satisfeita com a perspectiva de um acordo que fortaleça a segurança comum no Ártico e no Atlântico Norte e beneficie a OTAN e a Europa. Mas acrescentou um ponto essencial para o entendimento da questão: o acordo deve reconhecer “a soberania e a integridade territorial do Reino e o direito do povo groenlandês à autodeterminação”. Destaque-se que, enquanto Trump sublinha o controle estratégico obtido sobre a ilha, Frederiksen ressalta a manutenção da soberania dinamarquesa.

O interesse de Trump pela Groenlândia remonta pelo menos ao seu primeiro mandato. A ideia de comprar a ilha foi sugerida ao presidente em 2018 por Ronald Lauder, empresário e amigo de longa data de Trump. Oito anos depois, Trump não conseguiu a posse da Groenlândia, mas parece ter obtido um mecanismo para impedir que seus adversários adquiram posições econômicas consideradas estrategicamente sensíveis na ilha. Em um momento de dificuldades na política externa, marcado pela guerra no Oriente Médio e pela persistência do conflito na Ucrânia, o acordo oferece à administração Trump um resultado concreto a apresentar ao eleitorado americano às vésperas das eleições legislativas de novembro.

Este artigo foi originalmente publicado na Gazeta do Povo, em 21 de setembro de 2026

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11 de Setembro, 25 anos depois: da Guerra ao Terror à disputa entre grandes potências

Na última sexta-feira, dia 11 de setembro, os atentados terroristas perpetrados pela rede terrorista al-Qaeda contra as Torres Gêmeas, em Nova York, e o Pentágono, em Arlington, na Virgínia, completaram 25 anos. Os ataques constituíram um marco histórico importante, representando uma profunda transformação geopolítica: aquele dia e, principalmente, as reações norte-americanas àquele acontecimento efetivamente mudariam o mundo.

O custo em vidas humanas no dia dos ataques foi significativo: quase três mil pessoas morreram em Nova York, no Pentágono e a bordo dos quatro aviões sequestrados. A reação norte-americana ao ataque terrorista mais mortal da história do país foi imediata. Os EUA acionaram o artigo 5º da OTAN – aquele que diz que o ataque a um dos membros da aliança deve ser considerado um ataque a todos os membros – pela primeira e até aqui única vez na história, e seus aliados atenderam ao chamado para participar da Guerra ao Terror, que se traduziu inicialmente na invasão do Afeganistão e, posteriormente, na invasão do Iraque por uma coalizão liderada pelos Estados Unidos.

Os custos humanos da Guerra ao Terror, travada no Afeganistão e no Iraque, mas também na Síria, Iêmen e Paquistão, entre 2001 e 2023, são estimados em mais de 940 mil mortes diretamente provocadas pelos conflitos, aí incluídos 7 mil militares norte-americanos. Os resultados práticos da longa empreitada militar, entretanto, são bastante discutíveis.

Por um lado, houve conquistas no nível tático, afinal, a rede terrorista al-Qaeda, liderada por Osama bin Laden, localizado e morto por tropas americanas no Paquistão em 2011, perdeu suas mais relevantes capacidades operacionais, passando a operar principalmente por meio de uma rede descentralizada de organizações afiliadas, especialmente na África, no Oriente Médio e no Sul da Ásia. Outro êxito foi o fato de os EUA terem conseguido, ao longo desses vinte e cinco anos, evitar, em seu território, a repetição de um atentado de escala comparável ao 11 de Setembro.

Por outro lado, é inegável que, no nível político, os resultados alcançados pelos EUA foram bastante modestos, para dizer o mínimo. Essa constatação ficou óbvia e escancarada para a opinião pública em 2021, quando o grupo Talibã retornou ao poder no Afeganistão, depois que 20 anos de presença militar norte-americana no país terminaram em uma desastrosa retirada de Cabul, transmitida ao vivo pelas televisões, na qual afegãos se penduraram nas aeronaves americanas que partiam da cidade, em uma tentativa desesperada de não serem deixados para trás.

Enquanto a campanha militar norte-americana contra o terror atraía a atenção estratégica do país para o Oriente Médio, outros atores do sistema internacional continuavam a buscar seus objetivos. Exatamente três meses depois daquele fatídico dia 11 de setembro, outro evento, muito menos espetacular, mas de extraordinária importância, acontecia em Genebra, na Suíça: a adesão da China à Organização Mundial do Comércio. Os impactos globais daquele evento, ocorrido enquanto os EUA caçavam Osama bin Laden nas cavernas de Tora Bora, no Afeganistão, dificilmente podem ser subestimados: a China acelerava sua integração à economia mundial em um processo que contribuiria decisivamente para levá-la ao status de potência econômica global.

Mas o crescimento econômico da China não foi a única transformação geopolítica digna de nota ocorrida nesse quarto de século. A Rússia, sob Putin, que aliás havia chegado ao cargo de primeiro-ministro apenas dois anos antes do 11 de Setembro, também tinha planos de fazer seu país retornar ao status de grande potência global. Em 2008, entrou em guerra com a Geórgia, ocupando partes do território georgiano, e, em 2014, anexou a Crimeia, fomentando ao mesmo tempo a guerra civil no Donbas ucraniano.

Será que se o esforço despendido pelos EUA na guerra ao terror tivesse sido utilizado para lidar com o crescimento econômico e militar da China ou com o expansionismo russo, o mundo teria chegado a 2026 vivendo a atual configuração geopolítica? Difícil saber.

Mas se é fato que o 11 de setembro abriu uma nova fase no sistema internacional, em que a superpotência global travava sua guerra ao terror, também é verdade que esse ciclo se encerrou com a retirada norte-americana de Cabul. A partir daquele marco, da invasão russa da Ucrânia no ano seguinte e do novo protagonismo chinês no sistema internacional, ficou claro que a ordem unipolar, na qual os EUA eram a única e inconteste superpotência, havia chegado ao fim e que o mundo entrava em uma ordem cada vez mais multipolar, estruturada principalmente pela competição entre EUA e China.

Vinte e cinco anos depois, talvez essa seja a principal perspectiva que a distância histórica nos permita ter sobre o 11 de Setembro. Os atentados não apenas transformaram a política externa e de segurança dos Estados Unidos, mas deram início a um ciclo de duas décadas durante o qual profundas mudanças na distribuição do poder global estavam em curso. O mundo que emergiu ao fim desse período é muito diferente daquele de 2001. Compreender essa transformação talvez seja uma das mais importantes lições deixadas por aquele 11 de setembro.

Este artigo foi originalmente publicado na Gazeta do Povo, em 14 de setembro de 2026

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A guerra híbrida da Rússia contra a Europa

No dia 1 de setembro, os ministros das Relações Exteriores e do Interior da Alemanha reuniram-se com a imprensa para informar que o governo do país está convencido de que a Rússia está por trás das tentativas de ataques com drones ao aeroporto de Leipzig, ocorridas no último dia 4 de agosto. Segundo investigações da polícia alemã, dois homens russos de dupla cidadania, um também bielorrusso e outro também letão, seriam responsáveis pela presença de drones com explosivos e detonadores na área do aeroporto, que serve como importante centro de distribuição de sistemas e materiais de emprego militar para a Ucrânia. O atentado, que teria como alvo uma aeronave Antonov An-124, somente não ocorreu por falha do detonador.

Episódios como esse entram na categoria de atos de guerra híbrida e estão se multiplicando na Alemanha e em outros países europeus, levando as autoridades a denunciarem uma crescente campanha russa com o objetivo de testar as reações europeias.

As ações da chamada guerra híbrida são aquelas que acontecem na “zona cinza” dos conflitos. Ou seja, permanecem abaixo do limiar da violência aberta e da guerra, de forma a evitar que a ação seja percebida pelo lado atacado como suficientemente grave para provocar uma reação militar, ao mesmo tempo em que preserva a ambiguidade e o espaço necessário aos autores para sustentarem a negação da responsabilidade pela ação. Entre os instrumentos disponíveis para a guerra híbrida estão a propaganda, a desinformação, as ações cibernéticas, a sabotagem, a subversão, a interferência política e ações econômicas, financeiras, tecnológicas, jurídicas e informacionais.

Os alemães já listam 160 possíveis ataques a infraestruturas críticas no país que podem ser incluídos na categoria de guerra híbrida, somente neste ano. São ações que incluem os recentes ataques a estações de fornecimento de energia em Brandemburgo e Colônia, o ataque a uma estação ferroviária em Augsburg e a descoberta de artefatos incendiários nas proximidades de empresas do setor de defesa em Munique, por exemplo.

As ações não se restringem à Alemanha. A Dinamarca acusa a Rússia de recrutar cidadãos de seu país para perpetrarem atentados contra indústrias de defesa que, de alguma forma, participam do esforço de guerra ucraniano. Segundo a denúncia, pessoas estariam sendo contatadas por canais do Telegram e pagas em criptomoedas, o que dificulta em muito a comprovação da responsabilidade russa no planejamento das ações.

Na Romênia, um caça F-16 destruiu um drone naval russo nas proximidades de uma plataforma de extração de gás natural, no Mar Negro, o que levou a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, a alertar que a Rússia empreendia uma crescente campanha de guerra híbrida, com o objetivo de inquietar os cidadãos europeus e dividir os Estados da União Europeia.

Na Polônia, o ministro das Relações Exteriores, Radoslaw Sikorski, afirmou que a guerra híbrida em curso da Rússia na Europa envolve “esquadrões da morte, ataques incendiários, sabotagem de infraestrutura e repetidas violações do espaço aéreo por drones e mísseis”.

A Rússia, cumprindo o previsto na própria definição teórica de guerra híbrida, nega todas as acusações. Em relação ao incidente no aeroporto de Leipzig, o presidente Putin acusou o chanceler da Alemanha de tentar distrair os eleitores antes da importante votação regional ocorrida no último fim de semana na Saxônia-Anhalt (onde o partido AfD, simpático à Rússia, saiu vitorioso). O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, por sua vez, declarou a jornalistas que nenhuma prova foi apresentada e acusou Berlim de “seguir por um caminho de maior escalada” nas relações entre os dois países.

A relevância desses episódios não está propriamente nos efeitos produzidos sobre os alvos. Uma tentativa malsucedida de sabotagem contra uma aeronave, um incêndio em uma estação ferroviária ou uma tentativa de sabotagem contra uma indústria de defesa são, isoladamente, eventos de importância limitada. Essa é justamente a ideia, uma vez que, como já vimos, ações de guerra híbrida devem manter o conflito abaixo do limiar da guerra justamente para não provocar uma reação de alta intensidade por parte dos atacados. Somados, entretanto, esses episódios obrigam os governos europeus a mobilizar recursos, aumentar a proteção de suas infraestruturas críticas e conviver com uma permanente sensação de insegurança.

Assim, na avaliação dos europeus, Moscou testa os seus limites. Cada ação mostra para os russos até que ponto se pode ir sem provocar uma resposta mais contundente. Ao mesmo tempo, ao atacar alvos relacionados ao apoio europeu à Ucrânia, a Rússia torna mais oneroso esse apoio. Isso, aliado à crescente insegurança que as ações russas causam nos cidadãos europeus, pode criar nas populações a percepção de que esse apoio embute riscos cada vez maiores, o que pode levar a uma diminuição do apoio europeu à Ucrânia.

Dessa forma, o dilema dos europeus é calibrar a resposta. Uma reação insuficiente pode convencer Moscou de que existe espaço para ações cada vez mais ousadas. Uma reação excessiva, por outro lado, pode desencadear a escalada que todos procuram evitar. Trata-se de responder a um desafio difícil: como dissuadir um adversário que deliberadamente procura atuar na zona cinzenta existente entre a paz e a guerra.

Este artigo foi originalmente publicado na Gazeta do Povo, em 8 de setembro de 2026

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Seis meses depois, quem está vencendo a guerra no Golfo Pérsico?

No último dia 28 de agosto, a guerra no Golfo Pérsico completou seis meses. Embora já dure muito mais do que as quatro a seis semanas inicialmente estimadas pela administração Trump para atingir os objetivos das operações militares contra o Irã, ainda não é possível afirmar que o término do conflito esteja próximo.

Recordemos como tudo começou. No dia 28 de fevereiro, norte-americanos e israelenses desencadearam uma ofensiva coordenada contra o Irã, denominada pelos Estados Unidos “Fúria Épica” e, por Israel, “Leão Rugidor”. Utilizando sua enorme capacidade militar, milhares de alvos iranianos passaram a ser atacados e atingidos, a começar pelas lideranças iranianas. Nos ataques do primeiro dia, o líder supremo iraniano, o aiatolá Ali Khamenei, foi eliminado. Também foram mortos muitos outros líderes do país e familiares de Khamenei, enquanto seu filho Mojtaba Khamenei foi gravemente ferido. Alguns dias depois, Mojtaba seria escolhido como o novo líder supremo do Irã.

A resposta iraniana foi imediata. No campo militar, Teerã passou a atacar bases militares e infraestruturas estratégicas em praticamente todos os países do Golfo Pérsico, além da Jordânia e de Israel. No campo econômico, provocou o fechamento quase completo do Estreito de Ormuz, impondo pesadas perdas econômicas não só aos países do Golfo, dependentes daquela passagem marítima para exportar petróleo e gás, mas também a toda a comunidade internacional, que viu os preços desses produtos essenciais dispararem. Dessa forma, a estratégia iraniana ficou clara: distribuir os custos da guerra pelo maior número possível de países, de modo que a comunidade internacional passasse a pressionar os norte-americanos pelo fim das hostilidades.

A primeira fase da guerra terminou no dia 8 de abril, quando o Paquistão mediou um cessar-fogo que deveria durar duas semanas. Essa data marca também o fim da campanha aérea israelense de alta intensidade contra o território iraniano, fazendo da guerra em torno do Estreito de Ormuz um enfrentamento principalmente entre norte-americanos e iranianos. Logo em seguida, no dia 13 de abril, os EUA passaram a colocar em prática uma estratégia de asfixia econômica do Irã, iniciando o bloqueio naval aos portos do país.

A transformação da natureza da guerra, de um conflito de alta intensidade em sua fase inicial para uma estratégia de asfixia econômica do Irã, adotada a partir de abril e bastante intensificada nos últimos dias com o anúncio, pelos EUA, da Operação Economic Outcast (algo como “Operação Isolamento Econômico”, em português), é que permite compreender o impasse estratégico que atualmente caracteriza o conflito, seis meses depois de sua deflagração.

Os EUA demonstraram claramente sua enorme superioridade militar na primeira fase do conflito. Destruíram a maior parte da capacidade naval iraniana e degradaram severamente suas defesas antiaéreas e seus meios de comando e controle. Entretanto, não conseguiram converter essa superioridade militar em uma solução política para a guerra.

Mas por que isso aconteceu?

Em primeiro lugar, destruição militar não redunda automaticamente em vitória política. Sun Tzu, há dois mil e quinhentos anos, já ensinava que vencer todas as batalhas não representa a forma suprema de excelência na guerra. A lição permanece atual: a destruição das forças do inimigo não é um fim em si mesma; ela só ganha sentido estratégico se contribuir para alcançar os objetivos políticos pretendidos. E foi justamente aí que os Estados Unidos falharam até agora: sua superioridade é incontestável no campo militar, mas isso não obrigou as lideranças iranianas a se dobrarem à sua vontade.

Isso se deve, em parte, à assimetria dos critérios pelos quais cada um dos lados define a sua vitória. Se, para os EUA, a vitória exige resultados concretos, como impedir definitivamente que o Irã obtenha uma arma nuclear e obrigar o regime a aceitar condições que atendam aos objetivos norte-americanos, para as lideranças iranianas, simplesmente sobreviver no poder já é suficiente. Se o regime permanece no poder, não capitula e continua conseguindo impor custos aos EUA e aos seus aliados, pode sustentar interna e externamente que resistiu à maior potência militar da atualidade e impediu que ela alcançasse plenamente seus objetivos.

Assim, o tempo trabalha de forma diferente para os dois lados. Se o presidente Trump precisa alcançar ganhos concretos para demonstrar que os enormes custos militares, econômicos e políticos da guerra produziram resultados favoráveis aos Estados Unidos, para os iranianos basta continuar resistindo e impondo custos ao adversário.

Essa é a razão de o conflito ter se tornado uma disputa centrada principalmente na abertura do Estreito de Ormuz. O Irã aproveita sua geografia para causar enormes transtornos ao tráfego marítimo comercial no estreito e compensar, ao menos parcialmente, sua enorme inferioridade militar diante dos Estados Unidos.

O descompasso entre os resultados que uma campanha aérea e um bloqueio naval podem efetivamente produzir e os ganhos estratégicos esperados pelos EUA mantém o impasse atual. Sabendo disso, os EUA intensificam a pressão econômica. Teerã aposta que o tempo, a geografia e a capacidade de continuar impondo custos aos seus adversários acabarão tornando uma solução política favorável a Washington cada vez mais difícil. Seis meses depois, a maior pergunta é quem conseguirá sustentar por mais tempo a sua vontade política.

Este artigo foi originalmente publicado na Gazeta do Povo, em 31 de agosto de 2026

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O degelo do Ártico está redesenhando a Geopolítica

No intervalo de apenas uma semana, empresas de transporte marítimo da China e da Coreia do Sul enviaram navios mercantes de portos de seus países para a Europa, por uma rota pouco usual: a Rota Norte, pelo Oceano Glacial Ártico. A viabilidade comercial da rota está sendo efetivamente testada, à medida que o descongelamento das águas daquele oceano torna viável, pelo menos por alguns meses no ano, uma rota antes interditada à navegação comercial.

O que a abertura dessa nova rota representa é uma verdadeira transformação da geografia do comércio entre a Ásia e a Europa, com consequências geopolíticas muito importantes.

Destaca-se, em primeiro lugar, a vantagem geográfica do encurtamento das distâncias. O Dubai Tower, navio chinês que inaugura a rota, saiu do porto de Ningbo no último dia 15, com previsão de chegar ao porto britânico de Felixstowe em cerca de 20 dias. Isso reduz praticamente pela metade o tempo do percurso pela rota tradicional, aquela que passa pelo Mar do Sul da China – Estreito de Malaca – Oceano Índico – Estreito de Bab el-Mandeb – Canal de Suez – Mar Mediterrâneo – Estreito de Gibraltar – Oceano Atlântico.

Em segundo lugar, a Rota Norte – que está sendo incorporada, na China, ao conceito de “Rota da Seda Polar” – evita os vários estreitos da rota tradicional. Como os conflitos no Oriente Médio vêm demonstrando, evitar a passagem por esses pontos de estrangulamento pode poupar muita dor de cabeça às companhias de transporte marítimo e a seus clientes.

Os países do Ocidente veem com desconfiança a iniciativa chinesa. Eles temem que a exploração comercial da rota também sirva a propósitos militares, como o mapeamento do fundo do mar em benefício da operação de submarinos chineses na região.

Os temores ocidentais aumentam porque a Rússia, em razão de seus 24 mil quilômetros de costa, detém o controle geoestratégico da Rota Norte. Isso exigirá uma estreita cooperação entre russos e quaisquer outros, sejam eles chineses, sul-coreanos ou japoneses, que queiram explorar comercialmente os mares do norte, cujas águas, em razão do aquecimento global, estarão progressivamente mais disponíveis à navegação.

O limitado acesso aos chamados “mares quentes” sempre foi um problema grave para a Rússia, que dependia de suas saídas pelos mares Báltico e Negro, além do Pacífico. O recuo do gelo no Ártico ampliará as opções da Frota do Norte russa, o que aumentará seu peso estratégico naquela parte do mundo e, consequentemente, os pontos de atrito com os países do Ocidente, especialmente com os europeus. Não é por outra razão que o presidente Trump pressiona a Dinamarca e afirma repetidas vezes que a Groenlândia é um território fundamental para a segurança dos EUA.

O que está acontecendo no Ártico não é apenas o surgimento de uma nova rota mais curta entre a Ásia e a Europa, mas sim uma alteração significativa das condições físicas que ditaram os principais conceitos geopolíticos do século XX. O Ártico, que sempre foi uma barreira praticamente intransponível a separar os grandes rivais da Guerra Fria, está se transformando progressivamente em um espaço de circulação, comércio e competição militar.

Rússia e China, além de Coreia do Sul e Japão, perceberam rapidamente as oportunidades abertas por essa transformação. Os Estados Unidos e seus aliados ocidentais também. A pressão de Trump sobre a Groenlândia, o fortalecimento das capacidades militares russas no extremo norte e a inclusão da Rota Norte na estratégia chinesa da Rota da Seda Polar são manifestações distintas de uma mesma realidade.

O recuo do gelo do Ártico altera cálculos geopolíticos e acrescenta ao tabuleiro estratégico global um novo espaço de competição. A corrida pelo Ártico, ao que tudo indica, está apenas começando.

Este artigo foi originalmente publicado na Gazeta do Povo, em 24 de agosto de 2026

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Doutrina Donroe: os EUA e a pretensão de domínio sobre as Américas

Uma postagem da conta oficial do Departamento de Estado dos Estados Unidos, feita no último dia 11 de agosto, nos faz voltar ao assunto da Doutrina Monroe. Em um vídeo narrado pelo embaixador dos EUA no Panamá, Kevin Cabrera, o Departamento de Estado transforma a Doutrina Monroe, de uma política do século XIX voltada a impedir novas intervenções ou tentativas de recolonização europeias nas recém-independentes repúblicas das Américas, em uma doutrina de primazia estratégica dos Estados Unidos sobre o Hemisfério Ocidental, na qual a frase dita pelo presidente Donald Trump, afirmando que “os EUA nunca mais teriam a sua dominância sobre o Hemisfério Ocidental questionada”, ganha papel de destaque.

No vídeo, o Departamento de Estado desenha uma estrutura hierárquica nas Américas, na qual os EUA desempenham, sem constrangimentos, um papel autoatribuído de dominância, em um tom que, em outras circunstâncias, seria considerado muito pouco usual para uma declaração diplomática: o tom inaugurado com a divulgação, em dezembro do ano passado, da nova Estratégia Nacional de Segurança dos Estados Unidos, que lançou oficialmente o chamado “corolário Trump à Doutrina Monroe”.

Aquele documento deixou clara a natureza do tal corolário, apelidado de “Doutrina Donroe”, que pode ser sumarizado em três ideias principais: (1) os EUA impedirão que concorrentes de fora do Hemisfério (sobretudo a China) posicionem forças ou outras capacidades que possam se constituir em ameaças, ou mesmo que “detenham a propriedade ou o controle de ativos estrategicamente vitais no Hemisfério Ocidental”; (2) os EUA atribuem máxima prioridade ao controle da imigração ilegal e do tráfico de drogas nas Américas; (3) os EUA querem ser vistos pelas outras nações das Américas “como sua parceira de primeira escolha” e “desencorajarão por diversos meios a colaboração delas com outros”.

No campo militar, a implementação prática dessas ideias vai ganhando forma e substância. Na semana passada, no Panamá, ocorreu mais uma reunião da Coalizão Contra Cartéis das Américas, que ganhou a sigla A3C, oportunidade em que foi anunciada a importantíssima adesão da Colômbia, que autorizou a participação das forças armadas de seu país nas operações conjuntas com as forças norte-americanas. O anúncio ocorreu no mesmo momento em que Pete Hegseth, o Secretário da Guerra dos EUA, afirmou que seu país já trabalha com países parceiros no planejamento de operações terrestres contra os grupos narcotraficantes da região. Comparando os grupos criminosos à Al Qaeda e a outras organizações terroristas, Hegseth afirmou que “onde quer que trafiquem drogas ou ameacem o povo americano ou nossos parceiros, essas organizações são um alvo”.

As falas das autoridades norte-americanas acerca da Doutrina Monroe, entretanto, não ganham apoio unânime na América Latina. Brasil e México, as duas maiores economias da região, não integram a A3C e mesmo o Chile, país que compõe a lista dos participantes, mostrou desconforto com o discurso de dominância norte-americano. Comentando a respeito, o ministro da Defesa do Chile manifestou suas reservas ao conceito, declarando que “do ponto de vista do Chile, não somos o quintal de nenhum país. Somos um país muito orgulhoso da nossa realidade”.

É evidente que a colaboração no combate ao crime organizado transnacional deve ser comemorada e que toda ajuda é bem-vinda. O problema é o tom adotado pela “Doutrina Donroe” e a pretensão de transformar a primazia norte-americana em princípio ordenador do Hemisfério, inclusive limitando a liberdade dos países da região de estabelecer relações estratégicas com terceiros.

Além disso, no nível global, há uma questão evidente: se Washington reivindica de maneira explícita uma esfera de influência no Hemisfério Ocidental, torna-se inevitável perguntar como os EUA poderão contestar conceitualmente reivindicações semelhantes de esferas de influência por parte da Rússia e da China em suas próprias vizinhanças estratégicas. Isso não significa que os casos sejam juridicamente ou historicamente equivalentes, mas o argumento para a contestação política de iniciativas expansionistas de outras potências se torna muito mais difícil.

Por fim, a postura dos EUA, percebida como arrogante por audiências em toda a região, vai dilapidando uma vantagem competitiva construída ao longo de décadas pelos EUA: seu inegável soft power, seu poder de atração, a admiração pelo seu modo de vida. Há sinais mensuráveis dessa erosão. Recentemente, o Pew Research Center realizou pesquisas em 36 países e descobriu que, na maioria deles, a visão dos entrevistados era mais favorável à China do que aos EUA. Isso não acontecia em pesquisas anteriores. A opinião pública sobre os EUA nos dois países com os quais faz fronteira é reveladora da perda desse patrimônio intangível. No Canadá, a parcela com opinião favorável aos Estados Unidos se reduziu de 57% para 33% em três anos. No México, apenas 40% da população vê os EUA de forma favorável. Em ambos os países, a avaliação positiva da China é superior à dos Estados Unidos.

Talvez os EUA não percebam, mas seu discurso não parece ser favorável aos seus próprios interesses. Tudo indica que, na Doutrina Donroe, o país esteja sendo mais identificado com as potências europeias que buscavam preservar ou restaurar seu domínio sobre as antigas colônias, do que propriamente com os EUA de James Monroe, que se apresentavam como defensores da independência das novas repúblicas americanas diante de uma eventual restauração colonial europeia. O risco é que “potências extrarregionais”, justamente aquelas que os EUA querem manter afastadas do Hemisfério Ocidental, passem a ser percebidas como aquelas que vão ajudar os latino-americanos na luta pela manutenção de sua autonomia. Afinal, não somos o quintal de ninguém.

Este artigo foi originalmente publicado na Gazeta do Povo, em 17 de agosto de 2026

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Estamos voltando a 1914? A perigosa reconstrução das alianças militares

No último dia 7, uma notícia chamou a atenção daqueles que se dedicam ao acompanhamento dos assuntos estratégicos e de defesa: Arábia Saudita, Turquia e Paquistão assinaram, na cidade sagrada de Meca, um acordo de defesa mútua que estipula que um ataque armado contra qualquer um dos três países seria considerado um ataque contra todos.

O arranjo reúne três países islâmicos sunitas, com capacidades complementares: a Arábia Saudita, detentora de enorme capacidade financeira, bem como recursos energéticos abundantes; a Turquia, país com relevante capacidade militar, com sua indústria de defesa e seu exército, que conta com o segundo maior efetivo dentro da OTAN; e o Paquistão, país detentor da bomba nuclear.

O estabelecimento de uma aliança militar com uma cláusula de defesa mútua que o próprio chanceler turco comparou ao Artigo 5º da OTAN nos obriga a fazer algumas reflexões, bem como a buscar exemplos históricos que ajudem a compreender as repercussões da criação desses arranjos. Afinal, como Mark Twain teria dito, a história, embora não se repita, muitas vezes “rima”…

Seria um exagero dizer que os acontecimentos de 2026 repetem aqueles que se deram antes da Primeira Guerra Mundial. Mas não me parece equivocado afirmar que alguns mecanismos que tornaram o sistema internacional pré-1914 perigoso estão reaparecendo.

Um desses mecanismos é o chamado “dilema de segurança”. Um país reforça suas alianças porque se sente ameaçado. Seu adversário, porém, interpreta a nova aliança como ameaça e procura fortalecer suas próprias capacidades e parceiros. O movimento que é defensivo para um lado parece ofensivo para o outro. É precisamente o tipo de dinâmica que alimentou a corrida armamentista anterior a 1914 e que parece ressurgir hoje: os gastos militares globais cresceram, em 2025, pelo 11º ano consecutivo, alcançando US$ 2,887 trilhões. Nesse sentido, também é importante destacar o contexto de deterioração radical do ambiente de segurança do Oriente Médio em que o novo pacto é firmado. O conflito no Golfo Pérsico, entre Irã e Estados Unidos, levanta, para países como a Arábia Saudita, dúvidas sobre se poderão realmente contar com os norte-americanos em um conflito futuro, o que os obriga, além de buscar outros parceiros militares, a aumentar ainda mais seus investimentos em defesa.

Tal como na primeira década do século 20, estamos nos dias de hoje assistindo, de forma progressiva, ao surgimento de arranjos formais e informais de segurança. Antes da Primeira Guerra, os países foram se agrupando em torno da Tríplice Entente ou da Tríplice Aliança, criando expectativas sobre quem apoiaria quem em uma crise militar. Hoje, para além da tradicional OTAN e das alianças dos EUA com Israel e diversos países do Indo-Pacífico, vemos o estabelecimento da “Amizade além de todos os limites” entre Rússia e China, a aliança formal entre Rússia e Coreia do Norte e a rede de parceiros do Irã por todo o Oriente Médio. Nesse sentido, é preocupante que a Turquia participe concomitantemente da OTAN e dessa nova aliança, uma vez que isso cria linhas de compromisso que conectam crises regionais diferentes. Vamos lembrar que há poucos dias a Ucrânia atacou um navio iraniano no Mar Cáspio, que, segundo a inteligência do país europeu, transportava suprimentos militares do Irã para a Rússia, uma ação que também conectava o conflito europeu ao do Golfo Pérsico.

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O perigo existente nesse tipo de dinâmica é evidente: com a criação da aliança de Meca, uma eventual guerra regional envolvendo Irã e Arábia Saudita poderia acionar os compromissos assumidos pelo Paquistão e pela Turquia, criando fortes pressões para o envolvimento dos dois países; e uma crise envolvendo a Turquia poderia produzir simultaneamente consequências para a OTAN.

Isso não significa que alianças sejam, por natureza, desestabilizadoras. Ao contrário, sua principal função é reforçar a dissuasão. O risco surge quando compromissos de segurança se multiplicam, se sobrepõem e transformam crises locais em desafios que envolvem outras potências que, de outra forma, poderiam permanecer fora do conflito.

O principal ponto de atenção é o seguinte: se nos próximos anos começarmos a enxergar com mais clareza a formação de blocos militares cada vez mais rígidos, como, por exemplo, EUA – OTAN – Japão – Coreia do Sul – Austrália versus Rússia – China – Coreia do Norte – Irã, nesse caso, a analogia com a década anterior a 1914 se tornará consideravelmente mais forte, e bem mais perigosa.

Este artigo foi originalmente publicado na Gazeta do Povo, em 10 de agosto de 2026

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Ceuta: a crise que revela as fraturas do norte da África e da Europa

Em menos de uma semana, com o ápice em 30 de julho, entre 50 e 60 mil pessoas vindas do Marrocos cruzaram a fronteira para a cidade autônoma de Ceuta, um dos enclaves espanhóis na margem africana do Estreito de Gibraltar. O movimento, estimulado por informações falsas de “abertura da fronteira” espalhadas pelas redes sociais e contando com indícios de passividade inicial das autoridades do Marrocos, desencadeou uma grave crise política e humanitária. A situação, que no momento parece estar contida, com boa parte das pessoas que cruzaram a fronteira já tendo retornado ao Marrocos, resultou em dezenas de mortes. Até o momento, ao menos 70 corpos teriam sido identificados como sendo de pessoas que se afogaram ao tentar fazer, a nado, o caminho que separa os dois territórios.

Esta é uma crise complexa, que deve ser analisada sob múltiplos ângulos.

Ceuta é uma pequena cidade de enorme importância geopolítica, localizada em uma posição estratégica na margem sul do Estreito de Gibraltar, uma das principais rotas marítimas do mundo, por onde passam milhares de navios em trânsito entre o Oceano Atlântico e o Mar Mediterrâneo.

Sob domínio europeu há séculos — Ceuta, conquistada por Portugal em 1415 e incorporada definitivamente à Espanha em 1668; e Melilla, espanhola desde 1497 — as duas cidades autônomas são até hoje reivindicadas pelo Marrocos. Nesse sentido, o governo marroquino é acusado por analistas e parte da imprensa espanhola de fomentar crises como essa atual, com o objetivo de enfraquecer a posição espanhola nas duas cidades. Um exemplo anterior seria a crise migratória de 2021, muito semelhante à atual, em que o fluxo maciço de imigrantes teria sido utilizado para causar uma crise e, consequentemente, desgastar politicamente o governo espanhol junto à sua população e à própria União Europeia.

Há, também, uma dimensão de política internacional, na qual se destacam as relações que envolvem a Espanha, o Marrocos, a Argélia e a disputa pelo controle do Saara Ocidental, território controlado como colônia por Madri até 1975. Com a retirada dos espanhóis, o Marrocos passou a considerar toda a área parte do seu território, conseguindo efetivamente controlar parte dele, especialmente o litoral. Entretanto, a Frente Polisário, movimento político-militar criado em 1973 para combater a presença espanhola e defender a independência e a autodeterminação do povo saarauí, proclamou, em 1976, a chamada República Árabe Saaraui Democrática. Reconhecida por diversos países e integrante da União Africana, a República Saaraui é apoiada principalmente pela Argélia, que fornece suporte político, diplomático e material à Frente Polisário.

Durante décadas, Madri procurou manter uma posição relativamente equilibrada entre Argel e Rabat. Em 2022, um ano após a crise migratória de Ceuta, o governo espanhol passou a considerar a proposta marroquina de autonomia como a base “mais séria, realista e crível” para uma solução. A mudança aproximou Espanha e Marrocos, cuja cooperação é fundamental para o controle migratório nas fronteiras de Ceuta e Melilla.

Recentemente, entretanto, o governo espanhol se aproximou da Argélia, maior fornecedor de gás natural da Espanha, o que desagradou Rabat, o que, segundo analistas, justificaria a passividade – se não o próprio estímulo – das autoridades marroquinas, com o objetivo de criar uma crise que pressione o governo de Madri.

Há ainda a posição dos Estados Unidos, que desde o primeiro mandato do presidente Trump, em 2020, reconhecem o Saara Ocidental como território marroquino. Trump manteve, durante todo a semana passada, fixada no topo de sua linha do tempo na rede Truth Social, uma postagem na qual agradece ao rei Mohammed VI, do Marrocos, a inauguração de uma moderna autoestrada que cruza o Saara Ocidental, que Trump afirma ter sido batizada em sua homenagem: “Highway Presidente Donald J. Trump”. Ao mesmo tempo em que celebra a proximidade com o rei marroquino, Trump tem péssimo relacionamento com o primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez. Ao estalar da crise, o Departamento de Estado dos EUA publicou uma mensagem na qual afirmava que a crise era resultado “dos esforços deliberados do governo espanhol para permitir e facilitar a imigração ilegal em massa para a Europa”.

Isso nos traz a um último aspecto importante dessa crise, a questão muito sensível na Europa da imigração ilegal, um objeto de disputa ideológica que está sendo claramente utilizado pelos diversos campos políticos neste momento. De um lado, partidos e movimentos mais conservadores apresentam o episódio como demonstração da fragilidade das fronteiras europeias, defendendo controles mais rigorosos e políticas migratórias mais restritivas. De outro, setores progressistas ressaltam a dimensão humanitária da crise, as condições econômicas e sociais que impulsionam os deslocamentos e a obrigação dos Estados europeus de respeitar o direito internacional e oferecer proteção àqueles que façam jus ao asilo ou a outras formas de proteção internacional.

Como se vê, a crise em curso em Ceuta possui múltiplas dimensões, que se interligam e demonstram com clareza a complexidade dos desafios contemporâneos. Questões geopolíticas, estratégicas, ideológicas e humanitárias se sobrepõem, criando problemas que muitos governos se mostram incapazes de enfrentar. As tensões, entretanto, continuam a se acumular, e basta uma centelha para que surjam novas crises, ainda mais graves.

Este artigo foi originalmente publicado na Gazeta do Povo, em 3 de agosto de 2026

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Da Ucrânia ao Irã: o risco de duas guerras se tornarem uma

No final da semana passada, a Ucrânia atacou um navio de carga iraniano no Mar Cáspio. Este foi o primeiro ataque ucraniano conhecido a atingir um ativo de um terceiro país no maior mar interior da Terra. Embora Kiev já tivesse realizado ataques de longo alcance contra instalações navais russas na região desde o final de 2024 e, mais recentemente, contra navios e plataformas de petróleo no Mar Cáspio, o envolvimento direto de uma embarcação iraniana marca uma nova etapa da escalada.

Esse evento chama especial atenção porque cria uma ligação direta entre os conflitos em curso no Leste Europeu e no Golfo Pérsico. O episódio ecoa acontecimentos semelhantes do passado e deve servir de alerta para a possibilidade de que guerras ainda formalmente distintas passem a se alimentar mutuamente, dando origem a um conflito mais amplo e perigosamente unificado.

O Ministério das Relações Exteriores do Irã classificou o ataque como um “ato de agressão”, “hostil e criminoso” e uma violação da Carta da ONU. Afirmou que a ação matou um tripulante e feriu outro em um navio comercial iraniano. Além disso, os iranianos convocaram o encarregado de negócios da Ucrânia em Teerã para apresentar um protesto formal.

Segundo a Ucrânia, o navio de carga transportava suprimentos militares do Irã para a Rússia. A cooperação militar entre os dois países não é nenhuma novidade. O melhor exemplo é o amplo emprego, pela Rússia, dos drones kamikaze iranianos Shahed-136, cuja venda foi acompanhada da transferência da tecnologia necessária à sua produção, o que permitiu a instalação de fábricas dessas armas em território russo.

O presidente Zelensky, da Ucrânia, afirmou que a inteligência ucraniana detectou o monitoramento, por satélites russos, de bases norte-americanas no Golfo Pérsico. Segundo o chefe de Estado, somente nos dias 19 e 20 de julho, quatro bases aéreas norte-americanas estiveram sob observação de satélites russos — duas no Bahrein, uma na Jordânia e uma no Kuwait. Zelensky sustentou que existe uma correlação entre esse monitoramento e os ataques iranianos contra instalações militares dos EUA na região. A acusação, ainda não comprovada de forma independente, indicaria um nível de cooperação entre Moscou e Teerã muito superior ao simples fornecimento de armamentos.

Isso não significa que as duas guerras já estejam unificadas. Significa, entretanto, que começam a se sobrepor as redes de inteligência, logística, fornecimento de armamentos e seleção de alvos que sustentam os dois conflitos. Uma eventual retaliação iraniana contra a Ucrânia, novos ataques ucranianos contra ativos iranianos ou uma participação russa comprovada na preparação de ofensivas contra bases norte-americanas poderiam aprofundar essa interligação. A sobreposição de conflitos distintos está longe de ser inédita.

A Primeira Guerra Mundial começou como um conflito localizado nos Bálcãs: o assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando em Sarajevo levou a Áustria-Hungria a declarar guerra à Sérvia. Em poucas semanas, uma sequência de ultimatos, mobilizações e declarações de guerra, potencializada pelo sistema de alianças, transformou a disputa local em um conflito europeu e, posteriormente, mundial.

A Segunda Guerra Sino-Japonesa, que começou em 1937 com o incidente da Ponte Marco Polo, permaneceu durante anos como um conflito essencialmente asiático entre China e Japão. Paralelamente, a guerra na Europa começou em 1939 com a invasão da Polônia. O ataque japonês a Pearl Harbor em dezembro de 1941, seguido da declaração de guerra da Alemanha aos EUA, fundiu os dois teatros. A guerra na Ásia passou a ser o teatro do Pacífico da Segunda Guerra Mundial. Rotas de suprimento, alianças e a participação das mesmas potências nos dois teatros transformaram conflitos paralelos em uma guerra global.

Os conflitos em curso no Golfo Pérsico e na Ucrânia permanecem formalmente distintos, e o ataque contra o navio iraniano no Mar Cáspio não significa que os dois teatros de operações tenham sido unificados. Entretanto, uma eventual resposta de Teerã — possibilidade reforçada pela declaração do ministro das Relações Exteriores do Irã, Seyed Abbas Araghchi, de que o episódio “não pode ficar sem resposta” — poderá iniciar uma dinâmica de ação e reação capaz de aproximá-los ainda mais.

Assim, é preciso que a comunidade internacional esteja atenta para evitar que uma sucessão de ataques, retaliações e compromissos entre aliados transforme duas guerras formalmente distintas em um único conflito, capaz de envolver um número maior de atores e de cobrar um preço ainda maior em vidas humanas.

Este artigo foi originalmente publicado em minha coluna na Gazeta do Povo, em 27 Jul 2026.

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Reforçando o insucesso: mantendo mesmas táticas, EUA não vai vencer o Irã

A guerra entre os Estados Unidos e o Irã foi retomada com grande intensidade. No momento em que escrevo, já são oito dias seguidos de bombardeios americanos a instalações iranianas. Além disso, a Marinha norte-americana retomou o bloqueio naval aos portos iranianos, impedindo a chegada e a saída de navios do país. Os iranianos, por sua vez, retomaram os ataques contra países do Golfo Pérsico que abrigam instalações militares norte-americanas. Também atingiram a base aérea de Muwaffaq Salti, na Jordânia, causando a morte de mais dois militares dos EUA. Agora, o número de militares norte-americanos que perderam a vida em razão dessa guerra contra o Irã chegou a dezesseis.

O fato de os iranianos terem conseguido atingir bases americanas, que certamente contam com defesas antiaéreas, mostra como as forças da Guarda Revolucionária do Irã aprenderam com os últimos combates e adaptaram suas táticas: há relatos de que têm utilizado mísseis com maior velocidade e manobrabilidade, possivelmente beneficiando-se de tecnologias, conhecimentos ou sistemas fornecidos pela Rússia ou pela China.

Aqueles que acompanham esta coluna sabem que sempre tive dúvidas sobre a efetividade do cessar-fogo nos termos em que foi acordado, por meio de um memorando de entendimento firmado pelos presidentes dos EUA e do Irã, em junho. Ficou imediatamente claro que o documento apenas adiava, sem encaminhar de maneira satisfatória, as principais questões entre os dois países: o programa nuclear iraniano e o regime de controle da passagem de navios mercantes pelo Estreito de Ormuz.

Agora que ambos os lados consideram o documento assinado em junho letra morta, as negociações voltaram praticamente à estaca zero. Isso se refletiu imediatamente nos preços do petróleo, que voltaram a subir, com reflexos para a economia global. A pressão sobre os estoques estratégicos e comerciais de petróleo, que já tinham sido parcialmente consumidos na primeira parte da guerra, volta a ser grande.

A pressão militar e econômica sobre o Irã é enorme. Os prejuízos causados pelo bloqueio naval são muito significativos: a moeda do país, o rial, desvalorizou-se e atingiu seu valor mínimo histórico, ao mesmo tempo em que a inflação e a destruição da infraestrutura energética e de transportes pelos ataques norte-americanos punem severamente a população civil.

Apesar disso, é pouco provável que, nesta nova fase da guerra, uma campanha baseada em ataques aéreos leve à capitulação do regime iraniano, assim como não teve esse efeito na primeira fase. No início dos anos 2000, quando eu era instrutor na Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais do Exército (EsAO), nos jogos de guerra realizados nas salas de aula e nos exercícios no terreno, montávamos, para os alunos, situações fictícias nas quais eles eram obrigados a tomar novas decisões diante das reações do inimigo ou de outras mudanças no quadro tático do exercício. Via de regra, quando o capitão-aluno resolvia “fazer mais do mesmo”, ou seja, continuar atuando da mesma forma que, até aquele momento, não tinha produzido os resultados esperados, dizíamos a ele que estava “reforçando o insucesso” e o estimulávamos a tomar novas decisões.

É mais ou menos isso que as forças norte-americanas estão fazendo ao retomar os bombardeios e o bloqueio naval. Estão fazendo “mais do mesmo” na esperança vã de alcançar um resultado diferente. Minha avaliação é que, se o objetivo continuar sendo obrigar o regime iraniano a capitular ou a aceitar as condições impostas pelos Estados Unidos, não dará certo.

Este artigo foi originalmente publicado em minha coluna na Gazeta do Povo, em 20 Jul 2026.

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