Estamos voltando a 1914? A perigosa reconstrução das alianças militares

No último dia 7, uma notícia chamou a atenção daqueles que se dedicam ao acompanhamento dos assuntos estratégicos e de defesa: Arábia Saudita, Turquia e Paquistão assinaram, na cidade sagrada de Meca, um acordo de defesa mútua que estipula que um ataque armado contra qualquer um dos três países seria considerado um ataque contra todos.

O arranjo reúne três países islâmicos sunitas, com capacidades complementares: a Arábia Saudita, detentora de enorme capacidade financeira, bem como recursos energéticos abundantes; a Turquia, país com relevante capacidade militar, com sua indústria de defesa e seu exército, que conta com o segundo maior efetivo dentro da OTAN; e o Paquistão, país detentor da bomba nuclear.

O estabelecimento de uma aliança militar com uma cláusula de defesa mútua que o próprio chanceler turco comparou ao Artigo 5º da OTAN nos obriga a fazer algumas reflexões, bem como a buscar exemplos históricos que ajudem a compreender as repercussões da criação desses arranjos. Afinal, como Mark Twain teria dito, a história, embora não se repita, muitas vezes “rima”…

Seria um exagero dizer que os acontecimentos de 2026 repetem aqueles que se deram antes da Primeira Guerra Mundial. Mas não me parece equivocado afirmar que alguns mecanismos que tornaram o sistema internacional pré-1914 perigoso estão reaparecendo.

Um desses mecanismos é o chamado “dilema de segurança”. Um país reforça suas alianças porque se sente ameaçado. Seu adversário, porém, interpreta a nova aliança como ameaça e procura fortalecer suas próprias capacidades e parceiros. O movimento que é defensivo para um lado parece ofensivo para o outro. É precisamente o tipo de dinâmica que alimentou a corrida armamentista anterior a 1914 e que parece ressurgir hoje: os gastos militares globais cresceram, em 2025, pelo 11º ano consecutivo, alcançando US$ 2,887 trilhões. Nesse sentido, também é importante destacar o contexto de deterioração radical do ambiente de segurança do Oriente Médio em que o novo pacto é firmado. O conflito no Golfo Pérsico, entre Irã e Estados Unidos, levanta, para países como a Arábia Saudita, dúvidas sobre se poderão realmente contar com os norte-americanos em um conflito futuro, o que os obriga, além de buscar outros parceiros militares, a aumentar ainda mais seus investimentos em defesa.

Tal como na primeira década do século 20, estamos nos dias de hoje assistindo, de forma progressiva, ao surgimento de arranjos formais e informais de segurança. Antes da Primeira Guerra, os países foram se agrupando em torno da Tríplice Entente ou da Tríplice Aliança, criando expectativas sobre quem apoiaria quem em uma crise militar. Hoje, para além da tradicional OTAN e das alianças dos EUA com Israel e diversos países do Indo-Pacífico, vemos o estabelecimento da “Amizade além de todos os limites” entre Rússia e China, a aliança formal entre Rússia e Coreia do Norte e a rede de parceiros do Irã por todo o Oriente Médio. Nesse sentido, é preocupante que a Turquia participe concomitantemente da OTAN e dessa nova aliança, uma vez que isso cria linhas de compromisso que conectam crises regionais diferentes. Vamos lembrar que há poucos dias a Ucrânia atacou um navio iraniano no Mar Cáspio, que, segundo a inteligência do país europeu, transportava suprimentos militares do Irã para a Rússia, uma ação que também conectava o conflito europeu ao do Golfo Pérsico.

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O perigo existente nesse tipo de dinâmica é evidente: com a criação da aliança de Meca, uma eventual guerra regional envolvendo Irã e Arábia Saudita poderia acionar os compromissos assumidos pelo Paquistão e pela Turquia, criando fortes pressões para o envolvimento dos dois países; e uma crise envolvendo a Turquia poderia produzir simultaneamente consequências para a OTAN.

Isso não significa que alianças sejam, por natureza, desestabilizadoras. Ao contrário, sua principal função é reforçar a dissuasão. O risco surge quando compromissos de segurança se multiplicam, se sobrepõem e transformam crises locais em desafios que envolvem outras potências que, de outra forma, poderiam permanecer fora do conflito.

O principal ponto de atenção é o seguinte: se nos próximos anos começarmos a enxergar com mais clareza a formação de blocos militares cada vez mais rígidos, como, por exemplo, EUA – OTAN – Japão – Coreia do Sul – Austrália versus Rússia – China – Coreia do Norte – Irã, nesse caso, a analogia com a década anterior a 1914 se tornará consideravelmente mais forte, e bem mais perigosa.

Este artigo foi originalmente publicado na Gazeta do Povo, em 10 de agosto de 2026

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Ceuta: a crise que revela as fraturas do norte da África e da Europa

Em menos de uma semana, com o ápice em 30 de julho, entre 50 e 60 mil pessoas vindas do Marrocos cruzaram a fronteira para a cidade autônoma de Ceuta, um dos enclaves espanhóis na margem africana do Estreito de Gibraltar. O movimento, estimulado por informações falsas de “abertura da fronteira” espalhadas pelas redes sociais e contando com indícios de passividade inicial das autoridades do Marrocos, desencadeou uma grave crise política e humanitária. A situação, que no momento parece estar contida, com boa parte das pessoas que cruzaram a fronteira já tendo retornado ao Marrocos, resultou em dezenas de mortes. Até o momento, ao menos 70 corpos teriam sido identificados como sendo de pessoas que se afogaram ao tentar fazer, a nado, o caminho que separa os dois territórios.

Esta é uma crise complexa, que deve ser analisada sob múltiplos ângulos.

Ceuta é uma pequena cidade de enorme importância geopolítica, localizada em uma posição estratégica na margem sul do Estreito de Gibraltar, uma das principais rotas marítimas do mundo, por onde passam milhares de navios em trânsito entre o Oceano Atlântico e o Mar Mediterrâneo.

Sob domínio europeu há séculos — Ceuta, conquistada por Portugal em 1415 e incorporada definitivamente à Espanha em 1668; e Melilla, espanhola desde 1497 — as duas cidades autônomas são até hoje reivindicadas pelo Marrocos. Nesse sentido, o governo marroquino é acusado por analistas e parte da imprensa espanhola de fomentar crises como essa atual, com o objetivo de enfraquecer a posição espanhola nas duas cidades. Um exemplo anterior seria a crise migratória de 2021, muito semelhante à atual, em que o fluxo maciço de imigrantes teria sido utilizado para causar uma crise e, consequentemente, desgastar politicamente o governo espanhol junto à sua população e à própria União Europeia.

Há, também, uma dimensão de política internacional, na qual se destacam as relações que envolvem a Espanha, o Marrocos, a Argélia e a disputa pelo controle do Saara Ocidental, território controlado como colônia por Madri até 1975. Com a retirada dos espanhóis, o Marrocos passou a considerar toda a área parte do seu território, conseguindo efetivamente controlar parte dele, especialmente o litoral. Entretanto, a Frente Polisário, movimento político-militar criado em 1973 para combater a presença espanhola e defender a independência e a autodeterminação do povo saarauí, proclamou, em 1976, a chamada República Árabe Saaraui Democrática. Reconhecida por diversos países e integrante da União Africana, a República Saaraui é apoiada principalmente pela Argélia, que fornece suporte político, diplomático e material à Frente Polisário.

Durante décadas, Madri procurou manter uma posição relativamente equilibrada entre Argel e Rabat. Em 2022, um ano após a crise migratória de Ceuta, o governo espanhol passou a considerar a proposta marroquina de autonomia como a base “mais séria, realista e crível” para uma solução. A mudança aproximou Espanha e Marrocos, cuja cooperação é fundamental para o controle migratório nas fronteiras de Ceuta e Melilla.

Recentemente, entretanto, o governo espanhol se aproximou da Argélia, maior fornecedor de gás natural da Espanha, o que desagradou Rabat, o que, segundo analistas, justificaria a passividade – se não o próprio estímulo – das autoridades marroquinas, com o objetivo de criar uma crise que pressione o governo de Madri.

Há ainda a posição dos Estados Unidos, que desde o primeiro mandato do presidente Trump, em 2020, reconhecem o Saara Ocidental como território marroquino. Trump manteve, durante todo a semana passada, fixada no topo de sua linha do tempo na rede Truth Social, uma postagem na qual agradece ao rei Mohammed VI, do Marrocos, a inauguração de uma moderna autoestrada que cruza o Saara Ocidental, que Trump afirma ter sido batizada em sua homenagem: “Highway Presidente Donald J. Trump”. Ao mesmo tempo em que celebra a proximidade com o rei marroquino, Trump tem péssimo relacionamento com o primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez. Ao estalar da crise, o Departamento de Estado dos EUA publicou uma mensagem na qual afirmava que a crise era resultado “dos esforços deliberados do governo espanhol para permitir e facilitar a imigração ilegal em massa para a Europa”.

Isso nos traz a um último aspecto importante dessa crise, a questão muito sensível na Europa da imigração ilegal, um objeto de disputa ideológica que está sendo claramente utilizado pelos diversos campos políticos neste momento. De um lado, partidos e movimentos mais conservadores apresentam o episódio como demonstração da fragilidade das fronteiras europeias, defendendo controles mais rigorosos e políticas migratórias mais restritivas. De outro, setores progressistas ressaltam a dimensão humanitária da crise, as condições econômicas e sociais que impulsionam os deslocamentos e a obrigação dos Estados europeus de respeitar o direito internacional e oferecer proteção àqueles que façam jus ao asilo ou a outras formas de proteção internacional.

Como se vê, a crise em curso em Ceuta possui múltiplas dimensões, que se interligam e demonstram com clareza a complexidade dos desafios contemporâneos. Questões geopolíticas, estratégicas, ideológicas e humanitárias se sobrepõem, criando problemas que muitos governos se mostram incapazes de enfrentar. As tensões, entretanto, continuam a se acumular, e basta uma centelha para que surjam novas crises, ainda mais graves.

Este artigo foi originalmente publicado na Gazeta do Povo, em 3 de agosto de 2026

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Da Ucrânia ao Irã: o risco de duas guerras se tornarem uma

No final da semana passada, a Ucrânia atacou um navio de carga iraniano no Mar Cáspio. Este foi o primeiro ataque ucraniano conhecido a atingir um ativo de um terceiro país no maior mar interior da Terra. Embora Kiev já tivesse realizado ataques de longo alcance contra instalações navais russas na região desde o final de 2024 e, mais recentemente, contra navios e plataformas de petróleo no Mar Cáspio, o envolvimento direto de uma embarcação iraniana marca uma nova etapa da escalada.

Esse evento chama especial atenção porque cria uma ligação direta entre os conflitos em curso no Leste Europeu e no Golfo Pérsico. O episódio ecoa acontecimentos semelhantes do passado e deve servir de alerta para a possibilidade de que guerras ainda formalmente distintas passem a se alimentar mutuamente, dando origem a um conflito mais amplo e perigosamente unificado.

O Ministério das Relações Exteriores do Irã classificou o ataque como um “ato de agressão”, “hostil e criminoso” e uma violação da Carta da ONU. Afirmou que a ação matou um tripulante e feriu outro em um navio comercial iraniano. Além disso, os iranianos convocaram o encarregado de negócios da Ucrânia em Teerã para apresentar um protesto formal.

Segundo a Ucrânia, o navio de carga transportava suprimentos militares do Irã para a Rússia. A cooperação militar entre os dois países não é nenhuma novidade. O melhor exemplo é o amplo emprego, pela Rússia, dos drones kamikaze iranianos Shahed-136, cuja venda foi acompanhada da transferência da tecnologia necessária à sua produção, o que permitiu a instalação de fábricas dessas armas em território russo.

O presidente Zelensky, da Ucrânia, afirmou que a inteligência ucraniana detectou o monitoramento, por satélites russos, de bases norte-americanas no Golfo Pérsico. Segundo o chefe de Estado, somente nos dias 19 e 20 de julho, quatro bases aéreas norte-americanas estiveram sob observação de satélites russos — duas no Bahrein, uma na Jordânia e uma no Kuwait. Zelensky sustentou que existe uma correlação entre esse monitoramento e os ataques iranianos contra instalações militares dos EUA na região. A acusação, ainda não comprovada de forma independente, indicaria um nível de cooperação entre Moscou e Teerã muito superior ao simples fornecimento de armamentos.

Isso não significa que as duas guerras já estejam unificadas. Significa, entretanto, que começam a se sobrepor as redes de inteligência, logística, fornecimento de armamentos e seleção de alvos que sustentam os dois conflitos. Uma eventual retaliação iraniana contra a Ucrânia, novos ataques ucranianos contra ativos iranianos ou uma participação russa comprovada na preparação de ofensivas contra bases norte-americanas poderiam aprofundar essa interligação. A sobreposição de conflitos distintos está longe de ser inédita.

A Primeira Guerra Mundial começou como um conflito localizado nos Bálcãs: o assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando em Sarajevo levou a Áustria-Hungria a declarar guerra à Sérvia. Em poucas semanas, uma sequência de ultimatos, mobilizações e declarações de guerra, potencializada pelo sistema de alianças, transformou a disputa local em um conflito europeu e, posteriormente, mundial.

A Segunda Guerra Sino-Japonesa, que começou em 1937 com o incidente da Ponte Marco Polo, permaneceu durante anos como um conflito essencialmente asiático entre China e Japão. Paralelamente, a guerra na Europa começou em 1939 com a invasão da Polônia. O ataque japonês a Pearl Harbor em dezembro de 1941, seguido da declaração de guerra da Alemanha aos EUA, fundiu os dois teatros. A guerra na Ásia passou a ser o teatro do Pacífico da Segunda Guerra Mundial. Rotas de suprimento, alianças e a participação das mesmas potências nos dois teatros transformaram conflitos paralelos em uma guerra global.

Os conflitos em curso no Golfo Pérsico e na Ucrânia permanecem formalmente distintos, e o ataque contra o navio iraniano no Mar Cáspio não significa que os dois teatros de operações tenham sido unificados. Entretanto, uma eventual resposta de Teerã — possibilidade reforçada pela declaração do ministro das Relações Exteriores do Irã, Seyed Abbas Araghchi, de que o episódio “não pode ficar sem resposta” — poderá iniciar uma dinâmica de ação e reação capaz de aproximá-los ainda mais.

Assim, é preciso que a comunidade internacional esteja atenta para evitar que uma sucessão de ataques, retaliações e compromissos entre aliados transforme duas guerras formalmente distintas em um único conflito, capaz de envolver um número maior de atores e de cobrar um preço ainda maior em vidas humanas.

Este artigo foi originalmente publicado em minha coluna na Gazeta do Povo, em 27 Jul 2026.

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Reforçando o insucesso: mantendo mesmas táticas, EUA não vai vencer o Irã

A guerra entre os Estados Unidos e o Irã foi retomada com grande intensidade. No momento em que escrevo, já são oito dias seguidos de bombardeios americanos a instalações iranianas. Além disso, a Marinha norte-americana retomou o bloqueio naval aos portos iranianos, impedindo a chegada e a saída de navios do país. Os iranianos, por sua vez, retomaram os ataques contra países do Golfo Pérsico que abrigam instalações militares norte-americanas. Também atingiram a base aérea de Muwaffaq Salti, na Jordânia, causando a morte de mais dois militares dos EUA. Agora, o número de militares norte-americanos que perderam a vida em razão dessa guerra contra o Irã chegou a dezesseis.

O fato de os iranianos terem conseguido atingir bases americanas, que certamente contam com defesas antiaéreas, mostra como as forças da Guarda Revolucionária do Irã aprenderam com os últimos combates e adaptaram suas táticas: há relatos de que têm utilizado mísseis com maior velocidade e manobrabilidade, possivelmente beneficiando-se de tecnologias, conhecimentos ou sistemas fornecidos pela Rússia ou pela China.

Aqueles que acompanham esta coluna sabem que sempre tive dúvidas sobre a efetividade do cessar-fogo nos termos em que foi acordado, por meio de um memorando de entendimento firmado pelos presidentes dos EUA e do Irã, em junho. Ficou imediatamente claro que o documento apenas adiava, sem encaminhar de maneira satisfatória, as principais questões entre os dois países: o programa nuclear iraniano e o regime de controle da passagem de navios mercantes pelo Estreito de Ormuz.

Agora que ambos os lados consideram o documento assinado em junho letra morta, as negociações voltaram praticamente à estaca zero. Isso se refletiu imediatamente nos preços do petróleo, que voltaram a subir, com reflexos para a economia global. A pressão sobre os estoques estratégicos e comerciais de petróleo, que já tinham sido parcialmente consumidos na primeira parte da guerra, volta a ser grande.

A pressão militar e econômica sobre o Irã é enorme. Os prejuízos causados pelo bloqueio naval são muito significativos: a moeda do país, o rial, desvalorizou-se e atingiu seu valor mínimo histórico, ao mesmo tempo em que a inflação e a destruição da infraestrutura energética e de transportes pelos ataques norte-americanos punem severamente a população civil.

Apesar disso, é pouco provável que, nesta nova fase da guerra, uma campanha baseada em ataques aéreos leve à capitulação do regime iraniano, assim como não teve esse efeito na primeira fase. No início dos anos 2000, quando eu era instrutor na Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais do Exército (EsAO), nos jogos de guerra realizados nas salas de aula e nos exercícios no terreno, montávamos, para os alunos, situações fictícias nas quais eles eram obrigados a tomar novas decisões diante das reações do inimigo ou de outras mudanças no quadro tático do exercício. Via de regra, quando o capitão-aluno resolvia “fazer mais do mesmo”, ou seja, continuar atuando da mesma forma que, até aquele momento, não tinha produzido os resultados esperados, dizíamos a ele que estava “reforçando o insucesso” e o estimulávamos a tomar novas decisões.

É mais ou menos isso que as forças norte-americanas estão fazendo ao retomar os bombardeios e o bloqueio naval. Estão fazendo “mais do mesmo” na esperança vã de alcançar um resultado diferente. Minha avaliação é que, se o objetivo continuar sendo obrigar o regime iraniano a capitular ou a aceitar as condições impostas pelos Estados Unidos, não dará certo.

Este artigo foi originalmente publicado em minha coluna na Gazeta do Povo, em 20 Jul 2026.

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Os Estados Unidos de Trump e a Rússia de Putin perderam suas capacidades de dissuasão?

Dissuasão é uma palavra muito usada quando se escreve ou se conversa sobre estratégia. Entretanto, seu conceito não é completamente percebido por muitos que, ou a empregam de forma equivocada ou não compreendem perfeitamente seu significado.

Dissuadir é convencer um adversário a não realizar determinada ação, fazendo-o acreditar que não conseguirá alcançar seus objetivos ou que sofrerá consequências superiores aos eventuais benefícios esperados.

Para que a dissuasão seja alcançada, são necessárias três condições – “3Cs”. A primeira é possuir as capacidades militares necessárias para negar ao adversário os objetivos pretendidos ou lhe impor custos elevados. Por exemplo, um país que detenha um arsenal nuclear capaz de sobreviver a um primeiro ataque e retaliar possui um instrumento que, em tese, deveria levar seus adversários a agir com extrema cautela.

A segunda condição é a credibilidade. Possuir capacidades, por si só, não dissuade completamente. É necessário que aquele que as detém consiga convencer o adversário de que estará disposto a empregá-las caso determinados limites sejam ultrapassados.

A terceira condição é a comunicação. As capacidades e a disposição para empregá-las precisam ser percebidas corretamente pelo adversário. Para isso, intenções, limites e consequências devem ser comunicados de maneira suficientemente clara, reduzindo o risco de erros de cálculo.

Duas guerras em curso, entretanto, mostram que a dissuasão não é automática, como talvez pudesse parecer. A Rússia tem se mostrado incapaz de dissuadir a Ucrânia de aprofundar o combate atingindo alvos cada vez mais no interior do país, e os EUA são incapazes de dissuadir o Irã de continuar interferindo no tráfego marítimo no Estreito de Ormuz e de atacar interesses norte-americanos no Golfo Pérsico.

Por que isso acontece, mesmo sendo Rússia e Estados Unidos grandes potências militares?

No caso russo, a dissuasão convencional mostra-se insuficiente, não exatamente por ausência de capacidades militares, mas porque Moscou não consegue, apenas com elas, impedir os ataques ucranianos em profundidade nem impor custos capazes de fazer Kiev abandoná-los.

Resta aos russos, então, a dissuasão nuclear. O arsenal atômico de Moscou ainda influencia a cautela dos países da OTAN e ajuda a explicar por que a Aliança evita participar diretamente da guerra. Entretanto, as ameaças nucleares não conseguem impedir que a Ucrânia realize ataques convencionais limitados porque falta à Rússia a segunda condicionante, a credibilidade, uma vez que os ucranianos consideram que a Rússia dificilmente empregará uma arma nuclear em resposta. Uma reação dessa natureza seria desproporcional, romperia o tabu nuclear e provocaria enorme reação contrária da comunidade internacional, muito especialmente dos países europeus da OTAN.

No caso dos Estados Unidos, evidentemente não faltam capacidades militares. Mas, o fato de o presidente Trump repetidas vezes ter deixado claro que queria um fim breve para as operações militares causou um efeito contrário ao pretendido em termos de dissuasão. Ao sinalizar pouca disposição de sustentar uma guerra prolongada, ou de enviar efetivos terrestres para a zona de operações, Trump sinalizou aos iranianos que os ataques poderiam ser intensos, mas certamente seriam limitados no tempo e não envolveriam invasões terrestres. A enorme superioridade militar norte-americana é incontestável, mas como a disposição de Washington para empregá-la pelo tempo e na intensidade necessária é questionável, o poder dissuasório decresce consideravelmente.

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Há, também, um problema na comunicação. Ultimatos, anúncios de cessar-fogo, ameaças de novos ataques, retomada das negociações e posteriores bombardeios transmitem sinais contraditórios. As “linhas vermelhas” não ficam claras e, consequentemente, os limites que podem ou não ser ultrapassados sem gerar consequências, ficam borrados.

O risco disso tudo é que, em determinado momento, tanto russos quanto norte-americanos queiram demonstrar aos seus adversários e ao mundo que seu poder dissuasório não pode ser desconsiderado. Nessa hipótese, Moscou e Washington podem ser levados a escalar seus conflitos de forma abrupta, adotando medidas cada vez mais destrutivas não apenas para alcançar objetivos militares imediatos, mas também para restaurar a credibilidade de suas ameaças e de suas disposições para empregar a força. Nesse caso, as consequências seriam amplas, extrapolando os teatros de operações atuais e trazendo consequências para todo o sistema internacional.

Este artigo foi originalmente publicado em minha coluna na Gazeta do Povo, em 13 Jul 2026.

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Os EUA aos 250 anos: entre valores universais e interesses nacionais

Os Estados Unidos da América completaram 250 anos de independência. A passagem de uma data tão marcante oferece uma excelente oportunidade para se discutir o papel que a superpotência militar, econômica, científico-tecnológica e cultural desempenha no atual momento do sistema internacional.

Em 4 de julho de 1776, no Segundo Congresso Continental, foi adotada a Declaração de Independência, principalmente redigida por Thomas Jefferson, cujo preâmbulo continha sua frase mais famosa, que inspirou americanos e não-americanos desde então: “Consideramos estas verdades como evidentes por si mesmas: que todos os homens são criados iguais, que são dotados pelo seu Criador de certos direitos inalienáveis, que entre estes estão a vida, a liberdade e a busca da felicidade.”

Mesmo que a declaração contivesse contradições incontornáveis e óbvias com a realidade dos fatos à época, afinal a nação que surgia mantinha a escravidão e não tratava homens e mulheres com igualdade, o documento lançava as sementes das ideias que, no futuro e à custa de muito sangue, levariam os EUA às transformações sociais que, se não tornaram todos os homens iguais, pelo menos aproximaram aquela sociedade desse objetivo de forma mais consistente do que a maior parte dos países do mundo.

Nessa caminhada de 250 anos, na qual uma frouxa reunião de treze ex-colônias se transformou na maior superpotência global, os EUA sempre viveram um dilema: como equilibrar os valores fundamentais que proclamavam com seus próprios interesses ao lidar com os demais países?

Essas tensões ficam claríssimas logo após a Primeira Guerra Mundial quando, apesar do presidente dos EUA, Woodrow Wilson, ter sido o maior incentivador da criação da Liga das Nações, cujo objetivo era preservar a paz por meio da segurança coletiva, da diplomacia e da redução de armamentos, no próprio Senado americano essa ideia era combatida, sob o argumento de que a adesão do país poderia envolvê-lo em conflitos que nada tinham a ver com seus interesses. Por fim, o Senado vetou a adesão dos EUA à Liga, enfraquecendo-a já no nascimento, e contribuindo decisivamente para o seu fracasso.

Na Segunda Guerra Mundial, após o ataque japonês a Pearl Harbor, tropas americanas lutaram na Europa, no Norte da África e no Pacífico. A um custo de mais de 400 mil vidas, os EUA lideraram os aliados na vitória contra o nazifascismo. Entretanto, também legaram ao mundo o terror nuclear, ao lançarem as bombas atômicas sobre as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki.

Foi ainda durante a Segunda Guerra Mundial que, reunidos em Bretton Woods, nos EUA, representantes de 44 países criaram as duas instituições financeiras – o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial – que moldariam as relações econômicas globais por décadas e consolidariam a liderança econômica norte-americana no pós Segunda Guerra.

Em 1945, ao fim da guerra, mais uma vez os EUA lideraram a criação de um organismo multilateral: a ONU. Aprendendo com os erros da Liga das Nações, as Nações Unidas organizaram-se de forma a balancear as tensões entre seus mais poderosos membros, o que contribuiu para a sua longevidade até os dias atuais.

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Entre 1947 e 1991, o mundo mergulhou na Guerra Fria, com os EUA imersos em uma enorme competição ideológica com a União Soviética, sob a ameaça de um conflito nuclear que repetidamente atingiu níveis extremos, além da eclosão de diversos conflitos por procuração entre norte-americanos e soviéticos. A criação da OTAN e o Plano Marshall fortaleceram os laços dos EUA com a Europa Ocidental. Ao travarem a guerra contra o comunismo, os norte-americanos envolveram-se internacionalmente de forma profunda, indo à guerra na Península da Coreia e no Vietnã, influenciando e interferindo em governos de diversas partes do mundo.

No início da década de 1990, com a dissolução da União Soviética e a acachapante vitória sobre as forças iraquianas, que em seis semanas foram expulsas do Kuwait, os EUA demonstraram ser a única superpotência militar do planeta. Estava inaugurado o momento unipolar, no qual os norte-americanos acreditaram que passariam a liderar uma ordem internacional de valores compartilhados em torno de ideias liberais, à sua própria imagem e semelhança.

Entretanto, em 2003, no contexto da guerra ao terror iniciada após os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, os EUA invadiram o Iraque sem a necessária autorização do Conselho de Segurança da ONU, naquele que talvez tenha sido o exemplo mais claro da tensão entre a retórica de liberdade, democracia e ordem internacional, de um lado, e a prática unilateral do poder militar, de outro.

Na segunda década do século XXI, a acelerada ascensão da China levou a potência asiática a desafiar essa ordem, oferecendo-se como liderança alternativa e passando a competir com os Estados Unidos especialmente no campo econômico, mas também, de forma crescente, nos campos científico-tecnológico e militar.

É nesse novo contexto de competição estratégica que surge Donald Trump como líder de um movimento que promove profundas transformações na forma como os EUA se relacionam com o restante do mundo. Já em seu primeiro mandato, mas de maneira ainda mais clara no segundo, Trump passou a colocar aquilo que ele julga serem os interesses norte-americanos acima dos compromissos multilaterais, das alianças tradicionais e até de algumas das instituições que ajudaram a sustentar a própria supremacia dos Estados Unidos no pós-guerra.

Mas Trump não criou essa tensão. Ele apenas a tornou mais explícita. Desde 1776, os EUA convivem com a difícil tarefa de conciliar a força moral de seus valores fundadores com a lógica dura da política de poder. A liberdade, a democracia, os direitos individuais e a defesa de uma ordem baseada em regras sempre foram componentes importantes da identidade internacional norte-americana. Ao mesmo tempo, esses princípios foram frequentemente relativizados quando entraram em choque com os interesses estratégicos do país.

É nesse espaço aberto pela percepção da perda de coerência entre discurso e prática que a China encontra oportunidades estratégicas. Pequim não precisa convencer o mundo de que representa valores mais universais do que os norte-americanos. Basta-lhe explorar a crescente percepção de que os Estados Unidos defendem regras, instituições e princípios apenas quando estes favorecem seus próprios interesses. Quanto mais a liderança norte-americana parecer seletiva, unilateral ou contraditória, mais espaço a China terá para apresentar sua ascensão como alternativa a uma ordem internacional percebida por muitos como moldada à conveniência de Washington.

Aos 250 anos de independência, esse talvez seja o grande dilema dos Estados Unidos. Se quiserem continuar apresentando sua liderança como expressão de valores universais, precisarão demonstrar que as regras que defendem também limitam a sua própria ação. Caso contrário, sua política externa será percebida, cada vez mais, não como a defesa de uma ordem internacional fundada em princípios, mas como a atuação de uma grande potência que invoca valores quando eles servem aos seus interesses e os abandona quando eles passam a limitá-los.

Este artigo foi originalmente publicado em minha coluna na Gazeta do Povo, em 06 Jul 2026.

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A interminável guerra no Golfo Pérsico

Na madrugada do último sábado, eu estava em plena conexão no Aeroporto Internacional de Doha, no Catar, quando soube que, a cerca de 500 quilômetros dali, os Estados Unidos e o Irã tinham reiniciado as hostilidades na região do Estreito de Ormuz. O clima era de absoluta tranquilidade, mas havia uma certa inquietação com a possibilidade de os voos serem afetados por um eventual fechamento de espaço aéreo. Felizmente, tudo correu normalmente e todas as aeronaves seguiram para os seus destinos.

A notícia era de que os iranianos haviam lançado mísseis e drones contra instalações militares americanas localizadas no Kuwait e no Bahrein, enquanto os norte-americanos haviam atacado instalações militares do Irã no litoral do Golfo Pérsico e na ilha de Qeshm.

O retorno das hostilidades mostra com clareza a fragilidade do processo de construção do acordo de paz, iniciado com a assinatura formal de um memorando de entendimento de 14 pontos pelos presidentes dos dois países no último dia 17 de junho.

A nova escalada se iniciou depois que a Guarda Revolucionária Iraniana atacou, em dois episódios sucessivos, dois navios mercantes que tentavam atravessar o Estreito de Ormuz pelo lado omaniano da via marítima. Ao realizar os ataques, mesmo em plena vigência do memorando de entendimento, os iranianos mostram que querem efetivamente controlar o estreito, o que poderia redundar na futura cobrança de taxas sobre a passagem de navios mercantes, contrariando o direito à livre navegação e abrindo um precedente muito perigoso para o comércio internacional: e se outros países que controlam geograficamente passagens marítimas importantes decidissem fazer o mesmo? As consequências econômicas seriam certamente muito graves.

A retórica das lideranças também se elevou. O presidente Trump postou em sua rede social que “era bem possível que os iranianos nunca aprendessem” e que, nesse caso, os EUA seriam obrigados a “deixar de ser razoáveis” e a “concluir militarmente o trabalho”. Nesse caso, escreveu Trump, “a República Islâmica do Irã deixará de existir”.

À primeira vista, pode parecer estranho que os iranianos tenham recorrido novamente à força militar justamente quando o acordo começava a ser implementado. Entretanto, há uma lógica clara por trás da estratégia iraniana. Neste conflito, os persas conquistaram um enorme trunfo, que os coloca em vantagem nas negociações: a capacidade de, bloqueando o Estreito de Ormuz, causar um enorme prejuízo à economia global, pressionando dessa forma os EUA, Israel e os países do Golfo Pérsico a atender às reivindicações iranianas.

Essa vantagem iraniana foi posta em xeque nos últimos dias, quando Omã, o país que controla a outra margem do estreito, e a Organização Marítima Internacional estabeleceram corredores temporários de navegação por águas territoriais omanianas, desbordando o controle iraniano.

A efetivação dessa alternativa de navegação retiraria do Irã seu principal instrumento de pressão, conquistado a duras penas durante o conflito. Destaque-se que essa vantagem iraniana foi reforçada por uma redação contraditória do memorando assinado em junho: o quinto ponto do documento estabelece que o Irã deverá empregar seus “melhores esforços” para garantir, em 60 dias, a passagem segura e gratuita dos navios mercantes, deixando para negociações posteriores a definição sobre a futura administração do estreito. Essa redação, na interpretação dos iranianos, reconheceria para Teerã um papel dominante na administração da via marítima, o que incluiria o direito à cobrança por serviços prestados.

 

Os EUA, porém, não podem aceitar essa interpretação, que transformaria o Irã em porteiro de uma rota marítima fundamental para a economia global. Essa é uma das  incompatibilidades que torna tão frágil o arranjo encontrado para pôr fim às hostilidades.

A tranquilidade que encontrei no aeroporto de Doha talvez seja a melhor imagem desta interminável guerra. A vida prossegue, os aviões decolam e os mercados tentam acreditar na paz. Mas, a poucas centenas de quilômetros dali, EUA e Irã continuam disputando quem terá o poder de abrir ou fechar uma das portas da economia mundial.

Este artigo foi originalmente publicado em minha coluna na Gazeta do Povo, em 29 Jun 2026.

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A Copa do Mundo não suspende a Geopolítica

Começou a Copa do Mundo! De quatro em quatro anos, não tem jeito: nossas atenções são fisgadas por esse campeonato apaixonante, que tantas alegrias e decepções já nos trouxe. Escrevo um pouco decepcionado com o desempenho da nossa seleção no jogo contra o Marrocos, mas com esperança de que nosso time melhore ao longo da competição. Vamos ver.

O esporte, especialmente quando coletivo e disputado entre seleções nacionais, por mais que se queira evitar, transporta para o campo de jogo as tensões das relações entre os Estados e da ordem internacional vigente. Isso é verdade desde o nascimento das competições desportivas: no século IX a.C., os gregos criaram a “trégua olímpica” (Ekecheiria), que garantia passagem segura a atletas, espectadores e delegações que viajavam para participar dos Jogos Olímpicos.

Vinte e nove séculos depois, vemos que a competição esportiva continua apesar da guerra, sem, contudo, eliminar suas consequências políticas. A seleção iraniana compete em uma Copa do Mundo disputada também nos Estados Unidos, embora alguns integrantes de sua delegação tenham tido seus vistos negados e a equipe tenha sido obrigada a transferir sua base de treinamento para o México. Do mesmo modo que espartanos e atenienses disputavam os Jogos em Olímpia enquanto seus exércitos combatiam na Guerra do Peloponeso, americanos e iranianos competem enquanto seus países se digladiam no Golfo Pérsico.

A presença do Irã na Copa está longe de ser o único exemplo da influência da política na competição. A própria organização do torneio mostra a sensível mudança nas relações entre os três países que sediam os jogos. Em abril de 2017, quando Canadá, Estados Unidos e México, juntos, apresentaram sua candidatura para coorganizar o torneio, a mensagem era de integração da América do Norte. Hoje, diante das relações azedas entre os EUA e seus vizinhos ao sul e ao norte, das menções de Trump ao Canadá como “51º estado” dos EUA e das barreiras migratórias e tarifas impostas ao México, dificilmente haveria clima para a apresentação de uma candidatura unificada.

Na Copa do Mundo, a hierarquia do futebol não coincide com a hierarquia do poder internacional. As duas maiores potências globais, EUA e China, não ocupam no futebol uma posição correspondente ao seu peso geopolítico. A seleção norte-americana, que, aliás, fez uma bela estreia vencendo o Paraguai, não figura entre as grandes favoritas ao título. A seleção chinesa nem sequer conseguiu se classificar para o torneio.

Por outro lado, o Haiti, um Estado falido, em profunda desordem política, social e econômica, consegue participar do torneio, atraindo para os estádios uma torcida apaixonada. Aliás, o país foi protagonista de uma situação interessante nesta Copa. Sua camisa estampava uma imagem da Batalha de Vertières, ocorrida em 1803 e considerada decisiva para a independência do país, na qual forças independentistas formadas por haitianos derrotaram as forças expedicionárias da França de Napoleão.

A FIFA, entretanto, vetou a estampa, alegando que ela contrariava as normas por transmitir uma mensagem política — justamente a FIFA, cujo presidente concedeu a Donald Trump o primeiro “Prêmio da Paz FIFA”, em um gesto que reforçou as acusações de alinhamento político da entidade com a Casa Branca.

Além disso, o próprio formato desta Copa, a maior de todos os tempos, com 48 seleções e maior representação da Ásia, da África e da América Latina, também pode ser visto como uma metáfora de uma ordem internacional mais plural e menos concentrada no eixo tradicional europeu.

Em relação ao Brasil, o fato de sermos o único país a participar de todas as edições e também o único pentacampeão sempre gera grandes expectativas. É inegavelmente um momento de projeção de soft power, com a presença numerosa e alegre da torcida brasileira nos estádios cativando audiências internacionais. Pode também contribuir para diminuir temporariamente a polarização política, reunindo milhões de brasileiros em torno do mesmo objetivo: a vitória da seleção.

Como se vê, a Copa não suspende a geopolítica. Durante algumas semanas, apenas lhe oferece um de seus palcos mais visíveis. Apesar das antigas “tréguas olímpicas”, o esporte não apaga as divisões e disputas do mundo. Antes, reflete-as. Mesmo assim, é um evento espetacular, que de certa forma traz alguma esperança de que, um dia, as disputas entre as nações possam se dar apenas nos campos desportivos, ao invés dos campos de batalha.

Este artigo foi originalmente publicado em minha coluna da Gazeta do Povo, em 15 Jun 2026

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À beira do abismo: Trump, Irã e a lógica da escalada

Trump escala sua retórica até o limite máximo. A ameaça, feita hoje, ao dizer que “uma civilização inteira morrerá esta noite, para nunca mais ser ressuscitada”, caso os iranianos não cedam às exigências norte americanas até as 20h de hoje (21 horas de Brasília), se soma à feita no domingo de Páscoa: “abram a porra do Estreito, seus bastardos loucos, ou vocês vão viver no inferno” e a muitas outras, em diversas entrevistas, no mesmo tom.

A retórica de Trump é sem precedentes para um líder global, ainda mais para o chefe do governo dos Estados Unidos. Tentar explicar sua conduta é um desafio, mas a Teoria dos jogos pode ser de alguma ajuda na tentativa de se compreender a estratégia do presidente norte-americano.

Um conceito importante aqui é o “brinkmanship”. Nela, um ator deliberadamente aumenta o risco de um resultado catastrófico para forçar o adversário a ceder. A ideia central é transformar uma ideia aparentemente irracional (destruir a civilização inteira do Irã) em uma ameaça crível ao adversário, de modo que este pense que, se não recuar, a coisa toda pode sair do controle. Um exemplo clássico é o “chicken game”, ou “jogo da galinha”, no qual dois carros avançam em rota de colisão, e o que desvia primeiro, perde. O risco aqui é óbvio: se ninguém desviar, haverá o desastre.

O problema dessa estratégia é que ela assume que o lado iraniano vai recuar quando o risco ficar alto demais. No entanto, Trump parece subestimar que a liderança iraniana opera com uma racionalidade distinta (a expressão “bastardos loucos” revela o desconforto americano com uma reação que não segue o esperado).

Em primeiro lugar, o regime teocrático iraniano se apoia na profunda propensão ao sacrifício existente no xiismo. Raiz da “cultura do martírio”, essa propensão transforma perdas em propósito religioso e político. Para muitos, a resistência ao “opressor” (EUA/Israel) tem valor religioso e político positivo, mesmo que tenha um enorme custo em vidas e para a economia do país. Isso aumenta significativamente a disposição iraniana no “jogo da galinha”: eles estão dispostos a aguentar mais dor do que uma análise dentro de uma lógica exclusivamente materialista preveria.

Em segundo lugar, ao ameaçar uma “civilização inteira”, Trump esbarra na memória histórica iraniana. O Irã é berço de uma das mais antigas civilizações do mundo e já sobreviveu a múltiplas invasões. Essa narrativa de resiliência está presente tanto na população quanto na liderança, que vê a atual pressão como mais um capítulo de confrontos com potências externas. Isso torna ameaças existenciais menos intimidantes internamente.

Do lado americano, Trump também paga um preço alto. Recuar após tantas ameaças públicas geraria altos custos de reputação: ele seria visto como fraco por sua base e pelos republicanos, especialmente com as eleições de meio de mandato se aproximando. Além disso, o fechamento prolongado do Estreito de Ormuz já elevou os preços do petróleo, pressionando a economia americana com inflação e combustível mais caro para os eleitores. Simplesmente declarar vitória agora e retirar suas tropas, mantendo o Estreito fechado, seria desastroso para sua imagem.

O resultado é que ambos os lados estão presos em uma clássica armadilha de escalada (escalation trap). Trump não pode recuar sem perder credibilidade perante sua base e os aliados regionais, enquanto o regime iraniano não pode ceder sem enfraquecer sua narrativa ideológica de resistência e martírio. Cada nova ameaça ou cada dia de resistência reforça o compromisso do outro lado, tornando mais difícil encontrar uma saída honrosa.

O mundo vive hoje um dia crítico. Esperemos que, no último momento, um dos atores recue, afinal, milhares, senão milhões, de vidas estão em jogo.

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Operação Missão Justiça 2025: o recado da China aos EUA e ao Japão

Nos últimos dias do ano que se encerrou, o Comando do Teatro Leste do Exército de Libertação Popular da China (ELPC) realizou um exercício de dois dias em torno da ilha de Taiwan, denominado “Missão Justiça 2025”.

Foi mais um dentre a série de exercícios militares que vêm se sucedendo desde a visita da deputada americana Nancy Pelosi a Taiwan, em 2022. Nessas manobras, quase sempre desencadeadas como reação a iniciativas consideradas por Pequim como desafios ao objetivo de reintegrar Taiwan à soberania chinesa, foram criadas zonas de exclusão marítimas e aéreas no entorno da ilha, nas quais os tráfegos aéreo e naval foram interditados e exercícios com tiros reais foram realizados.

Os objetivos de adestramento que o Exército chinês busca alcançar com essas manobras estão relacionados a operações navais e aéreas de bloqueio de portos taiwaneses, ao controle de áreas marítimas e a ações preparatórias para um eventual desembarque anfíbio.

Zonas de exclusão do Exercicio Missão Justiça 2025 – Fonte ELPC

Duas características, entretanto, chamaram atenção neste exercício, configurando uma escalada em relação às manobras anteriores: o tamanho significativamente maior das áreas de exclusão estabelecidas e sua inédita proximidade em relação à ilha de Taiwan. Em alguns casos, os polígonos designados chegaram a ultrapassar o limite de 12 milhas náuticas (22 km), isto é, a delimitação do que seria o mar territorial taiwanês.

Zonas de Exclusão dos sucessivos exercícios – Fonte SCMP

Nesse ponto, é importante compreender o contexto em que o exercício foi realizado. Ele ocorre na esteira de dois acontecimentos relevantes. O primeiro foi a declaração da primeira-ministra do Japão, Sanae Takaichi, segundo a qual uma ação militar chinesa contra Taiwan representaria um risco direto à segurança japonesa, sugerindo inclusive a possibilidade de atuação militar do seu país em favor da ilha. O segundo foi o anúncio, por parte dos Estados Unidos, de uma venda de armas no valor total de 11,2 bilhões de dólares para Taiwan. Esses dois movimentos provocaram uma forte reação das autoridades chinesas, e o exercício deve ser entendido como parte da resposta articulada por Xi Jinping.

Nesse sentido, a Operação Missão Justiça 2025 teve também um objetivo informacional claro: transmitir a mensagem de que eventuais esforços estrangeiros em socorro a Taiwan, no contexto de uma operação militar chinesa para reincorporar a ilha à soberania chinesa, seriam fúteis. Os cartazes produzidos pelos militares chineses deixam essa intenção bastante evidente.

Cartazes do Exercício Missão Justiça 2025 – Fonte ELPC

No primeiro cartaz, aparecem dois escudos, nos quais se veem a Muralha da China e o símbolo do ELPC. O primeiro escudo bloqueia a passagem, em direção à ilha, de um navio carregado de contêineres e de sistemas lançadores de mísseis e foguetes americanos HIMARS, além de aeronaves de transporte C-130. O segundo escudo impede a aproximação de submarinos americanos. Já no segundo cartaz, em que flechas chinesas ultrapassam a ilha e atingem navios ao seu redor, a expressão “反控外调” significa “conter a interferência externa”. Trata-se de um claro alerta dos chineses aos Estados Unidos — e também ao Japão — contra qualquer tentativa de interferência na questão taiwanesa.

Há ainda um outro aspecto digno de nota. Ao comentar o exercício para a imprensa chinesa, o coronel Zhang Chi, figura conhecida por participar de fóruns internacionais de debates sobre segurança e defesa como representante da Universidade Nacional de Defesa do ELPC, destacou que essas manobras incluiriam o treinamento de operações de decapitação contra as chamadas “lideranças separatistas” de Taiwan.

É interessante notar que os chineses certamente estão observando atentamente a guerra na Ucrânia e aprendendo com os desdobramentos daquele conflito. Em um eventual confronto em Taiwan, Pequim busca evitar o surgimento de lideranças políticas que, a exemplo do presidente ucraniano Volodymyr Zelensky, consigam permanecer no poder, mobilizar apoios internacionais e oferecer uma “face” reconhecível à resistência, capaz de sensibilizar a opinião pública global em favor da ilha.

Dessa forma, a Operação Missão Justiça 2025 deve ser compreendida não como mais um exercício militar rotineiro, mas como parte de um contexto estratégico mais amplo de pressões graduais e sucessivas da China sobre Taiwan. Ao ampliar significativamente as zonas de exclusão, aproximá-las do território taiwanês, explorar intensamente a dimensão informacional e sinalizar disposição para neutralizar tanto a interferência externa quanto as lideranças políticas da ilha, Pequim dá mais um passo na normalização de um cenário de coerção permanente. Trata-se de uma estratégia voltada a moldar percepções e reduzir, antecipadamente, o espaço de manobra de terceiros, deixando claro a possíveis aliados de Taiwan — em especial Estados Unidos e Japão — que qualquer tentativa de intervenção terá custos elevados.

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