Seis meses depois, quem está vencendo a guerra no Golfo Pérsico?

No último dia 28 de agosto, a guerra no Golfo Pérsico completou seis meses. Embora já dure muito mais do que as quatro a seis semanas inicialmente estimadas pela administração Trump para atingir os objetivos das operações militares contra o Irã, ainda não é possível afirmar que o término do conflito esteja próximo.

Recordemos como tudo começou. No dia 28 de fevereiro, norte-americanos e israelenses desencadearam uma ofensiva coordenada contra o Irã, denominada pelos Estados Unidos “Fúria Épica” e, por Israel, “Leão Rugidor”. Utilizando sua enorme capacidade militar, milhares de alvos iranianos passaram a ser atacados e atingidos, a começar pelas lideranças iranianas. Nos ataques do primeiro dia, o líder supremo iraniano, o aiatolá Ali Khamenei, foi eliminado. Também foram mortos muitos outros líderes do país e familiares de Khamenei, enquanto seu filho Mojtaba Khamenei foi gravemente ferido. Alguns dias depois, Mojtaba seria escolhido como o novo líder supremo do Irã.

A resposta iraniana foi imediata. No campo militar, Teerã passou a atacar bases militares e infraestruturas estratégicas em praticamente todos os países do Golfo Pérsico, além da Jordânia e de Israel. No campo econômico, provocou o fechamento quase completo do Estreito de Ormuz, impondo pesadas perdas econômicas não só aos países do Golfo, dependentes daquela passagem marítima para exportar petróleo e gás, mas também a toda a comunidade internacional, que viu os preços desses produtos essenciais dispararem. Dessa forma, a estratégia iraniana ficou clara: distribuir os custos da guerra pelo maior número possível de países, de modo que a comunidade internacional passasse a pressionar os norte-americanos pelo fim das hostilidades.

A primeira fase da guerra terminou no dia 8 de abril, quando o Paquistão mediou um cessar-fogo que deveria durar duas semanas. Essa data marca também o fim da campanha aérea israelense de alta intensidade contra o território iraniano, fazendo da guerra em torno do Estreito de Ormuz um enfrentamento principalmente entre norte-americanos e iranianos. Logo em seguida, no dia 13 de abril, os EUA passaram a colocar em prática uma estratégia de asfixia econômica do Irã, iniciando o bloqueio naval aos portos do país.

A transformação da natureza da guerra, de um conflito de alta intensidade em sua fase inicial para uma estratégia de asfixia econômica do Irã, adotada a partir de abril e bastante intensificada nos últimos dias com o anúncio, pelos EUA, da Operação Economic Outcast (algo como “Operação Isolamento Econômico”, em português), é que permite compreender o impasse estratégico que atualmente caracteriza o conflito, seis meses depois de sua deflagração.

Os EUA demonstraram claramente sua enorme superioridade militar na primeira fase do conflito. Destruíram a maior parte da capacidade naval iraniana e degradaram severamente suas defesas antiaéreas e seus meios de comando e controle. Entretanto, não conseguiram converter essa superioridade militar em uma solução política para a guerra.

Mas por que isso aconteceu?

Em primeiro lugar, destruição militar não redunda automaticamente em vitória política. Sun Tzu, há dois mil e quinhentos anos, já ensinava que vencer todas as batalhas não representa a forma suprema de excelência na guerra. A lição permanece atual: a destruição das forças do inimigo não é um fim em si mesma; ela só ganha sentido estratégico se contribuir para alcançar os objetivos políticos pretendidos. E foi justamente aí que os Estados Unidos falharam até agora: sua superioridade é incontestável no campo militar, mas isso não obrigou as lideranças iranianas a se dobrarem à sua vontade.

Isso se deve, em parte, à assimetria dos critérios pelos quais cada um dos lados define a sua vitória. Se, para os EUA, a vitória exige resultados concretos, como impedir definitivamente que o Irã obtenha uma arma nuclear e obrigar o regime a aceitar condições que atendam aos objetivos norte-americanos, para as lideranças iranianas, simplesmente sobreviver no poder já é suficiente. Se o regime permanece no poder, não capitula e continua conseguindo impor custos aos EUA e aos seus aliados, pode sustentar interna e externamente que resistiu à maior potência militar da atualidade e impediu que ela alcançasse plenamente seus objetivos.

Assim, o tempo trabalha de forma diferente para os dois lados. Se o presidente Trump precisa alcançar ganhos concretos para demonstrar que os enormes custos militares, econômicos e políticos da guerra produziram resultados favoráveis aos Estados Unidos, para os iranianos basta continuar resistindo e impondo custos ao adversário.

Essa é a razão de o conflito ter se tornado uma disputa centrada principalmente na abertura do Estreito de Ormuz. O Irã aproveita sua geografia para causar enormes transtornos ao tráfego marítimo comercial no estreito e compensar, ao menos parcialmente, sua enorme inferioridade militar diante dos Estados Unidos.

O descompasso entre os resultados que uma campanha aérea e um bloqueio naval podem efetivamente produzir e os ganhos estratégicos esperados pelos EUA mantém o impasse atual. Sabendo disso, os EUA intensificam a pressão econômica. Teerã aposta que o tempo, a geografia e a capacidade de continuar impondo custos aos seus adversários acabarão tornando uma solução política favorável a Washington cada vez mais difícil. Seis meses depois, a maior pergunta é quem conseguirá sustentar por mais tempo a sua vontade política.

Este artigo foi originalmente publicado na Gazeta do Povo, em 31 de agosto de 2026

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A interminável guerra no Golfo Pérsico

Na madrugada do último sábado, eu estava em plena conexão no Aeroporto Internacional de Doha, no Catar, quando soube que, a cerca de 500 quilômetros dali, os Estados Unidos e o Irã tinham reiniciado as hostilidades na região do Estreito de Ormuz. O clima era de absoluta tranquilidade, mas havia uma certa inquietação com a possibilidade de os voos serem afetados por um eventual fechamento de espaço aéreo. Felizmente, tudo correu normalmente e todas as aeronaves seguiram para os seus destinos.

A notícia era de que os iranianos haviam lançado mísseis e drones contra instalações militares americanas localizadas no Kuwait e no Bahrein, enquanto os norte-americanos haviam atacado instalações militares do Irã no litoral do Golfo Pérsico e na ilha de Qeshm.

O retorno das hostilidades mostra com clareza a fragilidade do processo de construção do acordo de paz, iniciado com a assinatura formal de um memorando de entendimento de 14 pontos pelos presidentes dos dois países no último dia 17 de junho.

A nova escalada se iniciou depois que a Guarda Revolucionária Iraniana atacou, em dois episódios sucessivos, dois navios mercantes que tentavam atravessar o Estreito de Ormuz pelo lado omaniano da via marítima. Ao realizar os ataques, mesmo em plena vigência do memorando de entendimento, os iranianos mostram que querem efetivamente controlar o estreito, o que poderia redundar na futura cobrança de taxas sobre a passagem de navios mercantes, contrariando o direito à livre navegação e abrindo um precedente muito perigoso para o comércio internacional: e se outros países que controlam geograficamente passagens marítimas importantes decidissem fazer o mesmo? As consequências econômicas seriam certamente muito graves.

A retórica das lideranças também se elevou. O presidente Trump postou em sua rede social que “era bem possível que os iranianos nunca aprendessem” e que, nesse caso, os EUA seriam obrigados a “deixar de ser razoáveis” e a “concluir militarmente o trabalho”. Nesse caso, escreveu Trump, “a República Islâmica do Irã deixará de existir”.

À primeira vista, pode parecer estranho que os iranianos tenham recorrido novamente à força militar justamente quando o acordo começava a ser implementado. Entretanto, há uma lógica clara por trás da estratégia iraniana. Neste conflito, os persas conquistaram um enorme trunfo, que os coloca em vantagem nas negociações: a capacidade de, bloqueando o Estreito de Ormuz, causar um enorme prejuízo à economia global, pressionando dessa forma os EUA, Israel e os países do Golfo Pérsico a atender às reivindicações iranianas.

Essa vantagem iraniana foi posta em xeque nos últimos dias, quando Omã, o país que controla a outra margem do estreito, e a Organização Marítima Internacional estabeleceram corredores temporários de navegação por águas territoriais omanianas, desbordando o controle iraniano.

A efetivação dessa alternativa de navegação retiraria do Irã seu principal instrumento de pressão, conquistado a duras penas durante o conflito. Destaque-se que essa vantagem iraniana foi reforçada por uma redação contraditória do memorando assinado em junho: o quinto ponto do documento estabelece que o Irã deverá empregar seus “melhores esforços” para garantir, em 60 dias, a passagem segura e gratuita dos navios mercantes, deixando para negociações posteriores a definição sobre a futura administração do estreito. Essa redação, na interpretação dos iranianos, reconheceria para Teerã um papel dominante na administração da via marítima, o que incluiria o direito à cobrança por serviços prestados.

 

Os EUA, porém, não podem aceitar essa interpretação, que transformaria o Irã em porteiro de uma rota marítima fundamental para a economia global. Essa é uma das  incompatibilidades que torna tão frágil o arranjo encontrado para pôr fim às hostilidades.

A tranquilidade que encontrei no aeroporto de Doha talvez seja a melhor imagem desta interminável guerra. A vida prossegue, os aviões decolam e os mercados tentam acreditar na paz. Mas, a poucas centenas de quilômetros dali, EUA e Irã continuam disputando quem terá o poder de abrir ou fechar uma das portas da economia mundial.

Este artigo foi originalmente publicado em minha coluna na Gazeta do Povo, em 29 Jun 2026.

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