A interminável guerra no Golfo Pérsico

Na madrugada do último sábado, eu estava em plena conexão no Aeroporto Internacional de Doha, no Catar, quando soube que, a cerca de 500 quilômetros dali, os Estados Unidos e o Irã tinham reiniciado as hostilidades na região do Estreito de Ormuz. O clima era de absoluta tranquilidade, mas havia uma certa inquietação com a possibilidade de os voos serem afetados por um eventual fechamento de espaço aéreo. Felizmente, tudo correu normalmente e todas as aeronaves seguiram para os seus destinos.

A notícia era de que os iranianos haviam lançado mísseis e drones contra instalações militares americanas localizadas no Kuwait e no Bahrein, enquanto os norte-americanos haviam atacado instalações militares do Irã no litoral do Golfo Pérsico e na ilha de Qeshm.

O retorno das hostilidades mostra com clareza a fragilidade do processo de construção do acordo de paz, iniciado com a assinatura formal de um memorando de entendimento de 14 pontos pelos presidentes dos dois países no último dia 17 de junho.

A nova escalada se iniciou depois que a Guarda Revolucionária Iraniana atacou, em dois episódios sucessivos, dois navios mercantes que tentavam atravessar o Estreito de Ormuz pelo lado omaniano da via marítima. Ao realizar os ataques, mesmo em plena vigência do memorando de entendimento, os iranianos mostram que querem efetivamente controlar o estreito, o que poderia redundar na futura cobrança de taxas sobre a passagem de navios mercantes, contrariando o direito à livre navegação e abrindo um precedente muito perigoso para o comércio internacional: e se outros países que controlam geograficamente passagens marítimas importantes decidissem fazer o mesmo? As consequências econômicas seriam certamente muito graves.

A retórica das lideranças também se elevou. O presidente Trump postou em sua rede social que “era bem possível que os iranianos nunca aprendessem” e que, nesse caso, os EUA seriam obrigados a “deixar de ser razoáveis” e a “concluir militarmente o trabalho”. Nesse caso, escreveu Trump, “a República Islâmica do Irã deixará de existir”.

À primeira vista, pode parecer estranho que os iranianos tenham recorrido novamente à força militar justamente quando o acordo começava a ser implementado. Entretanto, há uma lógica clara por trás da estratégia iraniana. Neste conflito, os persas conquistaram um enorme trunfo, que os coloca em vantagem nas negociações: a capacidade de, bloqueando o Estreito de Ormuz, causar um enorme prejuízo à economia global, pressionando dessa forma os EUA, Israel e os países do Golfo Pérsico a atender às reivindicações iranianas.

Essa vantagem iraniana foi posta em xeque nos últimos dias, quando Omã, o país que controla a outra margem do estreito, e a Organização Marítima Internacional estabeleceram corredores temporários de navegação por águas territoriais omanianas, desbordando o controle iraniano.

A efetivação dessa alternativa de navegação retiraria do Irã seu principal instrumento de pressão, conquistado a duras penas durante o conflito. Destaque-se que essa vantagem iraniana foi reforçada por uma redação contraditória do memorando assinado em junho: o quinto ponto do documento estabelece que o Irã deverá empregar seus “melhores esforços” para garantir, em 60 dias, a passagem segura e gratuita dos navios mercantes, deixando para negociações posteriores a definição sobre a futura administração do estreito. Essa redação, na interpretação dos iranianos, reconheceria para Teerã um papel dominante na administração da via marítima, o que incluiria o direito à cobrança por serviços prestados.

 

Os EUA, porém, não podem aceitar essa interpretação, que transformaria o Irã em porteiro de uma rota marítima fundamental para a economia global. Essa é uma das  incompatibilidades que torna tão frágil o arranjo encontrado para pôr fim às hostilidades.

A tranquilidade que encontrei no aeroporto de Doha talvez seja a melhor imagem desta interminável guerra. A vida prossegue, os aviões decolam e os mercados tentam acreditar na paz. Mas, a poucas centenas de quilômetros dali, EUA e Irã continuam disputando quem terá o poder de abrir ou fechar uma das portas da economia mundial.

Este artigo foi originalmente publicado em minha coluna na Gazeta do Povo, em 29 Jun 2026.

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TENSÕES NO GOLFO PÉRSICO

O Irã é um país governado, desde a Revolução de 1979, por religiosos da corrente islâmica xiita. E, especialmente após a chamada Primavera Árabe de 2011, posiciona-se em defesa dos grupos xiitas de todo o Oriente Médio, normalmente contrapondo-se à outra corrente do islamismo: os sunitas. Assim, o país apoia os Houtis no Iêmen, país que enfrenta uma guerra civil, considerada pela ONU “a maior crise humana da atualidade”. Também se posiciona em favor de reformas políticas no Bahrein, onde uma maioria xiita é governada por uma monarquia sunita. A Guarda Revolucionária iraniana apoiou decisivamente o regime de Bashar Assad na Síria, contra a oposição armada sunita, além de sustentar grupos xiitas no interior do Iraque, país que está completamente fragmentado desde a queda de Saddam Hussein.

A Arábia Saudita, país governado por uma monarquia wahabista, uma corrente sunita, disputa com o Irã a liderança regional. A relação entre os dois países se deteriorou significativamente nos últimos anos, especialmente após a execução do clérigo xiita Nimr al-Nimr, na Arábia Saudita, e em razão da guerra civil que vem sendo travada no Iêmen, uma verdadeira “guerra por procuração”, com cada um dos países apoiando um dos lados no conflito.

O governo de Israel considera que o Irã representa uma constante ameaça ao país, especialmente em razão do apoio dos iranianos ao grupo Hezbollah. O Primeiro Ministro Netanyahu já afirmou que Israel não aceitará que o Irã se torne uma potência nuclear.

Os interesses geopolíticos que cercam a região do Golfo Pérsico são enormes. Por ali, transitam as riquezas do Iraque, Kuwait e Emirados Árabes, além do Bahrein e do Catar. O território do Irã constitui-se em verdadeira ponte a unir o Mar Cáspio ao Oceano Índico.

É nesse contexto complexo e conturbado que as tensões no Golfo Pérsico mais uma vez se elevam, e o espectro da guerra volta a rondar a região. No dia 13 de maio, a Arábia Saudita denunciou a sabotagem de dois de seus navios petroleiros no Estreito de Ormuz. Apenas dois dias depois, Aeronaves Remotamente Pilotadas, carregadas com explosivos, atingiram poços de petróleo perto de Riad, a capital da Arábia Saudita. Os atos terroristas foram assumidos pelos Houtis, grupo Iemenita apoiado pelo Irã.

Reagindo aos acontecimentos, o Secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, declarou que milícias xiitas no Iraque, patrocinadas pelo Irã, estariam ameaçando tropas americanas estacionadas naquele país. Disse ainda que, caso os militares fossem atacados, os EUA se sentiriam obrigados a reagir, sem necessidade de coordenar as ações com o governo iraquiano. Ao mesmo tempo, a Força-Tarefa liderada pelo porta-aviões USS Abraham Lincoln, reforçada por bombardeiros B-52, foi enviada ao Golfo Pérsico. Mesmo assim, exatamente um mês depois, no dia 13 de junho, dois navios petroleiros voltaram a ser atacados no Golfo de Omã, desta vez atingidos por minas. Mais uma vez, os EUA responsabilizaram o Irã pelo ataque.

Na última quinta-feira, ocorreu um incidente ainda mais grave do ponto de vista militar: o Irã abateu uma Aeronave Remotamente Pilotada RQ-4 Global Hawk, da Força Aérea norte-americana. Os iranianos alegam que a aeronave de reconhecimento estava no espaço aéreo do país. Os EUA negam, alegando que voava em espaço aéreo internacional.

Este fato agrava as tensões, que atingem um ponto culminante de uma escalada que já vem desde o ano passado, quando os EUA se retiraram do acordo multilateral, estabelecido em 2015, em Viena, que impunha limites ao programa nuclear iraniano em troca do alívio das sanções econômicas. Desde então, os EUA reimpuseram uma série de sanções unilaterais que afetaram transações financeiras, importações de matérias primas, inclusive petróleo, o setor automotivo e a aviação comercial. Apesar dos outros países integrantes do acordo, Reino Unido, França, Alemanha, China e Rússia, terem se negado a acompanhar as sanções norte-americanas, mantendo o respaldo ao tratado em 2015, o fato é que os embargos acabam por afetar inclusive os negócios feitos por eles, já que as empresas e países podem sofrer retaliações norte-americanas caso comerciem com Teerã.

Depois de aguardar por um ano por uma solução que contornasse os embargos americanos, no início de maio, ou seja, coincidentemente com o início dos diversos incidentes envolvendo os navios petroleiros, o Irã resolveu dar um ultimato aos europeus e chineses. Anunciou que suspenderia imediatamente o trato de limitar os estoques de água pesada e urânio enriquecido e que, se em sessenta dias os demais países signatários do acordo não encontrassem soluções para driblar as sanções norte-americanas, renunciaria a outros compromissos limitantes de suas capacidades nucleares, acordados em 2015.

Vê-se que a estratégia iraniana parece ser, por um lado, pressionar os países europeus e a China, para que estes, por sua vez, atuem no sentido de fazer os EUA voltarem ao acordo multilateral. Por outro lado, as ações contra os petroleiros também parecem ser uma tentativa de forçar os norte-americanos a se sentarem à mesa de negociações.

Mas se há um ensinamento que o estudo da história militar apresenta recorrentemente é o de que quando as tensões escalam, as coisas podem muito facilmente sair do controle. É o que parece ser o caso do ataque iraniano à ARP Global Hawk.

Imediatamente após o ataque, o Presidente Trump foi ao Twitter e escreveu que o Irã tinha cometido um “erro muito grande”. Em seguida, talvez percebendo que o cheiro de pólvora já estava perigosamente forte, atenuou a retórica afirmando que não acreditava que o ataque tivesse sido proposital.

Os próximos acontecimentos dependerão da habilidade dos envolvidos na condução da crise. O ataque à aeronave norte-americana complicou muito uma situação que já era extremamente complexa. Qualquer fagulha pode acender a fogueira da guerra.