11 de Setembro, 25 anos depois: da Guerra ao Terror à disputa entre grandes potências

Na última sexta-feira, dia 11 de setembro, os atentados terroristas perpetrados pela rede terrorista al-Qaeda contra as Torres Gêmeas, em Nova York, e o Pentágono, em Arlington, na Virgínia, completaram 25 anos. Os ataques constituíram um marco histórico importante, representando uma profunda transformação geopolítica: aquele dia e, principalmente, as reações norte-americanas àquele acontecimento efetivamente mudariam o mundo.

O custo em vidas humanas no dia dos ataques foi significativo: quase três mil pessoas morreram em Nova York, no Pentágono e a bordo dos quatro aviões sequestrados. A reação norte-americana ao ataque terrorista mais mortal da história do país foi imediata. Os EUA acionaram o artigo 5º da OTAN – aquele que diz que o ataque a um dos membros da aliança deve ser considerado um ataque a todos os membros – pela primeira e até aqui única vez na história, e seus aliados atenderam ao chamado para participar da Guerra ao Terror, que se traduziu inicialmente na invasão do Afeganistão e, posteriormente, na invasão do Iraque por uma coalizão liderada pelos Estados Unidos.

Os custos humanos da Guerra ao Terror, travada no Afeganistão e no Iraque, mas também na Síria, Iêmen e Paquistão, entre 2001 e 2023, são estimados em mais de 940 mil mortes diretamente provocadas pelos conflitos, aí incluídos 7 mil militares norte-americanos. Os resultados práticos da longa empreitada militar, entretanto, são bastante discutíveis.

Por um lado, houve conquistas no nível tático, afinal, a rede terrorista al-Qaeda, liderada por Osama bin Laden, localizado e morto por tropas americanas no Paquistão em 2011, perdeu suas mais relevantes capacidades operacionais, passando a operar principalmente por meio de uma rede descentralizada de organizações afiliadas, especialmente na África, no Oriente Médio e no Sul da Ásia. Outro êxito foi o fato de os EUA terem conseguido, ao longo desses vinte e cinco anos, evitar, em seu território, a repetição de um atentado de escala comparável ao 11 de Setembro.

Por outro lado, é inegável que, no nível político, os resultados alcançados pelos EUA foram bastante modestos, para dizer o mínimo. Essa constatação ficou óbvia e escancarada para a opinião pública em 2021, quando o grupo Talibã retornou ao poder no Afeganistão, depois que 20 anos de presença militar norte-americana no país terminaram em uma desastrosa retirada de Cabul, transmitida ao vivo pelas televisões, na qual afegãos se penduraram nas aeronaves americanas que partiam da cidade, em uma tentativa desesperada de não serem deixados para trás.

Enquanto a campanha militar norte-americana contra o terror atraía a atenção estratégica do país para o Oriente Médio, outros atores do sistema internacional continuavam a buscar seus objetivos. Exatamente três meses depois daquele fatídico dia 11 de setembro, outro evento, muito menos espetacular, mas de extraordinária importância, acontecia em Genebra, na Suíça: a adesão da China à Organização Mundial do Comércio. Os impactos globais daquele evento, ocorrido enquanto os EUA caçavam Osama bin Laden nas cavernas de Tora Bora, no Afeganistão, dificilmente podem ser subestimados: a China acelerava sua integração à economia mundial em um processo que contribuiria decisivamente para levá-la ao status de potência econômica global.

Mas o crescimento econômico da China não foi a única transformação geopolítica digna de nota ocorrida nesse quarto de século. A Rússia, sob Putin, que aliás havia chegado ao cargo de primeiro-ministro apenas dois anos antes do 11 de Setembro, também tinha planos de fazer seu país retornar ao status de grande potência global. Em 2008, entrou em guerra com a Geórgia, ocupando partes do território georgiano, e, em 2014, anexou a Crimeia, fomentando ao mesmo tempo a guerra civil no Donbas ucraniano.

Será que se o esforço despendido pelos EUA na guerra ao terror tivesse sido utilizado para lidar com o crescimento econômico e militar da China ou com o expansionismo russo, o mundo teria chegado a 2026 vivendo a atual configuração geopolítica? Difícil saber.

Mas se é fato que o 11 de setembro abriu uma nova fase no sistema internacional, em que a superpotência global travava sua guerra ao terror, também é verdade que esse ciclo se encerrou com a retirada norte-americana de Cabul. A partir daquele marco, da invasão russa da Ucrânia no ano seguinte e do novo protagonismo chinês no sistema internacional, ficou claro que a ordem unipolar, na qual os EUA eram a única e inconteste superpotência, havia chegado ao fim e que o mundo entrava em uma ordem cada vez mais multipolar, estruturada principalmente pela competição entre EUA e China.

Vinte e cinco anos depois, talvez essa seja a principal perspectiva que a distância histórica nos permita ter sobre o 11 de Setembro. Os atentados não apenas transformaram a política externa e de segurança dos Estados Unidos, mas deram início a um ciclo de duas décadas durante o qual profundas mudanças na distribuição do poder global estavam em curso. O mundo que emergiu ao fim desse período é muito diferente daquele de 2001. Compreender essa transformação talvez seja uma das mais importantes lições deixadas por aquele 11 de setembro.

Este artigo foi originalmente publicado na Gazeta do Povo, em 14 de setembro de 2026

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Seis meses depois, quem está vencendo a guerra no Golfo Pérsico?

No último dia 28 de agosto, a guerra no Golfo Pérsico completou seis meses. Embora já dure muito mais do que as quatro a seis semanas inicialmente estimadas pela administração Trump para atingir os objetivos das operações militares contra o Irã, ainda não é possível afirmar que o término do conflito esteja próximo.

Recordemos como tudo começou. No dia 28 de fevereiro, norte-americanos e israelenses desencadearam uma ofensiva coordenada contra o Irã, denominada pelos Estados Unidos “Fúria Épica” e, por Israel, “Leão Rugidor”. Utilizando sua enorme capacidade militar, milhares de alvos iranianos passaram a ser atacados e atingidos, a começar pelas lideranças iranianas. Nos ataques do primeiro dia, o líder supremo iraniano, o aiatolá Ali Khamenei, foi eliminado. Também foram mortos muitos outros líderes do país e familiares de Khamenei, enquanto seu filho Mojtaba Khamenei foi gravemente ferido. Alguns dias depois, Mojtaba seria escolhido como o novo líder supremo do Irã.

A resposta iraniana foi imediata. No campo militar, Teerã passou a atacar bases militares e infraestruturas estratégicas em praticamente todos os países do Golfo Pérsico, além da Jordânia e de Israel. No campo econômico, provocou o fechamento quase completo do Estreito de Ormuz, impondo pesadas perdas econômicas não só aos países do Golfo, dependentes daquela passagem marítima para exportar petróleo e gás, mas também a toda a comunidade internacional, que viu os preços desses produtos essenciais dispararem. Dessa forma, a estratégia iraniana ficou clara: distribuir os custos da guerra pelo maior número possível de países, de modo que a comunidade internacional passasse a pressionar os norte-americanos pelo fim das hostilidades.

A primeira fase da guerra terminou no dia 8 de abril, quando o Paquistão mediou um cessar-fogo que deveria durar duas semanas. Essa data marca também o fim da campanha aérea israelense de alta intensidade contra o território iraniano, fazendo da guerra em torno do Estreito de Ormuz um enfrentamento principalmente entre norte-americanos e iranianos. Logo em seguida, no dia 13 de abril, os EUA passaram a colocar em prática uma estratégia de asfixia econômica do Irã, iniciando o bloqueio naval aos portos do país.

A transformação da natureza da guerra, de um conflito de alta intensidade em sua fase inicial para uma estratégia de asfixia econômica do Irã, adotada a partir de abril e bastante intensificada nos últimos dias com o anúncio, pelos EUA, da Operação Economic Outcast (algo como “Operação Isolamento Econômico”, em português), é que permite compreender o impasse estratégico que atualmente caracteriza o conflito, seis meses depois de sua deflagração.

Os EUA demonstraram claramente sua enorme superioridade militar na primeira fase do conflito. Destruíram a maior parte da capacidade naval iraniana e degradaram severamente suas defesas antiaéreas e seus meios de comando e controle. Entretanto, não conseguiram converter essa superioridade militar em uma solução política para a guerra.

Mas por que isso aconteceu?

Em primeiro lugar, destruição militar não redunda automaticamente em vitória política. Sun Tzu, há dois mil e quinhentos anos, já ensinava que vencer todas as batalhas não representa a forma suprema de excelência na guerra. A lição permanece atual: a destruição das forças do inimigo não é um fim em si mesma; ela só ganha sentido estratégico se contribuir para alcançar os objetivos políticos pretendidos. E foi justamente aí que os Estados Unidos falharam até agora: sua superioridade é incontestável no campo militar, mas isso não obrigou as lideranças iranianas a se dobrarem à sua vontade.

Isso se deve, em parte, à assimetria dos critérios pelos quais cada um dos lados define a sua vitória. Se, para os EUA, a vitória exige resultados concretos, como impedir definitivamente que o Irã obtenha uma arma nuclear e obrigar o regime a aceitar condições que atendam aos objetivos norte-americanos, para as lideranças iranianas, simplesmente sobreviver no poder já é suficiente. Se o regime permanece no poder, não capitula e continua conseguindo impor custos aos EUA e aos seus aliados, pode sustentar interna e externamente que resistiu à maior potência militar da atualidade e impediu que ela alcançasse plenamente seus objetivos.

Assim, o tempo trabalha de forma diferente para os dois lados. Se o presidente Trump precisa alcançar ganhos concretos para demonstrar que os enormes custos militares, econômicos e políticos da guerra produziram resultados favoráveis aos Estados Unidos, para os iranianos basta continuar resistindo e impondo custos ao adversário.

Essa é a razão de o conflito ter se tornado uma disputa centrada principalmente na abertura do Estreito de Ormuz. O Irã aproveita sua geografia para causar enormes transtornos ao tráfego marítimo comercial no estreito e compensar, ao menos parcialmente, sua enorme inferioridade militar diante dos Estados Unidos.

O descompasso entre os resultados que uma campanha aérea e um bloqueio naval podem efetivamente produzir e os ganhos estratégicos esperados pelos EUA mantém o impasse atual. Sabendo disso, os EUA intensificam a pressão econômica. Teerã aposta que o tempo, a geografia e a capacidade de continuar impondo custos aos seus adversários acabarão tornando uma solução política favorável a Washington cada vez mais difícil. Seis meses depois, a maior pergunta é quem conseguirá sustentar por mais tempo a sua vontade política.

Este artigo foi originalmente publicado na Gazeta do Povo, em 31 de agosto de 2026

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O degelo do Ártico está redesenhando a Geopolítica

No intervalo de apenas uma semana, empresas de transporte marítimo da China e da Coreia do Sul enviaram navios mercantes de portos de seus países para a Europa, por uma rota pouco usual: a Rota Norte, pelo Oceano Glacial Ártico. A viabilidade comercial da rota está sendo efetivamente testada, à medida que o descongelamento das águas daquele oceano torna viável, pelo menos por alguns meses no ano, uma rota antes interditada à navegação comercial.

O que a abertura dessa nova rota representa é uma verdadeira transformação da geografia do comércio entre a Ásia e a Europa, com consequências geopolíticas muito importantes.

Destaca-se, em primeiro lugar, a vantagem geográfica do encurtamento das distâncias. O Dubai Tower, navio chinês que inaugura a rota, saiu do porto de Ningbo no último dia 15, com previsão de chegar ao porto britânico de Felixstowe em cerca de 20 dias. Isso reduz praticamente pela metade o tempo do percurso pela rota tradicional, aquela que passa pelo Mar do Sul da China – Estreito de Malaca – Oceano Índico – Estreito de Bab el-Mandeb – Canal de Suez – Mar Mediterrâneo – Estreito de Gibraltar – Oceano Atlântico.

Em segundo lugar, a Rota Norte – que está sendo incorporada, na China, ao conceito de “Rota da Seda Polar” – evita os vários estreitos da rota tradicional. Como os conflitos no Oriente Médio vêm demonstrando, evitar a passagem por esses pontos de estrangulamento pode poupar muita dor de cabeça às companhias de transporte marítimo e a seus clientes.

Os países do Ocidente veem com desconfiança a iniciativa chinesa. Eles temem que a exploração comercial da rota também sirva a propósitos militares, como o mapeamento do fundo do mar em benefício da operação de submarinos chineses na região.

Os temores ocidentais aumentam porque a Rússia, em razão de seus 24 mil quilômetros de costa, detém o controle geoestratégico da Rota Norte. Isso exigirá uma estreita cooperação entre russos e quaisquer outros, sejam eles chineses, sul-coreanos ou japoneses, que queiram explorar comercialmente os mares do norte, cujas águas, em razão do aquecimento global, estarão progressivamente mais disponíveis à navegação.

O limitado acesso aos chamados “mares quentes” sempre foi um problema grave para a Rússia, que dependia de suas saídas pelos mares Báltico e Negro, além do Pacífico. O recuo do gelo no Ártico ampliará as opções da Frota do Norte russa, o que aumentará seu peso estratégico naquela parte do mundo e, consequentemente, os pontos de atrito com os países do Ocidente, especialmente com os europeus. Não é por outra razão que o presidente Trump pressiona a Dinamarca e afirma repetidas vezes que a Groenlândia é um território fundamental para a segurança dos EUA.

O que está acontecendo no Ártico não é apenas o surgimento de uma nova rota mais curta entre a Ásia e a Europa, mas sim uma alteração significativa das condições físicas que ditaram os principais conceitos geopolíticos do século XX. O Ártico, que sempre foi uma barreira praticamente intransponível a separar os grandes rivais da Guerra Fria, está se transformando progressivamente em um espaço de circulação, comércio e competição militar.

Rússia e China, além de Coreia do Sul e Japão, perceberam rapidamente as oportunidades abertas por essa transformação. Os Estados Unidos e seus aliados ocidentais também. A pressão de Trump sobre a Groenlândia, o fortalecimento das capacidades militares russas no extremo norte e a inclusão da Rota Norte na estratégia chinesa da Rota da Seda Polar são manifestações distintas de uma mesma realidade.

O recuo do gelo do Ártico altera cálculos geopolíticos e acrescenta ao tabuleiro estratégico global um novo espaço de competição. A corrida pelo Ártico, ao que tudo indica, está apenas começando.

Este artigo foi originalmente publicado na Gazeta do Povo, em 24 de agosto de 2026

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Doutrina Donroe: os EUA e a pretensão de domínio sobre as Américas

Uma postagem da conta oficial do Departamento de Estado dos Estados Unidos, feita no último dia 11 de agosto, nos faz voltar ao assunto da Doutrina Monroe. Em um vídeo narrado pelo embaixador dos EUA no Panamá, Kevin Cabrera, o Departamento de Estado transforma a Doutrina Monroe, de uma política do século XIX voltada a impedir novas intervenções ou tentativas de recolonização europeias nas recém-independentes repúblicas das Américas, em uma doutrina de primazia estratégica dos Estados Unidos sobre o Hemisfério Ocidental, na qual a frase dita pelo presidente Donald Trump, afirmando que “os EUA nunca mais teriam a sua dominância sobre o Hemisfério Ocidental questionada”, ganha papel de destaque.

No vídeo, o Departamento de Estado desenha uma estrutura hierárquica nas Américas, na qual os EUA desempenham, sem constrangimentos, um papel autoatribuído de dominância, em um tom que, em outras circunstâncias, seria considerado muito pouco usual para uma declaração diplomática: o tom inaugurado com a divulgação, em dezembro do ano passado, da nova Estratégia Nacional de Segurança dos Estados Unidos, que lançou oficialmente o chamado “corolário Trump à Doutrina Monroe”.

Aquele documento deixou clara a natureza do tal corolário, apelidado de “Doutrina Donroe”, que pode ser sumarizado em três ideias principais: (1) os EUA impedirão que concorrentes de fora do Hemisfério (sobretudo a China) posicionem forças ou outras capacidades que possam se constituir em ameaças, ou mesmo que “detenham a propriedade ou o controle de ativos estrategicamente vitais no Hemisfério Ocidental”; (2) os EUA atribuem máxima prioridade ao controle da imigração ilegal e do tráfico de drogas nas Américas; (3) os EUA querem ser vistos pelas outras nações das Américas “como sua parceira de primeira escolha” e “desencorajarão por diversos meios a colaboração delas com outros”.

No campo militar, a implementação prática dessas ideias vai ganhando forma e substância. Na semana passada, no Panamá, ocorreu mais uma reunião da Coalizão Contra Cartéis das Américas, que ganhou a sigla A3C, oportunidade em que foi anunciada a importantíssima adesão da Colômbia, que autorizou a participação das forças armadas de seu país nas operações conjuntas com as forças norte-americanas. O anúncio ocorreu no mesmo momento em que Pete Hegseth, o Secretário da Guerra dos EUA, afirmou que seu país já trabalha com países parceiros no planejamento de operações terrestres contra os grupos narcotraficantes da região. Comparando os grupos criminosos à Al Qaeda e a outras organizações terroristas, Hegseth afirmou que “onde quer que trafiquem drogas ou ameacem o povo americano ou nossos parceiros, essas organizações são um alvo”.

As falas das autoridades norte-americanas acerca da Doutrina Monroe, entretanto, não ganham apoio unânime na América Latina. Brasil e México, as duas maiores economias da região, não integram a A3C e mesmo o Chile, país que compõe a lista dos participantes, mostrou desconforto com o discurso de dominância norte-americano. Comentando a respeito, o ministro da Defesa do Chile manifestou suas reservas ao conceito, declarando que “do ponto de vista do Chile, não somos o quintal de nenhum país. Somos um país muito orgulhoso da nossa realidade”.

É evidente que a colaboração no combate ao crime organizado transnacional deve ser comemorada e que toda ajuda é bem-vinda. O problema é o tom adotado pela “Doutrina Donroe” e a pretensão de transformar a primazia norte-americana em princípio ordenador do Hemisfério, inclusive limitando a liberdade dos países da região de estabelecer relações estratégicas com terceiros.

Além disso, no nível global, há uma questão evidente: se Washington reivindica de maneira explícita uma esfera de influência no Hemisfério Ocidental, torna-se inevitável perguntar como os EUA poderão contestar conceitualmente reivindicações semelhantes de esferas de influência por parte da Rússia e da China em suas próprias vizinhanças estratégicas. Isso não significa que os casos sejam juridicamente ou historicamente equivalentes, mas o argumento para a contestação política de iniciativas expansionistas de outras potências se torna muito mais difícil.

Por fim, a postura dos EUA, percebida como arrogante por audiências em toda a região, vai dilapidando uma vantagem competitiva construída ao longo de décadas pelos EUA: seu inegável soft power, seu poder de atração, a admiração pelo seu modo de vida. Há sinais mensuráveis dessa erosão. Recentemente, o Pew Research Center realizou pesquisas em 36 países e descobriu que, na maioria deles, a visão dos entrevistados era mais favorável à China do que aos EUA. Isso não acontecia em pesquisas anteriores. A opinião pública sobre os EUA nos dois países com os quais faz fronteira é reveladora da perda desse patrimônio intangível. No Canadá, a parcela com opinião favorável aos Estados Unidos se reduziu de 57% para 33% em três anos. No México, apenas 40% da população vê os EUA de forma favorável. Em ambos os países, a avaliação positiva da China é superior à dos Estados Unidos.

Talvez os EUA não percebam, mas seu discurso não parece ser favorável aos seus próprios interesses. Tudo indica que, na Doutrina Donroe, o país esteja sendo mais identificado com as potências europeias que buscavam preservar ou restaurar seu domínio sobre as antigas colônias, do que propriamente com os EUA de James Monroe, que se apresentavam como defensores da independência das novas repúblicas americanas diante de uma eventual restauração colonial europeia. O risco é que “potências extrarregionais”, justamente aquelas que os EUA querem manter afastadas do Hemisfério Ocidental, passem a ser percebidas como aquelas que vão ajudar os latino-americanos na luta pela manutenção de sua autonomia. Afinal, não somos o quintal de ninguém.

Este artigo foi originalmente publicado na Gazeta do Povo, em 17 de agosto de 2026

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Reforçando o insucesso: mantendo mesmas táticas, EUA não vai vencer o Irã

A guerra entre os Estados Unidos e o Irã foi retomada com grande intensidade. No momento em que escrevo, já são oito dias seguidos de bombardeios americanos a instalações iranianas. Além disso, a Marinha norte-americana retomou o bloqueio naval aos portos iranianos, impedindo a chegada e a saída de navios do país. Os iranianos, por sua vez, retomaram os ataques contra países do Golfo Pérsico que abrigam instalações militares norte-americanas. Também atingiram a base aérea de Muwaffaq Salti, na Jordânia, causando a morte de mais dois militares dos EUA. Agora, o número de militares norte-americanos que perderam a vida em razão dessa guerra contra o Irã chegou a dezesseis.

O fato de os iranianos terem conseguido atingir bases americanas, que certamente contam com defesas antiaéreas, mostra como as forças da Guarda Revolucionária do Irã aprenderam com os últimos combates e adaptaram suas táticas: há relatos de que têm utilizado mísseis com maior velocidade e manobrabilidade, possivelmente beneficiando-se de tecnologias, conhecimentos ou sistemas fornecidos pela Rússia ou pela China.

Aqueles que acompanham esta coluna sabem que sempre tive dúvidas sobre a efetividade do cessar-fogo nos termos em que foi acordado, por meio de um memorando de entendimento firmado pelos presidentes dos EUA e do Irã, em junho. Ficou imediatamente claro que o documento apenas adiava, sem encaminhar de maneira satisfatória, as principais questões entre os dois países: o programa nuclear iraniano e o regime de controle da passagem de navios mercantes pelo Estreito de Ormuz.

Agora que ambos os lados consideram o documento assinado em junho letra morta, as negociações voltaram praticamente à estaca zero. Isso se refletiu imediatamente nos preços do petróleo, que voltaram a subir, com reflexos para a economia global. A pressão sobre os estoques estratégicos e comerciais de petróleo, que já tinham sido parcialmente consumidos na primeira parte da guerra, volta a ser grande.

A pressão militar e econômica sobre o Irã é enorme. Os prejuízos causados pelo bloqueio naval são muito significativos: a moeda do país, o rial, desvalorizou-se e atingiu seu valor mínimo histórico, ao mesmo tempo em que a inflação e a destruição da infraestrutura energética e de transportes pelos ataques norte-americanos punem severamente a população civil.

Apesar disso, é pouco provável que, nesta nova fase da guerra, uma campanha baseada em ataques aéreos leve à capitulação do regime iraniano, assim como não teve esse efeito na primeira fase. No início dos anos 2000, quando eu era instrutor na Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais do Exército (EsAO), nos jogos de guerra realizados nas salas de aula e nos exercícios no terreno, montávamos, para os alunos, situações fictícias nas quais eles eram obrigados a tomar novas decisões diante das reações do inimigo ou de outras mudanças no quadro tático do exercício. Via de regra, quando o capitão-aluno resolvia “fazer mais do mesmo”, ou seja, continuar atuando da mesma forma que, até aquele momento, não tinha produzido os resultados esperados, dizíamos a ele que estava “reforçando o insucesso” e o estimulávamos a tomar novas decisões.

É mais ou menos isso que as forças norte-americanas estão fazendo ao retomar os bombardeios e o bloqueio naval. Estão fazendo “mais do mesmo” na esperança vã de alcançar um resultado diferente. Minha avaliação é que, se o objetivo continuar sendo obrigar o regime iraniano a capitular ou a aceitar as condições impostas pelos Estados Unidos, não dará certo.

Este artigo foi originalmente publicado em minha coluna na Gazeta do Povo, em 20 Jul 2026.

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Os EUA aos 250 anos: entre valores universais e interesses nacionais

Os Estados Unidos da América completaram 250 anos de independência. A passagem de uma data tão marcante oferece uma excelente oportunidade para se discutir o papel que a superpotência militar, econômica, científico-tecnológica e cultural desempenha no atual momento do sistema internacional.

Em 4 de julho de 1776, no Segundo Congresso Continental, foi adotada a Declaração de Independência, principalmente redigida por Thomas Jefferson, cujo preâmbulo continha sua frase mais famosa, que inspirou americanos e não-americanos desde então: “Consideramos estas verdades como evidentes por si mesmas: que todos os homens são criados iguais, que são dotados pelo seu Criador de certos direitos inalienáveis, que entre estes estão a vida, a liberdade e a busca da felicidade.”

Mesmo que a declaração contivesse contradições incontornáveis e óbvias com a realidade dos fatos à época, afinal a nação que surgia mantinha a escravidão e não tratava homens e mulheres com igualdade, o documento lançava as sementes das ideias que, no futuro e à custa de muito sangue, levariam os EUA às transformações sociais que, se não tornaram todos os homens iguais, pelo menos aproximaram aquela sociedade desse objetivo de forma mais consistente do que a maior parte dos países do mundo.

Nessa caminhada de 250 anos, na qual uma frouxa reunião de treze ex-colônias se transformou na maior superpotência global, os EUA sempre viveram um dilema: como equilibrar os valores fundamentais que proclamavam com seus próprios interesses ao lidar com os demais países?

Essas tensões ficam claríssimas logo após a Primeira Guerra Mundial quando, apesar do presidente dos EUA, Woodrow Wilson, ter sido o maior incentivador da criação da Liga das Nações, cujo objetivo era preservar a paz por meio da segurança coletiva, da diplomacia e da redução de armamentos, no próprio Senado americano essa ideia era combatida, sob o argumento de que a adesão do país poderia envolvê-lo em conflitos que nada tinham a ver com seus interesses. Por fim, o Senado vetou a adesão dos EUA à Liga, enfraquecendo-a já no nascimento, e contribuindo decisivamente para o seu fracasso.

Na Segunda Guerra Mundial, após o ataque japonês a Pearl Harbor, tropas americanas lutaram na Europa, no Norte da África e no Pacífico. A um custo de mais de 400 mil vidas, os EUA lideraram os aliados na vitória contra o nazifascismo. Entretanto, também legaram ao mundo o terror nuclear, ao lançarem as bombas atômicas sobre as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki.

Foi ainda durante a Segunda Guerra Mundial que, reunidos em Bretton Woods, nos EUA, representantes de 44 países criaram as duas instituições financeiras – o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial – que moldariam as relações econômicas globais por décadas e consolidariam a liderança econômica norte-americana no pós Segunda Guerra.

Em 1945, ao fim da guerra, mais uma vez os EUA lideraram a criação de um organismo multilateral: a ONU. Aprendendo com os erros da Liga das Nações, as Nações Unidas organizaram-se de forma a balancear as tensões entre seus mais poderosos membros, o que contribuiu para a sua longevidade até os dias atuais.

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Entre 1947 e 1991, o mundo mergulhou na Guerra Fria, com os EUA imersos em uma enorme competição ideológica com a União Soviética, sob a ameaça de um conflito nuclear que repetidamente atingiu níveis extremos, além da eclosão de diversos conflitos por procuração entre norte-americanos e soviéticos. A criação da OTAN e o Plano Marshall fortaleceram os laços dos EUA com a Europa Ocidental. Ao travarem a guerra contra o comunismo, os norte-americanos envolveram-se internacionalmente de forma profunda, indo à guerra na Península da Coreia e no Vietnã, influenciando e interferindo em governos de diversas partes do mundo.

No início da década de 1990, com a dissolução da União Soviética e a acachapante vitória sobre as forças iraquianas, que em seis semanas foram expulsas do Kuwait, os EUA demonstraram ser a única superpotência militar do planeta. Estava inaugurado o momento unipolar, no qual os norte-americanos acreditaram que passariam a liderar uma ordem internacional de valores compartilhados em torno de ideias liberais, à sua própria imagem e semelhança.

Entretanto, em 2003, no contexto da guerra ao terror iniciada após os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, os EUA invadiram o Iraque sem a necessária autorização do Conselho de Segurança da ONU, naquele que talvez tenha sido o exemplo mais claro da tensão entre a retórica de liberdade, democracia e ordem internacional, de um lado, e a prática unilateral do poder militar, de outro.

Na segunda década do século XXI, a acelerada ascensão da China levou a potência asiática a desafiar essa ordem, oferecendo-se como liderança alternativa e passando a competir com os Estados Unidos especialmente no campo econômico, mas também, de forma crescente, nos campos científico-tecnológico e militar.

É nesse novo contexto de competição estratégica que surge Donald Trump como líder de um movimento que promove profundas transformações na forma como os EUA se relacionam com o restante do mundo. Já em seu primeiro mandato, mas de maneira ainda mais clara no segundo, Trump passou a colocar aquilo que ele julga serem os interesses norte-americanos acima dos compromissos multilaterais, das alianças tradicionais e até de algumas das instituições que ajudaram a sustentar a própria supremacia dos Estados Unidos no pós-guerra.

Mas Trump não criou essa tensão. Ele apenas a tornou mais explícita. Desde 1776, os EUA convivem com a difícil tarefa de conciliar a força moral de seus valores fundadores com a lógica dura da política de poder. A liberdade, a democracia, os direitos individuais e a defesa de uma ordem baseada em regras sempre foram componentes importantes da identidade internacional norte-americana. Ao mesmo tempo, esses princípios foram frequentemente relativizados quando entraram em choque com os interesses estratégicos do país.

É nesse espaço aberto pela percepção da perda de coerência entre discurso e prática que a China encontra oportunidades estratégicas. Pequim não precisa convencer o mundo de que representa valores mais universais do que os norte-americanos. Basta-lhe explorar a crescente percepção de que os Estados Unidos defendem regras, instituições e princípios apenas quando estes favorecem seus próprios interesses. Quanto mais a liderança norte-americana parecer seletiva, unilateral ou contraditória, mais espaço a China terá para apresentar sua ascensão como alternativa a uma ordem internacional percebida por muitos como moldada à conveniência de Washington.

Aos 250 anos de independência, esse talvez seja o grande dilema dos Estados Unidos. Se quiserem continuar apresentando sua liderança como expressão de valores universais, precisarão demonstrar que as regras que defendem também limitam a sua própria ação. Caso contrário, sua política externa será percebida, cada vez mais, não como a defesa de uma ordem internacional fundada em princípios, mas como a atuação de uma grande potência que invoca valores quando eles servem aos seus interesses e os abandona quando eles passam a limitá-los.

Este artigo foi originalmente publicado em minha coluna na Gazeta do Povo, em 06 Jul 2026.

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A interminável guerra no Golfo Pérsico

Na madrugada do último sábado, eu estava em plena conexão no Aeroporto Internacional de Doha, no Catar, quando soube que, a cerca de 500 quilômetros dali, os Estados Unidos e o Irã tinham reiniciado as hostilidades na região do Estreito de Ormuz. O clima era de absoluta tranquilidade, mas havia uma certa inquietação com a possibilidade de os voos serem afetados por um eventual fechamento de espaço aéreo. Felizmente, tudo correu normalmente e todas as aeronaves seguiram para os seus destinos.

A notícia era de que os iranianos haviam lançado mísseis e drones contra instalações militares americanas localizadas no Kuwait e no Bahrein, enquanto os norte-americanos haviam atacado instalações militares do Irã no litoral do Golfo Pérsico e na ilha de Qeshm.

O retorno das hostilidades mostra com clareza a fragilidade do processo de construção do acordo de paz, iniciado com a assinatura formal de um memorando de entendimento de 14 pontos pelos presidentes dos dois países no último dia 17 de junho.

A nova escalada se iniciou depois que a Guarda Revolucionária Iraniana atacou, em dois episódios sucessivos, dois navios mercantes que tentavam atravessar o Estreito de Ormuz pelo lado omaniano da via marítima. Ao realizar os ataques, mesmo em plena vigência do memorando de entendimento, os iranianos mostram que querem efetivamente controlar o estreito, o que poderia redundar na futura cobrança de taxas sobre a passagem de navios mercantes, contrariando o direito à livre navegação e abrindo um precedente muito perigoso para o comércio internacional: e se outros países que controlam geograficamente passagens marítimas importantes decidissem fazer o mesmo? As consequências econômicas seriam certamente muito graves.

A retórica das lideranças também se elevou. O presidente Trump postou em sua rede social que “era bem possível que os iranianos nunca aprendessem” e que, nesse caso, os EUA seriam obrigados a “deixar de ser razoáveis” e a “concluir militarmente o trabalho”. Nesse caso, escreveu Trump, “a República Islâmica do Irã deixará de existir”.

À primeira vista, pode parecer estranho que os iranianos tenham recorrido novamente à força militar justamente quando o acordo começava a ser implementado. Entretanto, há uma lógica clara por trás da estratégia iraniana. Neste conflito, os persas conquistaram um enorme trunfo, que os coloca em vantagem nas negociações: a capacidade de, bloqueando o Estreito de Ormuz, causar um enorme prejuízo à economia global, pressionando dessa forma os EUA, Israel e os países do Golfo Pérsico a atender às reivindicações iranianas.

Essa vantagem iraniana foi posta em xeque nos últimos dias, quando Omã, o país que controla a outra margem do estreito, e a Organização Marítima Internacional estabeleceram corredores temporários de navegação por águas territoriais omanianas, desbordando o controle iraniano.

A efetivação dessa alternativa de navegação retiraria do Irã seu principal instrumento de pressão, conquistado a duras penas durante o conflito. Destaque-se que essa vantagem iraniana foi reforçada por uma redação contraditória do memorando assinado em junho: o quinto ponto do documento estabelece que o Irã deverá empregar seus “melhores esforços” para garantir, em 60 dias, a passagem segura e gratuita dos navios mercantes, deixando para negociações posteriores a definição sobre a futura administração do estreito. Essa redação, na interpretação dos iranianos, reconheceria para Teerã um papel dominante na administração da via marítima, o que incluiria o direito à cobrança por serviços prestados.

 

Os EUA, porém, não podem aceitar essa interpretação, que transformaria o Irã em porteiro de uma rota marítima fundamental para a economia global. Essa é uma das  incompatibilidades que torna tão frágil o arranjo encontrado para pôr fim às hostilidades.

A tranquilidade que encontrei no aeroporto de Doha talvez seja a melhor imagem desta interminável guerra. A vida prossegue, os aviões decolam e os mercados tentam acreditar na paz. Mas, a poucas centenas de quilômetros dali, EUA e Irã continuam disputando quem terá o poder de abrir ou fechar uma das portas da economia mundial.

Este artigo foi originalmente publicado em minha coluna na Gazeta do Povo, em 29 Jun 2026.

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À beira do abismo: Trump, Irã e a lógica da escalada

Trump escala sua retórica até o limite máximo. A ameaça, feita hoje, ao dizer que “uma civilização inteira morrerá esta noite, para nunca mais ser ressuscitada”, caso os iranianos não cedam às exigências norte americanas até as 20h de hoje (21 horas de Brasília), se soma à feita no domingo de Páscoa: “abram a porra do Estreito, seus bastardos loucos, ou vocês vão viver no inferno” e a muitas outras, em diversas entrevistas, no mesmo tom.

A retórica de Trump é sem precedentes para um líder global, ainda mais para o chefe do governo dos Estados Unidos. Tentar explicar sua conduta é um desafio, mas a Teoria dos jogos pode ser de alguma ajuda na tentativa de se compreender a estratégia do presidente norte-americano.

Um conceito importante aqui é o “brinkmanship”. Nela, um ator deliberadamente aumenta o risco de um resultado catastrófico para forçar o adversário a ceder. A ideia central é transformar uma ideia aparentemente irracional (destruir a civilização inteira do Irã) em uma ameaça crível ao adversário, de modo que este pense que, se não recuar, a coisa toda pode sair do controle. Um exemplo clássico é o “chicken game”, ou “jogo da galinha”, no qual dois carros avançam em rota de colisão, e o que desvia primeiro, perde. O risco aqui é óbvio: se ninguém desviar, haverá o desastre.

O problema dessa estratégia é que ela assume que o lado iraniano vai recuar quando o risco ficar alto demais. No entanto, Trump parece subestimar que a liderança iraniana opera com uma racionalidade distinta (a expressão “bastardos loucos” revela o desconforto americano com uma reação que não segue o esperado).

Em primeiro lugar, o regime teocrático iraniano se apoia na profunda propensão ao sacrifício existente no xiismo. Raiz da “cultura do martírio”, essa propensão transforma perdas em propósito religioso e político. Para muitos, a resistência ao “opressor” (EUA/Israel) tem valor religioso e político positivo, mesmo que tenha um enorme custo em vidas e para a economia do país. Isso aumenta significativamente a disposição iraniana no “jogo da galinha”: eles estão dispostos a aguentar mais dor do que uma análise dentro de uma lógica exclusivamente materialista preveria.

Em segundo lugar, ao ameaçar uma “civilização inteira”, Trump esbarra na memória histórica iraniana. O Irã é berço de uma das mais antigas civilizações do mundo e já sobreviveu a múltiplas invasões. Essa narrativa de resiliência está presente tanto na população quanto na liderança, que vê a atual pressão como mais um capítulo de confrontos com potências externas. Isso torna ameaças existenciais menos intimidantes internamente.

Do lado americano, Trump também paga um preço alto. Recuar após tantas ameaças públicas geraria altos custos de reputação: ele seria visto como fraco por sua base e pelos republicanos, especialmente com as eleições de meio de mandato se aproximando. Além disso, o fechamento prolongado do Estreito de Ormuz já elevou os preços do petróleo, pressionando a economia americana com inflação e combustível mais caro para os eleitores. Simplesmente declarar vitória agora e retirar suas tropas, mantendo o Estreito fechado, seria desastroso para sua imagem.

O resultado é que ambos os lados estão presos em uma clássica armadilha de escalada (escalation trap). Trump não pode recuar sem perder credibilidade perante sua base e os aliados regionais, enquanto o regime iraniano não pode ceder sem enfraquecer sua narrativa ideológica de resistência e martírio. Cada nova ameaça ou cada dia de resistência reforça o compromisso do outro lado, tornando mais difícil encontrar uma saída honrosa.

O mundo vive hoje um dia crítico. Esperemos que, no último momento, um dos atores recue, afinal, milhares, senão milhões, de vidas estão em jogo.

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General americano explica o ataque ao Irã

Transcrição do pronunciamento do General Caine acerca dos ataques americanos às instalações nucleares do Irã

Na noite passada, por ordem do Presidente, o Comando Central dos Estados Unidos, sob o comando do General Michael “Erik” Kurilla , executou a Operação Midnight Hammer, um ataque deliberado e preciso contra três instalações nucleares iranianas. Esta foi uma missão complexa e de alto risco, conduzida com excepcional habilidade e disciplina por nossa força conjunta. Quero agradecer a cada militar, planejador e operador que tornou esta missão possível.

Suas ações refletem os mais altos padrões das Forças Armadas dos Estados Unidos. Esta operação foi projetada para degradar severamente a infraestrutura de armas nucleares do Irã. Foi planejada e executada em múltiplos domínios e teatros, com uma coordenação que reflete nossa capacidade de projetar poder globalmente, com rapidez e precisão no momento e local de escolha da nossa nação. Esta foi uma missão altamente secreta, com pouquíssimas pessoas em Washington sabendo sobre o momento ou a natureza do plano. Vou me referir ao gráfico ao lado enquanto explico alguns detalhes operacionais.

Reprodução da imagem do vídeo do discurso do General Caine

À meia-noite de sexta-feira para sábado, um grande grupo de ataque de bombardeiros B-2 decolou do território continental dos Estados Unidos. Como parte do plano para manter a surpresa tática, parte do grupo seguiu para o oeste, para o Pacífico, como um esforço de distração, conhecido apenas por um número extremamente reduzido de planejadores e líderes-chave em Washington e Tampa. O principal grupo de ataque, composto por sete bombardeiros B-2 Spirit, cada um com dois tripulantes, prosseguiu silenciosamente para o leste, com mínimas comunicações.

Durante o voo de 18 horas até a área-alvo, as aeronaves realizaram múltiplos reabastecimentos em voo. Uma vez sobre terra, os B-2 juntaram-se às aeronaves de escolta e apoio em uma manobra complexa e rigorosamente cronometrada, exigindo sincronização exata entre várias plataformas em um estreito espaço aéreo, tudo com comunicação mínima. Este tipo de integração é exatamente o que nossa força conjunta faz melhor que qualquer outra no mundo.

Por volta das 17h (horário padrão do leste dos EUA) de ontem e pouco antes do grupo de ataque entrar no Irã, um submarino dos EUA na área de responsabilidade do Comando Central lançou mais de duas dúzias de mísseis de cruzeiro Tomahawk contra alvos estratégicos de infraestrutura em Esfahan. À medida que o grupo de ataque da Operação Midnight Hammer entrava no espaço aéreo iraniano, os EUA empregaram várias táticas de distração, incluindo iscas, enquanto aeronaves de quarta e quinta geração avançavam à frente do grupo de ataque em alta altitude e alta velocidade, neutralizando ameaças de caças inimigos e mísseis terra-ar.

O grupo de ataque recebeu apoio do Comando Estratégico dos EUA, Comando de Transporte dos EUA, Comando Cibernético dos EUA, Comando Espacial dos EUA, Força Espacial dos EUA e Comando Europeu dos EUA. Ao se aproximar de Fordow e Natanz, as aeronaves de proteção dos EUA utilizaram armas de supressão de alta velocidade para garantir a passagem segura do grupo de ataque, com caças empregando fogo preventivo contra quaisquer potenciais ameaças iranianas terra-ar. Até o momento, não temos conhecimento de disparos contra o grupo durante a entrada.

Por volta das 18h40 (horário padrão do leste dos EUA), 2h10 no horário do Irã, o primeiro B-2 lançou duas bombas penetrantes GBU-57 sobre o primeiro dos vários pontos de mira em Fordow. Como o Presidente afirmou ontem à noite, os bombardeiros restantes também atingiram seus alvos, com um total de 14 bombas GBU-57 lançadas contra duas áreas nucleares.

Todos os três alvos da infraestrutura nuclear iraniana foram atingidos entre as 18h40 e as 19h05 (horário padrão do leste dos EUA), aproximadamente às 2h10 da manhã no horário local iraniano, com os mísseis Tomahawk sendo os últimos a atingir Esfahan, garantindo a manutenção do elemento surpresa durante toda a operação. Após o lançamento das armas, o grupo Midnight Hammer saiu do espaço aéreo iraniano e iniciou o retorno. Não temos conhecimento de disparos contra o grupo na saída. Os caças do Irã não decolaram, e aparentemente os sistemas iranianos de mísseis terra-ar não nos detectaram. Durante toda a missão, mantivemos o elemento surpresa.

No total, as forças dos EUA empregaram aproximadamente 75 armas guiadas de precisão durante esta operação. Isso incluiu, como o Presidente afirmou ontem à noite, 14 bombas penetrantes massivas GBU-57 de 30.000 libras cada, marcando o primeiro uso operacional desta arma. Sei que os danos resultantes são de grande interesse. A avaliação final levará algum tempo, mas análises preliminares indicam que os três locais sofreram danos e destruições extremamente graves.

Mais de 125 aeronaves dos EUA participaram desta missão, incluindo bombardeiros furtivos B-2, múltiplas esquadrilhas de caças de quarta e quinta geração, dezenas de aviões-tanque para reabastecimento aéreo, um submarino lançador de mísseis guiados e uma completa gama de aeronaves de inteligência, vigilância e reconhecimento, além de centenas de profissionais de manutenção e operações. Como o Secretário mencionou, este foi o maior ataque operacional com B-2 na história dos EUA e a segunda missão mais longa do B-2 já realizada, excedida apenas pelas missões imediatamente após o 11 de setembro.

Bem antes do ataque, o General Kurilla elevou as medidas de proteção da força em toda a região, especialmente no Iraque, Síria e Golfo. Nossas forças permanecem em alerta máximo e estão plenamente posicionadas para responder a qualquer retaliação iraniana ou ataques por procuração, o que seria uma péssima decisão. Nós nos defenderemos. A segurança de nossos militares e civis permanece nossa prioridade máxima.

Esta missão demonstra o alcance, coordenação e capacidade incomparáveis das forças armadas dos EUA. Em poucas semanas, fomos do planejamento estratégico à execução global. Esta operação enfatiza as capacidades incomparáveis e o alcance global das forças armadas dos EUA. Como o Presidente disse claramente ontem à noite, nenhuma outra força militar no mundo poderia ter realizado isso. Junto-me ao Presidente e ao Secretário no orgulho extremo das tripulações aéreas, forças navais, operadores cibernéticos, planejadores e equipes de apoio e comandantes que tornaram esta missão possível. É a habilidade, disciplina e trabalho em equipe deles que tornam esta operação possível.

Estou particularmente orgulhoso de nossa disciplina em relação à segurança operacional, algo que preocupava muito o Presidente, o Secretário, o General Carrillo e eu, e continuaremos a focar nisso. Neste momento, muitos recursos ainda estão no ar e centenas permanecem desdobrados. Peço que mantenhamos nossos militares retornando para casa e os desdobrados em nossos pensamentos. Nossa força conjunta permanece pronta para defender os EUA, nossas tropas e nossos interesses na região. Muito obrigado.

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Trump abandona aliados e abraça a Rússia

Donald Trump surpreendeu o mundo ao postar em sua rede social um comentário no qual culpava a Ucrânia pela guerra, distorcia a verdade ao chamar o presidente Zelensky de “ditador” por não ter convocado eleições no prazo previsto — apesar de seu país estar em guerra — e afirmava que os EUA tinham enviado US$ 350 bilhões à Ucrânia, um valor quase três vezes superior ao montante efetivamente enviado aos ucranianos.

Nos primeiros 30 dias de governo, a administração Trump tem adotado uma postura de confronto com aliados e aproximação com a Rússia. No entanto, essa não foi sempre a visão do presidente. Ou, se foi, seus atos no passado sugerem o contrário.

Em dezembro de 2017, durante seu primeiro mandato, Trump assinou a Estratégia Nacional de Segurança dos EUA. No documento de 68 páginas, a Rússia é mencionada 25 vezes, sempre de forma negativa. O texto alertava que China e Rússia buscavam moldar um mundo contrário aos valores e interesses dos EUA, destacando que Moscou pretendia restaurar seu status de grande potência e estabelecer esferas de influência regionais.

O documento prosseguia em seu diagnóstico, afirmando que a Rússia tinha como objetivo enfraquecer a influência dos EUA no mundo e dividir os norte-americanos de seus aliados e parceiros. Além disso, ressaltava que a Rússia via a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e a União Europeia (UE) como ameaças (NSS, p. 25).

Imagem da página 25 da National Security Strategy (2017)

Acesse o documento completo

Outro trecho do documento alertava para o uso, pela Rússia, de operações de desinformação como parte de seus esforços para influenciar a opinião pública global (NSS, p. 35).

Esse alerta parece mais relevante do que nunca. Segundo o presidente Zelensky, os russos tiveram êxito ao influenciar, pelo menos, um líder mundial: Donald Trump. Após a declaração do presidente norte-americano de que Zelensky contava com apenas 4% de apoio popular, o líder ucraniano rebateu, afirmando que Trump estava imerso na bolha russa de desinformação. De fato, essa alegação sobre a popularidade de Zelensky é uma das muitas narrativas falsas espalhadas pela propaganda russa na internet. Pesquisas independentes, como as realizadas pelo Instituto Internacional de Sociologia de Kyiv, apontam que, apesar da queda em sua popularidade, Zelensky ainda conta com o apoio de 57% da população ucraniana[1] — um índice superior à aprovação atual de Trump entre os norte-americanos[2].

A guinada de Trump na política externa americana foi drástica. O G7 tenta elaborar um documento sobre os três anos da invasão russa à Ucrânia, mas enfrenta impasses, pois os EUA vetaram o uso da expressão “agressão russa” ou qualquer menção que atribua responsabilidade pelo conflito a Moscou.

Tudo isso favorece a Rússia e fortalece Vladimir Putin em um momento crucial. A mudança de postura que Trump impõe à política externa dos EUA desorienta aliados históricos, especialmente os europeus, que repentinamente se veem isolados diante da ameaça russa. Além disso, essa guinada inaugura uma fase de incerteza que poderá impactar outros atores estratégicos, como Coreia do Sul, Japão, Taiwan e Filipinas, que podem começar a questionar se terão dos EUA o mesmo apoio dispensado no passado. Os próximos meses e anos serão marcados por instabilidades e realinhamentos no cenário internacional, com o risco crescente de conflitos regionais e disputas de poder que poderão redefinir a ordem global.

[1] https://www.bbc.com/news/articles/c9814k2jlxko

[2] https://www.reuters.com/world/us/trumps-approval-rating-slips-americans-worry-about-economy-2025-02-19/

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