Seis meses depois, quem está vencendo a guerra no Golfo Pérsico?

No último dia 28 de agosto, a guerra no Golfo Pérsico completou seis meses. Embora já dure muito mais do que as quatro a seis semanas inicialmente estimadas pela administração Trump para atingir os objetivos das operações militares contra o Irã, ainda não é possível afirmar que o término do conflito esteja próximo.

Recordemos como tudo começou. No dia 28 de fevereiro, norte-americanos e israelenses desencadearam uma ofensiva coordenada contra o Irã, denominada pelos Estados Unidos “Fúria Épica” e, por Israel, “Leão Rugidor”. Utilizando sua enorme capacidade militar, milhares de alvos iranianos passaram a ser atacados e atingidos, a começar pelas lideranças iranianas. Nos ataques do primeiro dia, o líder supremo iraniano, o aiatolá Ali Khamenei, foi eliminado. Também foram mortos muitos outros líderes do país e familiares de Khamenei, enquanto seu filho Mojtaba Khamenei foi gravemente ferido. Alguns dias depois, Mojtaba seria escolhido como o novo líder supremo do Irã.

A resposta iraniana foi imediata. No campo militar, Teerã passou a atacar bases militares e infraestruturas estratégicas em praticamente todos os países do Golfo Pérsico, além da Jordânia e de Israel. No campo econômico, provocou o fechamento quase completo do Estreito de Ormuz, impondo pesadas perdas econômicas não só aos países do Golfo, dependentes daquela passagem marítima para exportar petróleo e gás, mas também a toda a comunidade internacional, que viu os preços desses produtos essenciais dispararem. Dessa forma, a estratégia iraniana ficou clara: distribuir os custos da guerra pelo maior número possível de países, de modo que a comunidade internacional passasse a pressionar os norte-americanos pelo fim das hostilidades.

A primeira fase da guerra terminou no dia 8 de abril, quando o Paquistão mediou um cessar-fogo que deveria durar duas semanas. Essa data marca também o fim da campanha aérea israelense de alta intensidade contra o território iraniano, fazendo da guerra em torno do Estreito de Ormuz um enfrentamento principalmente entre norte-americanos e iranianos. Logo em seguida, no dia 13 de abril, os EUA passaram a colocar em prática uma estratégia de asfixia econômica do Irã, iniciando o bloqueio naval aos portos do país.

A transformação da natureza da guerra, de um conflito de alta intensidade em sua fase inicial para uma estratégia de asfixia econômica do Irã, adotada a partir de abril e bastante intensificada nos últimos dias com o anúncio, pelos EUA, da Operação Economic Outcast (algo como “Operação Isolamento Econômico”, em português), é que permite compreender o impasse estratégico que atualmente caracteriza o conflito, seis meses depois de sua deflagração.

Os EUA demonstraram claramente sua enorme superioridade militar na primeira fase do conflito. Destruíram a maior parte da capacidade naval iraniana e degradaram severamente suas defesas antiaéreas e seus meios de comando e controle. Entretanto, não conseguiram converter essa superioridade militar em uma solução política para a guerra.

Mas por que isso aconteceu?

Em primeiro lugar, destruição militar não redunda automaticamente em vitória política. Sun Tzu, há dois mil e quinhentos anos, já ensinava que vencer todas as batalhas não representa a forma suprema de excelência na guerra. A lição permanece atual: a destruição das forças do inimigo não é um fim em si mesma; ela só ganha sentido estratégico se contribuir para alcançar os objetivos políticos pretendidos. E foi justamente aí que os Estados Unidos falharam até agora: sua superioridade é incontestável no campo militar, mas isso não obrigou as lideranças iranianas a se dobrarem à sua vontade.

Isso se deve, em parte, à assimetria dos critérios pelos quais cada um dos lados define a sua vitória. Se, para os EUA, a vitória exige resultados concretos, como impedir definitivamente que o Irã obtenha uma arma nuclear e obrigar o regime a aceitar condições que atendam aos objetivos norte-americanos, para as lideranças iranianas, simplesmente sobreviver no poder já é suficiente. Se o regime permanece no poder, não capitula e continua conseguindo impor custos aos EUA e aos seus aliados, pode sustentar interna e externamente que resistiu à maior potência militar da atualidade e impediu que ela alcançasse plenamente seus objetivos.

Assim, o tempo trabalha de forma diferente para os dois lados. Se o presidente Trump precisa alcançar ganhos concretos para demonstrar que os enormes custos militares, econômicos e políticos da guerra produziram resultados favoráveis aos Estados Unidos, para os iranianos basta continuar resistindo e impondo custos ao adversário.

Essa é a razão de o conflito ter se tornado uma disputa centrada principalmente na abertura do Estreito de Ormuz. O Irã aproveita sua geografia para causar enormes transtornos ao tráfego marítimo comercial no estreito e compensar, ao menos parcialmente, sua enorme inferioridade militar diante dos Estados Unidos.

O descompasso entre os resultados que uma campanha aérea e um bloqueio naval podem efetivamente produzir e os ganhos estratégicos esperados pelos EUA mantém o impasse atual. Sabendo disso, os EUA intensificam a pressão econômica. Teerã aposta que o tempo, a geografia e a capacidade de continuar impondo custos aos seus adversários acabarão tornando uma solução política favorável a Washington cada vez mais difícil. Seis meses depois, a maior pergunta é quem conseguirá sustentar por mais tempo a sua vontade política.

Este artigo foi originalmente publicado na Gazeta do Povo, em 31 de agosto de 2026

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Da Ucrânia ao Irã: o risco de duas guerras se tornarem uma

No final da semana passada, a Ucrânia atacou um navio de carga iraniano no Mar Cáspio. Este foi o primeiro ataque ucraniano conhecido a atingir um ativo de um terceiro país no maior mar interior da Terra. Embora Kiev já tivesse realizado ataques de longo alcance contra instalações navais russas na região desde o final de 2024 e, mais recentemente, contra navios e plataformas de petróleo no Mar Cáspio, o envolvimento direto de uma embarcação iraniana marca uma nova etapa da escalada.

Esse evento chama especial atenção porque cria uma ligação direta entre os conflitos em curso no Leste Europeu e no Golfo Pérsico. O episódio ecoa acontecimentos semelhantes do passado e deve servir de alerta para a possibilidade de que guerras ainda formalmente distintas passem a se alimentar mutuamente, dando origem a um conflito mais amplo e perigosamente unificado.

O Ministério das Relações Exteriores do Irã classificou o ataque como um “ato de agressão”, “hostil e criminoso” e uma violação da Carta da ONU. Afirmou que a ação matou um tripulante e feriu outro em um navio comercial iraniano. Além disso, os iranianos convocaram o encarregado de negócios da Ucrânia em Teerã para apresentar um protesto formal.

Segundo a Ucrânia, o navio de carga transportava suprimentos militares do Irã para a Rússia. A cooperação militar entre os dois países não é nenhuma novidade. O melhor exemplo é o amplo emprego, pela Rússia, dos drones kamikaze iranianos Shahed-136, cuja venda foi acompanhada da transferência da tecnologia necessária à sua produção, o que permitiu a instalação de fábricas dessas armas em território russo.

O presidente Zelensky, da Ucrânia, afirmou que a inteligência ucraniana detectou o monitoramento, por satélites russos, de bases norte-americanas no Golfo Pérsico. Segundo o chefe de Estado, somente nos dias 19 e 20 de julho, quatro bases aéreas norte-americanas estiveram sob observação de satélites russos — duas no Bahrein, uma na Jordânia e uma no Kuwait. Zelensky sustentou que existe uma correlação entre esse monitoramento e os ataques iranianos contra instalações militares dos EUA na região. A acusação, ainda não comprovada de forma independente, indicaria um nível de cooperação entre Moscou e Teerã muito superior ao simples fornecimento de armamentos.

Isso não significa que as duas guerras já estejam unificadas. Significa, entretanto, que começam a se sobrepor as redes de inteligência, logística, fornecimento de armamentos e seleção de alvos que sustentam os dois conflitos. Uma eventual retaliação iraniana contra a Ucrânia, novos ataques ucranianos contra ativos iranianos ou uma participação russa comprovada na preparação de ofensivas contra bases norte-americanas poderiam aprofundar essa interligação. A sobreposição de conflitos distintos está longe de ser inédita.

A Primeira Guerra Mundial começou como um conflito localizado nos Bálcãs: o assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando em Sarajevo levou a Áustria-Hungria a declarar guerra à Sérvia. Em poucas semanas, uma sequência de ultimatos, mobilizações e declarações de guerra, potencializada pelo sistema de alianças, transformou a disputa local em um conflito europeu e, posteriormente, mundial.

A Segunda Guerra Sino-Japonesa, que começou em 1937 com o incidente da Ponte Marco Polo, permaneceu durante anos como um conflito essencialmente asiático entre China e Japão. Paralelamente, a guerra na Europa começou em 1939 com a invasão da Polônia. O ataque japonês a Pearl Harbor em dezembro de 1941, seguido da declaração de guerra da Alemanha aos EUA, fundiu os dois teatros. A guerra na Ásia passou a ser o teatro do Pacífico da Segunda Guerra Mundial. Rotas de suprimento, alianças e a participação das mesmas potências nos dois teatros transformaram conflitos paralelos em uma guerra global.

Os conflitos em curso no Golfo Pérsico e na Ucrânia permanecem formalmente distintos, e o ataque contra o navio iraniano no Mar Cáspio não significa que os dois teatros de operações tenham sido unificados. Entretanto, uma eventual resposta de Teerã — possibilidade reforçada pela declaração do ministro das Relações Exteriores do Irã, Seyed Abbas Araghchi, de que o episódio “não pode ficar sem resposta” — poderá iniciar uma dinâmica de ação e reação capaz de aproximá-los ainda mais.

Assim, é preciso que a comunidade internacional esteja atenta para evitar que uma sucessão de ataques, retaliações e compromissos entre aliados transforme duas guerras formalmente distintas em um único conflito, capaz de envolver um número maior de atores e de cobrar um preço ainda maior em vidas humanas.

Este artigo foi originalmente publicado em minha coluna na Gazeta do Povo, em 27 Jul 2026.

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Reforçando o insucesso: mantendo mesmas táticas, EUA não vai vencer o Irã

A guerra entre os Estados Unidos e o Irã foi retomada com grande intensidade. No momento em que escrevo, já são oito dias seguidos de bombardeios americanos a instalações iranianas. Além disso, a Marinha norte-americana retomou o bloqueio naval aos portos iranianos, impedindo a chegada e a saída de navios do país. Os iranianos, por sua vez, retomaram os ataques contra países do Golfo Pérsico que abrigam instalações militares norte-americanas. Também atingiram a base aérea de Muwaffaq Salti, na Jordânia, causando a morte de mais dois militares dos EUA. Agora, o número de militares norte-americanos que perderam a vida em razão dessa guerra contra o Irã chegou a dezesseis.

O fato de os iranianos terem conseguido atingir bases americanas, que certamente contam com defesas antiaéreas, mostra como as forças da Guarda Revolucionária do Irã aprenderam com os últimos combates e adaptaram suas táticas: há relatos de que têm utilizado mísseis com maior velocidade e manobrabilidade, possivelmente beneficiando-se de tecnologias, conhecimentos ou sistemas fornecidos pela Rússia ou pela China.

Aqueles que acompanham esta coluna sabem que sempre tive dúvidas sobre a efetividade do cessar-fogo nos termos em que foi acordado, por meio de um memorando de entendimento firmado pelos presidentes dos EUA e do Irã, em junho. Ficou imediatamente claro que o documento apenas adiava, sem encaminhar de maneira satisfatória, as principais questões entre os dois países: o programa nuclear iraniano e o regime de controle da passagem de navios mercantes pelo Estreito de Ormuz.

Agora que ambos os lados consideram o documento assinado em junho letra morta, as negociações voltaram praticamente à estaca zero. Isso se refletiu imediatamente nos preços do petróleo, que voltaram a subir, com reflexos para a economia global. A pressão sobre os estoques estratégicos e comerciais de petróleo, que já tinham sido parcialmente consumidos na primeira parte da guerra, volta a ser grande.

A pressão militar e econômica sobre o Irã é enorme. Os prejuízos causados pelo bloqueio naval são muito significativos: a moeda do país, o rial, desvalorizou-se e atingiu seu valor mínimo histórico, ao mesmo tempo em que a inflação e a destruição da infraestrutura energética e de transportes pelos ataques norte-americanos punem severamente a população civil.

Apesar disso, é pouco provável que, nesta nova fase da guerra, uma campanha baseada em ataques aéreos leve à capitulação do regime iraniano, assim como não teve esse efeito na primeira fase. No início dos anos 2000, quando eu era instrutor na Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais do Exército (EsAO), nos jogos de guerra realizados nas salas de aula e nos exercícios no terreno, montávamos, para os alunos, situações fictícias nas quais eles eram obrigados a tomar novas decisões diante das reações do inimigo ou de outras mudanças no quadro tático do exercício. Via de regra, quando o capitão-aluno resolvia “fazer mais do mesmo”, ou seja, continuar atuando da mesma forma que, até aquele momento, não tinha produzido os resultados esperados, dizíamos a ele que estava “reforçando o insucesso” e o estimulávamos a tomar novas decisões.

É mais ou menos isso que as forças norte-americanas estão fazendo ao retomar os bombardeios e o bloqueio naval. Estão fazendo “mais do mesmo” na esperança vã de alcançar um resultado diferente. Minha avaliação é que, se o objetivo continuar sendo obrigar o regime iraniano a capitular ou a aceitar as condições impostas pelos Estados Unidos, não dará certo.

Este artigo foi originalmente publicado em minha coluna na Gazeta do Povo, em 20 Jul 2026.

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A interminável guerra no Golfo Pérsico

Na madrugada do último sábado, eu estava em plena conexão no Aeroporto Internacional de Doha, no Catar, quando soube que, a cerca de 500 quilômetros dali, os Estados Unidos e o Irã tinham reiniciado as hostilidades na região do Estreito de Ormuz. O clima era de absoluta tranquilidade, mas havia uma certa inquietação com a possibilidade de os voos serem afetados por um eventual fechamento de espaço aéreo. Felizmente, tudo correu normalmente e todas as aeronaves seguiram para os seus destinos.

A notícia era de que os iranianos haviam lançado mísseis e drones contra instalações militares americanas localizadas no Kuwait e no Bahrein, enquanto os norte-americanos haviam atacado instalações militares do Irã no litoral do Golfo Pérsico e na ilha de Qeshm.

O retorno das hostilidades mostra com clareza a fragilidade do processo de construção do acordo de paz, iniciado com a assinatura formal de um memorando de entendimento de 14 pontos pelos presidentes dos dois países no último dia 17 de junho.

A nova escalada se iniciou depois que a Guarda Revolucionária Iraniana atacou, em dois episódios sucessivos, dois navios mercantes que tentavam atravessar o Estreito de Ormuz pelo lado omaniano da via marítima. Ao realizar os ataques, mesmo em plena vigência do memorando de entendimento, os iranianos mostram que querem efetivamente controlar o estreito, o que poderia redundar na futura cobrança de taxas sobre a passagem de navios mercantes, contrariando o direito à livre navegação e abrindo um precedente muito perigoso para o comércio internacional: e se outros países que controlam geograficamente passagens marítimas importantes decidissem fazer o mesmo? As consequências econômicas seriam certamente muito graves.

A retórica das lideranças também se elevou. O presidente Trump postou em sua rede social que “era bem possível que os iranianos nunca aprendessem” e que, nesse caso, os EUA seriam obrigados a “deixar de ser razoáveis” e a “concluir militarmente o trabalho”. Nesse caso, escreveu Trump, “a República Islâmica do Irã deixará de existir”.

À primeira vista, pode parecer estranho que os iranianos tenham recorrido novamente à força militar justamente quando o acordo começava a ser implementado. Entretanto, há uma lógica clara por trás da estratégia iraniana. Neste conflito, os persas conquistaram um enorme trunfo, que os coloca em vantagem nas negociações: a capacidade de, bloqueando o Estreito de Ormuz, causar um enorme prejuízo à economia global, pressionando dessa forma os EUA, Israel e os países do Golfo Pérsico a atender às reivindicações iranianas.

Essa vantagem iraniana foi posta em xeque nos últimos dias, quando Omã, o país que controla a outra margem do estreito, e a Organização Marítima Internacional estabeleceram corredores temporários de navegação por águas territoriais omanianas, desbordando o controle iraniano.

A efetivação dessa alternativa de navegação retiraria do Irã seu principal instrumento de pressão, conquistado a duras penas durante o conflito. Destaque-se que essa vantagem iraniana foi reforçada por uma redação contraditória do memorando assinado em junho: o quinto ponto do documento estabelece que o Irã deverá empregar seus “melhores esforços” para garantir, em 60 dias, a passagem segura e gratuita dos navios mercantes, deixando para negociações posteriores a definição sobre a futura administração do estreito. Essa redação, na interpretação dos iranianos, reconheceria para Teerã um papel dominante na administração da via marítima, o que incluiria o direito à cobrança por serviços prestados.

 

Os EUA, porém, não podem aceitar essa interpretação, que transformaria o Irã em porteiro de uma rota marítima fundamental para a economia global. Essa é uma das  incompatibilidades que torna tão frágil o arranjo encontrado para pôr fim às hostilidades.

A tranquilidade que encontrei no aeroporto de Doha talvez seja a melhor imagem desta interminável guerra. A vida prossegue, os aviões decolam e os mercados tentam acreditar na paz. Mas, a poucas centenas de quilômetros dali, EUA e Irã continuam disputando quem terá o poder de abrir ou fechar uma das portas da economia mundial.

Este artigo foi originalmente publicado em minha coluna na Gazeta do Povo, em 29 Jun 2026.

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À beira do abismo: Trump, Irã e a lógica da escalada

Trump escala sua retórica até o limite máximo. A ameaça, feita hoje, ao dizer que “uma civilização inteira morrerá esta noite, para nunca mais ser ressuscitada”, caso os iranianos não cedam às exigências norte americanas até as 20h de hoje (21 horas de Brasília), se soma à feita no domingo de Páscoa: “abram a porra do Estreito, seus bastardos loucos, ou vocês vão viver no inferno” e a muitas outras, em diversas entrevistas, no mesmo tom.

A retórica de Trump é sem precedentes para um líder global, ainda mais para o chefe do governo dos Estados Unidos. Tentar explicar sua conduta é um desafio, mas a Teoria dos jogos pode ser de alguma ajuda na tentativa de se compreender a estratégia do presidente norte-americano.

Um conceito importante aqui é o “brinkmanship”. Nela, um ator deliberadamente aumenta o risco de um resultado catastrófico para forçar o adversário a ceder. A ideia central é transformar uma ideia aparentemente irracional (destruir a civilização inteira do Irã) em uma ameaça crível ao adversário, de modo que este pense que, se não recuar, a coisa toda pode sair do controle. Um exemplo clássico é o “chicken game”, ou “jogo da galinha”, no qual dois carros avançam em rota de colisão, e o que desvia primeiro, perde. O risco aqui é óbvio: se ninguém desviar, haverá o desastre.

O problema dessa estratégia é que ela assume que o lado iraniano vai recuar quando o risco ficar alto demais. No entanto, Trump parece subestimar que a liderança iraniana opera com uma racionalidade distinta (a expressão “bastardos loucos” revela o desconforto americano com uma reação que não segue o esperado).

Em primeiro lugar, o regime teocrático iraniano se apoia na profunda propensão ao sacrifício existente no xiismo. Raiz da “cultura do martírio”, essa propensão transforma perdas em propósito religioso e político. Para muitos, a resistência ao “opressor” (EUA/Israel) tem valor religioso e político positivo, mesmo que tenha um enorme custo em vidas e para a economia do país. Isso aumenta significativamente a disposição iraniana no “jogo da galinha”: eles estão dispostos a aguentar mais dor do que uma análise dentro de uma lógica exclusivamente materialista preveria.

Em segundo lugar, ao ameaçar uma “civilização inteira”, Trump esbarra na memória histórica iraniana. O Irã é berço de uma das mais antigas civilizações do mundo e já sobreviveu a múltiplas invasões. Essa narrativa de resiliência está presente tanto na população quanto na liderança, que vê a atual pressão como mais um capítulo de confrontos com potências externas. Isso torna ameaças existenciais menos intimidantes internamente.

Do lado americano, Trump também paga um preço alto. Recuar após tantas ameaças públicas geraria altos custos de reputação: ele seria visto como fraco por sua base e pelos republicanos, especialmente com as eleições de meio de mandato se aproximando. Além disso, o fechamento prolongado do Estreito de Ormuz já elevou os preços do petróleo, pressionando a economia americana com inflação e combustível mais caro para os eleitores. Simplesmente declarar vitória agora e retirar suas tropas, mantendo o Estreito fechado, seria desastroso para sua imagem.

O resultado é que ambos os lados estão presos em uma clássica armadilha de escalada (escalation trap). Trump não pode recuar sem perder credibilidade perante sua base e os aliados regionais, enquanto o regime iraniano não pode ceder sem enfraquecer sua narrativa ideológica de resistência e martírio. Cada nova ameaça ou cada dia de resistência reforça o compromisso do outro lado, tornando mais difícil encontrar uma saída honrosa.

O mundo vive hoje um dia crítico. Esperemos que, no último momento, um dos atores recue, afinal, milhares, senão milhões, de vidas estão em jogo.

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General americano explica o ataque ao Irã

Transcrição do pronunciamento do General Caine acerca dos ataques americanos às instalações nucleares do Irã

Na noite passada, por ordem do Presidente, o Comando Central dos Estados Unidos, sob o comando do General Michael “Erik” Kurilla , executou a Operação Midnight Hammer, um ataque deliberado e preciso contra três instalações nucleares iranianas. Esta foi uma missão complexa e de alto risco, conduzida com excepcional habilidade e disciplina por nossa força conjunta. Quero agradecer a cada militar, planejador e operador que tornou esta missão possível.

Suas ações refletem os mais altos padrões das Forças Armadas dos Estados Unidos. Esta operação foi projetada para degradar severamente a infraestrutura de armas nucleares do Irã. Foi planejada e executada em múltiplos domínios e teatros, com uma coordenação que reflete nossa capacidade de projetar poder globalmente, com rapidez e precisão no momento e local de escolha da nossa nação. Esta foi uma missão altamente secreta, com pouquíssimas pessoas em Washington sabendo sobre o momento ou a natureza do plano. Vou me referir ao gráfico ao lado enquanto explico alguns detalhes operacionais.

Reprodução da imagem do vídeo do discurso do General Caine

À meia-noite de sexta-feira para sábado, um grande grupo de ataque de bombardeiros B-2 decolou do território continental dos Estados Unidos. Como parte do plano para manter a surpresa tática, parte do grupo seguiu para o oeste, para o Pacífico, como um esforço de distração, conhecido apenas por um número extremamente reduzido de planejadores e líderes-chave em Washington e Tampa. O principal grupo de ataque, composto por sete bombardeiros B-2 Spirit, cada um com dois tripulantes, prosseguiu silenciosamente para o leste, com mínimas comunicações.

Durante o voo de 18 horas até a área-alvo, as aeronaves realizaram múltiplos reabastecimentos em voo. Uma vez sobre terra, os B-2 juntaram-se às aeronaves de escolta e apoio em uma manobra complexa e rigorosamente cronometrada, exigindo sincronização exata entre várias plataformas em um estreito espaço aéreo, tudo com comunicação mínima. Este tipo de integração é exatamente o que nossa força conjunta faz melhor que qualquer outra no mundo.

Por volta das 17h (horário padrão do leste dos EUA) de ontem e pouco antes do grupo de ataque entrar no Irã, um submarino dos EUA na área de responsabilidade do Comando Central lançou mais de duas dúzias de mísseis de cruzeiro Tomahawk contra alvos estratégicos de infraestrutura em Esfahan. À medida que o grupo de ataque da Operação Midnight Hammer entrava no espaço aéreo iraniano, os EUA empregaram várias táticas de distração, incluindo iscas, enquanto aeronaves de quarta e quinta geração avançavam à frente do grupo de ataque em alta altitude e alta velocidade, neutralizando ameaças de caças inimigos e mísseis terra-ar.

O grupo de ataque recebeu apoio do Comando Estratégico dos EUA, Comando de Transporte dos EUA, Comando Cibernético dos EUA, Comando Espacial dos EUA, Força Espacial dos EUA e Comando Europeu dos EUA. Ao se aproximar de Fordow e Natanz, as aeronaves de proteção dos EUA utilizaram armas de supressão de alta velocidade para garantir a passagem segura do grupo de ataque, com caças empregando fogo preventivo contra quaisquer potenciais ameaças iranianas terra-ar. Até o momento, não temos conhecimento de disparos contra o grupo durante a entrada.

Por volta das 18h40 (horário padrão do leste dos EUA), 2h10 no horário do Irã, o primeiro B-2 lançou duas bombas penetrantes GBU-57 sobre o primeiro dos vários pontos de mira em Fordow. Como o Presidente afirmou ontem à noite, os bombardeiros restantes também atingiram seus alvos, com um total de 14 bombas GBU-57 lançadas contra duas áreas nucleares.

Todos os três alvos da infraestrutura nuclear iraniana foram atingidos entre as 18h40 e as 19h05 (horário padrão do leste dos EUA), aproximadamente às 2h10 da manhã no horário local iraniano, com os mísseis Tomahawk sendo os últimos a atingir Esfahan, garantindo a manutenção do elemento surpresa durante toda a operação. Após o lançamento das armas, o grupo Midnight Hammer saiu do espaço aéreo iraniano e iniciou o retorno. Não temos conhecimento de disparos contra o grupo na saída. Os caças do Irã não decolaram, e aparentemente os sistemas iranianos de mísseis terra-ar não nos detectaram. Durante toda a missão, mantivemos o elemento surpresa.

No total, as forças dos EUA empregaram aproximadamente 75 armas guiadas de precisão durante esta operação. Isso incluiu, como o Presidente afirmou ontem à noite, 14 bombas penetrantes massivas GBU-57 de 30.000 libras cada, marcando o primeiro uso operacional desta arma. Sei que os danos resultantes são de grande interesse. A avaliação final levará algum tempo, mas análises preliminares indicam que os três locais sofreram danos e destruições extremamente graves.

Mais de 125 aeronaves dos EUA participaram desta missão, incluindo bombardeiros furtivos B-2, múltiplas esquadrilhas de caças de quarta e quinta geração, dezenas de aviões-tanque para reabastecimento aéreo, um submarino lançador de mísseis guiados e uma completa gama de aeronaves de inteligência, vigilância e reconhecimento, além de centenas de profissionais de manutenção e operações. Como o Secretário mencionou, este foi o maior ataque operacional com B-2 na história dos EUA e a segunda missão mais longa do B-2 já realizada, excedida apenas pelas missões imediatamente após o 11 de setembro.

Bem antes do ataque, o General Kurilla elevou as medidas de proteção da força em toda a região, especialmente no Iraque, Síria e Golfo. Nossas forças permanecem em alerta máximo e estão plenamente posicionadas para responder a qualquer retaliação iraniana ou ataques por procuração, o que seria uma péssima decisão. Nós nos defenderemos. A segurança de nossos militares e civis permanece nossa prioridade máxima.

Esta missão demonstra o alcance, coordenação e capacidade incomparáveis das forças armadas dos EUA. Em poucas semanas, fomos do planejamento estratégico à execução global. Esta operação enfatiza as capacidades incomparáveis e o alcance global das forças armadas dos EUA. Como o Presidente disse claramente ontem à noite, nenhuma outra força militar no mundo poderia ter realizado isso. Junto-me ao Presidente e ao Secretário no orgulho extremo das tripulações aéreas, forças navais, operadores cibernéticos, planejadores e equipes de apoio e comandantes que tornaram esta missão possível. É a habilidade, disciplina e trabalho em equipe deles que tornam esta operação possível.

Estou particularmente orgulhoso de nossa disciplina em relação à segurança operacional, algo que preocupava muito o Presidente, o Secretário, o General Carrillo e eu, e continuaremos a focar nisso. Neste momento, muitos recursos ainda estão no ar e centenas permanecem desdobrados. Peço que mantenhamos nossos militares retornando para casa e os desdobrados em nossos pensamentos. Nossa força conjunta permanece pronta para defender os EUA, nossas tropas e nossos interesses na região. Muito obrigado.

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Primeiras impressões sobre o ataque israelense ao Irã

Esperada há quase um mês, a resposta israelense ao ataque iraniano do dia 1º de outubro finalmente ocorreu. Abaixo, compartilho o que sei até agora, com algumas reflexões sobre o que pode estar por vir:
1. A força aérea de #Israel conduziu, na noite de ontem (horário de Brasília, madrugada em Teerã), um ataque ao Irã. Utilizando cerca de 100 aeronaves de combate, entre caças e drones armados, os ataques se concentraram em aproximadamente 20 alvos de natureza militar. Divididos em três levas, os ataques tinham o claro objetivo de degradar as capacidades de defesa antiaérea do Irã, incluindo radares e baterias de mísseis e foguetes, além de locais de produção e estocagem de mísseis. A operação durou cerca de quatro horas, com as aeronaves percorrendo aproximadamente 2 mil quilômetros, o que certamente exigiu reabastecimento em voo. Segundo fontes israelenses, todas as aeronaves retornaram às suas bases sem baixas.
2. Levará alguns dias para que se possa avaliar com mais precisão os efeitos dos ataques sobre os alvos. Nas próximas semanas, análises de imagens de satélite trarão essa resposta. Embora as autoridades iranianas estejam minimizando os impactos – uma estratégia que lhes permite evitar uma retaliação imediata – é possível que o ataque israelense tenha realmente comprometido capacidades críticas de defesa antiaérea do Irã, facilitando possíveis novos ataques no futuro.
3. As aeronaves israelenses utilizaram o espaço aéreo da #Siria e do #Iraque, também bombardeando sistemas de defesa antiaérea nesses países. No #Irã, os ataques atingiram bases militares em Teerã, bem como locais nas províncias de Ilam e Khuzistão. Foi um ataque limitado, aparentemente calibrado para permitir que o Irã encerre as rodadas de ataques mútuos.
4. O Irã, que informou que os ataques causaram duas baixas entre seus militares, enfrenta um dilema: se retaliar, sabe que o próximo ataque israelense poderá ser ainda mais intenso; se não o fizer, corre o risco de parecer fraco perante sua própria população e seus aliados, especialmente o Hezbollah, o Hamas e os Houthis.
5. Até agora, a resposta oficial do Irã veio por meio do Ministério das Relações Exteriores, que acusou Israel de aumentar as tensões na região, afirmando que Teerã tem “o direito e a obrigação de se defender contra atos de agressão estrangeira”.
6. A decisão sobre os próximos rumos dos acontecimentos está nas mãos dos iranianos. Suas lideranças não desejam uma escalada maior com Israel, mas certamente há vozes influentes no país clamando por uma resposta mais enérgica, o que facilmente poderia desencadear um conflito regional. O Oriente Médio caminha na corda bamba.



A ação militar israelense contra o Irã à luz do pensamento de um velho general francês

André Beaufre (1902–1975) foi um general e teórico militar francês, cujas formulações tiveram grande impacto sobre os estudos estratégicos do século XX, com grande influência, inclusive, sobre o pensamento estratégico do Exército Brasileiro. Formado na Escola Militar de Saint-Cyr, Beaufre participou de vários conflitos importantes, incluindo a Segunda Guerra Mundial, a Guerra da Indochina e a Guerra da Argélia. Sua carreira militar foi marcada por uma combinação de experiência prática no campo de batalha e reflexões teóricas profundas sobre o uso da força e a natureza da guerra.

Sua obra mais influente foi “Introdução à Estratégia”, de 1963. Nessa obra, Beaufre ultrapassa simples considerações acerca de forças militares ou sobre táticas de combate, para tratar do que ele considerava a finalidade da Estratégia, qual seja, atingir os objetivos fixados pela política, utilizando da melhor maneira os meios à disposição do Estado.

Compre o livro Introdução a Estratégia, de André Beaufre

Para Beaufre, o modelo estratégico a ser escolhido para o atingimento dos objetivos políticos dependia de alguns fatores essenciais: a liberdade de ação, as forças materiais, as forças morais, e o tempo disponível.

A Liberdade de Ação (K) diz respeito à capacidade do Estado de agir com independência estratégica, sem ser bloqueado ou limitado por fatores políticos, diplomáticos ou operacionais. Isso está ligado à capacidade de manobra, tanto militar, quanto política e diplomática.

As forças materiais (F) referem-se aos recursos tangíveis disponíveis para a execução da estratégia, como armamentos, infraestrutura militar, logística, mão de obra, entre outros.

Por sua vez, as Forças Morais (Y) são os fatores intangíveis que incluem a vontade, a motivação e a capacidade de uma nação ou de uma força militar em manter o esforço de guerra, mesmo em face de adversidades. Esses podem incluir a coesão nacional, a moral das tropas, a legitimidade de uma causa e a resiliência psicológica da população.

Finalmente, o tempo disponível (T) para a execução da estratégia deve ser confrontado com o necessário para o atingimento dos objetivos. O passar dos dias, das semanas, dos meses e dos anos pode causar mudanças significativas no cenário estratégico, criando urgências que interferem na escolha do modelo estratégico.

Os fatores acima podem ser, portanto, delineados em uma “Fórmula Geral da Estratégia”, na qual o impulso estratégico (S) é diretamente proporcional aos fatores liberdade de ação, forças materiais, forças morais e tempo disponível.

S = K.F.Y.T

Um impulso estratégico elevado favorece a adoção de um modelo estratégico que privilegie ações diretas, como o conflito violento. Um impulso estratégico menor, indica a adoção de estratégias indiretas, na qual o essencial da decisão é obtido por outros meios à disposição do Estado, que não o meio militar, como os econômicos ou diplomáticos.

As ferramentas oferecidas por Beaufre ajudam a compreender as opções estratégicas adotadas pelo Estado de Israel na crise em andamento entre aquele país e o Irã. Vejamos cada um dos fatores.

A liberdade de ação do governo israelense para atuar contra o Irã é alta. Ao se analisar o sistema internacional, observa-se que os países ou organismos internacionais que poderiam exercer alguma pressão que diminuísse tal liberdade de ação, por diferentes razões, não estão em condições de exercê-la. Os EUA, envoltos na acirrada campanha eleitoral do próximo mês e a Rússia, em guerra, não têm, no momento, o poder de influência/coerção que já tiveram no passado. A ONU, que está com seu Conselho de Segurança completamente paralisado, é incapaz de chegar a qualquer consenso que pudesse limitar as ações israelenses. Do ponto de vista interno, apesar de enfrentar uma oposição forte, no que concerne ao Irã, o governo tem total liberdade de executar suas estratégias conforme planejadas.

As forças de defesa de Israel possuem forças materiais, ou seja, capacidades militares, suficientes para fazer face ao desafio imposto pelo Irã, contando com equipamentos modernos, uma força bem treinada e com larga experiencia de combate. Além disso, sempre pode contar com o apoio norte-americano, especialmente para complementar sua defesa antiaérea e com preciosas informações de inteligência.

As forças morais, representadas pela coesão nacional em torno das decisões tomadas pelo governo israelense em relação à crise com o Irã talvez seja o aspecto mais controverso da análise. Sabidamente, o governo dirigido pelo Primeiro-ministro Benjamim Netanyahu enfrenta uma forte oposição interna, que antecede à presente crise e se agrava em relação ao confronto com o Hamas, na Faixa de Gaza, em razão da incapacidade em resgatar os reféns que, um ano depois de terem sido sequestrados, continuam nas mãos dos terroristas. Entretanto, as espetaculares e muito exitosas ações contra a liderança do grupo Hezbollah, bem como o desejo de reagir ao ataque iraniano, que lançou cerca de 200 mísseis balísticos contra o território israelense, acabam por criar um quase consenso entre os israelenses de que chegou a hora de uma ação mais contundente contra o Irã. Além disso é sempre bom lembrar que, apesar das divisões, Israel historicamente é capaz de unir-se quando confrontado com ameaças externas, como é o caso atualmente.

O tempo disponível, último aspecto levantado por Beaufre, não é, atualmente, limitante para as ações israelenses contra o Irã. Entretanto, caso a crise se prolongue no tempo, certamente a pressão internacional pelo fim das hostilidades aumentará. Isso certamente poderá criar um sentimento de urgência que tende a aumentar o impulso estratégico israelense.

Assim, pode-se concluir que todos os aspectos levantados pelo general francês indicam que Israel tem um alto impulso estratégico para a resposta ao ataque iraniano. Isso pressupõe, conforme indica Beaufre, uma tendência pela opção de um modelo de ação que privilegie uma ação direta, com a utilização das ferramentas militares disponíveis, em um conflito de alta intensidade e, se possível, de curta duração.

À luz da teoria de Beaufre, Israel parece reunir todos os elementos para justificar uma ação direta e decisiva contra o Irã, uma vez que sua liberdade de ação, forças materiais, e tempo disponível estão claramente a seu favor. Embora existam tensões internas que possam impactar as forças morais, o desejo de responder aos recentes ataques pode gerar o consenso necessário para uma estratégia militar de curto prazo. Contudo, os desdobramentos diplomáticos e as pressões internacionais também terão um papel crucial na manutenção desse impulso estratégico caso o conflito perdure longo do tempo.

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Os principais pontos de tensão geopolítica em 2023


O novo ano traz muitos desafios para a paz mundial. Na Europa, a guerra de alta intensidade provocada pela invasão russa da Ucrânia continua longe de um final. Na Ásia, a China reafirma seus interesses no Indo-Pacífico com crescente assertividade, enquanto a Coreia do Norte prossegue em seus programas nuclear e de mísseis e o Japão anuncia um amplo programa de modernização de suas forças armadas, que prevê que o país passará a ser o terceiro do mundo em investimentos militares até 2027. No Oriente Médio, o Irã exporta armas para a Rússia em guerra e mantém seu programa nuclear ao mesmo tempo que, em Israel, Netanyahu está de volta ao poder, liderando um governo nacionalista que tenderá ao confronto, não à acomodação, com os palestinos e iranianos. O continente africano segue sendo palco de dezenas de conflitos armados. Na América Latina, apesar da ausência de conflitos formais, a atuação de grupos criminosos e narcoterroristas, especialmente na Colômbia e no México, se mantém como um fator de instabilidade.

Em 2023, a guerra na Ucrânia prosseguirá, com alguns cenários possíveis. O primeiro é aquele em que a Rússia, que reforçou seus efetivos pela mobilização de centenas de milhares de soldados, retoma a iniciativa e inicia uma ofensiva para tentar controlar inteiramente as províncias de Kherson e Zaporizhzhia, no Sul da Ucrânia, e Lugansk e Donetsk, no Leste do país, todas anexadas ilegalmente ao território russo em 2022. O segundo cenário contempla a Ucrânia, fortemente apoiada financeira e materialmente pelos EUA e países europeus, prosseguir no esforço de retomar os territórios perdidos. Um terceiro cenário seria a Rússia novamente tentar conquistar a capital, Kiev, atacando por Norte, a partir do território bielorrusso. Um quarto cenário, menos provável, mas mais perigoso, seria o transbordamento da guerra para fora do território ucraniano, para a Transnístria, na Moldávia, ou para Belarus, ou mesmo para um país membro da Otan, como a Polônia. Esta última possibilidade poderia provocar uma escalada acentuada do conflito, com repercussões inimagináveis.

Nenhum dos cenários acima contempla a possibilidade de paz em curto prazo, uma vez que nem Rússia, nem Ucrânia, possuem poder militar/econômico suficiente para atingir os objetivos descritos nos cenários acima, especialmente em curto prazo. Uma guerra termina quando um dos contendores desiste da luta, concordando com termos que lhe são desvantajosos para celebrar a paz. Essa não parece ser uma opção para os ucranianos, que como o presidente Zelensky repetidas vezes afirmou, não aceita ceder territórios ao invasor. Como retirar as tropas para celebrar a paz também não é uma opção para o presidente Putin, que não teria como justificar para o povo russo uma invasão que não redundasse em nenhum ganho para a Rússia, o impasse prosseguirá.

Assim, é certo que até que se encontre uma saída para essa encruzilhada, a guerra prosseguirá na Europa, e com ela todas as repercussões sociais, políticas, econômicas e comerciais, como a escassez energética, a inflação e o aumento do fluxo de refugiados servindo como exemplos. Tal situação provavelmente levará a uma diminuição do apoio da opinião pública europeia à Ucrânia, e a uma consequente pressão pelo fim das hostilidades, o que colocará os líderes europeus diante de uma escolha entre duas opções, ambas ruins. A primeira seria pressionar a Ucrânia a buscar imediatamente a paz, o que levaria os europeus a admitir que a Rússia ampliasse seus territórios pela conquista em uma guerra, um fato inadmissível para as potências ocidentais. A segunda seria apoiar ainda mais a Ucrânia com armas, equipamento e dinheiro, tentando desequilibrar a balança da guerra em seu favor, o que poderia levar a Rússia a uma escalada, não se descartando o uso de artefatos nucleares táticos, com repercussões ainda mais graves.

Dado o exponencial crescimento da conflitividade do ambiente, é certo que os investimentos em defesa continuarão a crescer na Europa, em ritmo que não era visto desde o fim da Guerra Fria. Os países da comunidade europeia já concordaram em aumentar seus gastos, de modo que em 2027 se somem cerca de 70 bilhões de dólares aos pouco mais de 200 bilhões atualmente aplicados. A Polônia se destaca nesse quesito, devendo passar a ter o mais poderoso exército europeu nos próximos anos. Por outro lado, apesar dos embargos econômicos impostos pelo Ocidente e em boa medida driblados pelo incremento das relações comerciais russas com parceiros como a Índia e a China, o presidente Putin tem reiterado que continuará a incrementar os investimentos em defesa do país.

Na Ásia, o presidente da China, Xi Jinping, após garantir um terceiro mandato inédito, enfrenta dificuldades sociais e econômicas. O fim da política da Covid Zero, após a pressão de protestos ocorridos em diferentes regiões do país, ocasionou um exponencial aumento dos casos e das mortes, que colocam em risco o sistema de saúde e a confiança do povo no gerenciamento da pandemia por parte do Partido Comunista. Isso ocorre ao tempo em que a economia desacelera, a crise no setor imobiliário persiste e o desemprego, especialmente dentre os mais jovens, atinge níveis elevados. Ainda no campo interno, uma questão bastante sensível é a que envolve a minoria uighur da província de Xinjiang, onde o governo chinês é acusado de violações graves dos direitos humanos.

Ao mesmo tempo, a China coleciona situações de potencial conflito com seus vizinhos. Há a questão da ilha de Taiwan, que possui um governo autônomo, mas é considerada uma província rebelde que deverá ser reincorporada à soberania chinesa. Há também disputas fronteiriças com a Índia, que volta e meia retornam à baila em razão de incidentes entre as tropas de fronteira e a disputa com o Japão pelas ilhas Senkaku, chamadas pelos chineses de Diaoyu Dao, além dos embates no Mar do Sul da China, com diversos países vizinhos.

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A acirrada competição geopolítica e comercial entre os Estados Unidos e a China se manterá em 2023. Os EUA sustentarão sua presença no Indo-Pacífico, fortalecendo parcerias e alianças naquela região com o objetivo de garantir sua influência. Tal atitude certamente provocará reação chinesa, uma vez que os interesses das duas potências em vários momentos serão conflitantes.

Na península da Coreia, o ditador Kim Jong un continua a acelerar os programas nuclear e de mísseis, com um recorde de lançamentos e testes em 2022. A guerra na Ucrânia ofereceu uma oportunidade ao país, que enfrenta há anos embargos econômicos, para a venda de armamentos. Há notícias de venda de armas para a Rússia e o prolongamento da guerra deverá constituir oportunidade para intensificação dessas vendas, ainda que de forma velada.

A Coreia do Sul, por sua vez, divulgou sua estratégia para a região do Indo-Pacífico, destacando que a capacidade nuclear, assim como o programa de mísseis da Coreia do Norte, são uma forte ameaça à paz na região.

A movimentação militar da China e da Coreia do Norte provocou a reação do Japão, que após aprovar uma nova estratégia nacional de segurança, divulgou um amplo programa de modernização de suas forças armadas, com um substancial incremento de seus investimentos em defesa, que deverão duplicar até 2027, o que colocará o país em terceiro lugar no mundo no quesito investimentos militares.

No Oriente Médio, o Irã prossegue no desenvolvimento de suas capacidades nucleares, que voltaram a ser desenvolvidas com o fim do acordo nuclear, em 2018. O país já enriquece urânio a níveis próximos dos necessários à fabricação da bomba nuclear, mas nega a intenção de possuir tal tipo de armamento. O Irã vem sendo palco de uma série de manifestações populares, desde a morte de uma jovem da minoria curda, após ser presa pela polícia dos costumes do país. O regime vem reprimindo as manifestações com violência, já tendo, inclusive, condenado manifestantes à morte, sendo pouco provável que os protestos venham a ameaçar a estabilidade do governo. Mas, a guerra na Ucrânia se mostrou uma oportunidade para os iranianos venderem material de emprego militar aos russos, especialmente sistemas de aeronaves remotamente pilotadas e as loitering munitions, conhecidas como “drones kamikazes”. Especula-se que, em troca, os russos poderiam auxiliar os iranianos em seu programa nuclear.

Em Israel, Benjamin Netanyahu reassumiu o governo, formando uma coalizão nacionalista e escalando alguns ministros com um histórico de ações anti-palestinas. Ele afirmou, em diversas oportunidades, que Israel não admitirá que o Irã alcance o status de potência nuclear, de modo que as tensões entre os dois países deverão se elevar ainda mais na gestão do novo primeiro-ministro israelense.

Além disso, a rivalidade entre Arábia Saudita e Irã permanece alta. Os dois países estão com as relações diplomáticas rompidas desde 2016 e apoiam lados contrários nas guerras civis do Iêmen e da Síria, além de disputarem a proeminência geopolítica na região.

A África e a América Latina, que convivem há anos com conflitos que, embora causem muito sofrimento às populações locais, são crônicos e considerados de baixa intensidade, apresentam pontos locais de tensão que merecerão a atenção dos governos e dos organismos multilaterais regionais sem, entretanto, afetar significativamente a geopolítica global.

Nas relações entre os países, o chamado Dilema de Segurança surge como um paradoxo inerente ao próprio Sistema de Estados. Afinal, uma razão fundamental para a existência do Estado é proporcionar segurança aos seus cidadãos em relação a ameaças externas e internas. Para isso, ao identificar ameaças, o Estado investe em sistemas de armas para sua defesa, mas isso faz com que ele próprio passe a representar uma ameaça aos outros Estados, que também passam a se armar. É o que popularmente se chama “corrida armamentista”.

Como procurei demonstrar, em 2023 o mundo observará a instalação desses dilemas de segurança em três regiões ao mesmo tempo: na Europa, em razão da guerra da Ucrânia, na região do Indo-Pacífico, em razão da crescente tensão nas relações entre os principais atores regionais e entre a China e os Estados Unidos, e no Oriente Médio, motivada pela desconfiança mútua entre Irã, Israel e Arábia Saudita. Esses três serão, portanto, os principais focos de tensão geopolítica do mundo em 2023.

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A viagem de Joe Biden ao Oriente Médio

O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, acaba de encerrar uma viagem a Israel, Cisjordânia, e Arábia Saudita. As visitas ocorreram em um momento conturbado, em que a guerra na Ucrânia desorganiza o mercado mundial de gás natural, petróleo e derivados; o Irã caminha a passos largos para a fabricação da arma nuclear e Israel está sendo governado por um gabinete interino, após a renúncia do Primeiro-Ministro Naftali Bennett. A região também vive um momento de acirramento da disputa geopolítica, em que o Irã, a Turquia e a Arábia Saudita disputam primazias e esferas de influência; o Afeganistão está mergulhado no caos econômico após o retorno do Talibã ao poder; e o Líbano passa por grave crise econômica, assim como a Síria, país que enfrenta uma guerra civil há mais de 11 anos. No Iêmen, a guerra civil, que na verdade é travada por procuração entre iranianos e árabes desde 2014, com os primeiros financiando os rebeldes Houthis e os últimos apoiando o governo, está assistindo a um momento de trégua, negociado pela ONU.

Biden iniciou sua viagem por Israel, país que vive mais um momento político conturbado, com a renúncia do Primeiro-Ministro Naftali Bennett, em junho. Com isso, Biden se reuniu com Yair Lapid, que acabou de assumir um governo interino, até que sejam realizadas novas eleições, no final do ano. O presidente norte-americano também se reuniu com Mahmoud Abbas, líder da Autoridade Palestina. As relações entre israelenses, palestinos e norte-americanos encontra-se ainda mais tensionada do que de costume, em razão do assassinato, por tropas israelenses, da jornalista palestino-americana Shireen Abu Akleh, em maio.

Em Israel, um dos principais focos das conversas de Biden foi o programa nuclear iraniano, que tem alcançado significativos avanços. O país acaba de anunciar que enriqueceu Urânio a 20% utilizando as novas e avançadas centrífugas IR-6 da instalação nuclear de Fordo, construída por razões de segurança no subterrâneo das montanhas da cidade de Qom, ao Sul de Teerã. A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) informou no mês passado que o Irã já teria 43 quilos de urânio enriquecido com 60% de pureza – um importante passo para chegar aos 90% necessários para a produção da arma nuclear. Especialistas em não proliferação alertam que se trata de uma quantidade de material físsil suficiente para a fabricação da bomba.

É grande a preocupação israelense com o fato de o Irã estar cada vez mais próximo de alcançar o status de potência nuclear. Existe no país a percepção de que sua própria existência pode ser ameaçada, uma vez que os iranianos não reconhecem a legalidade ou a legitimidade do Estado israelense.

Essa preocupação ficou muito clara na declaração conjunta, divulgada pelos governos dos EUA e de Israel, denominada “Declaração de Jerusalém” ¹. Nela, os EUA reafirmam sua parceria estratégica com os israelenses e seu compromisso com a segurança de Israel, declarando que ela é, também, de interesse da própria segurança dos EUA. Em um trecho especialmente importante da declaração, os EUA enfatizam o compromisso de nunca permitir que o Irã adquira armas nucleares, dizendo-se, inclusive, preparado para usar todos os elementos de seu poder nacional para garantir esse resultado. Tal afirmação refere-se, evidentemente, ao poder militar, em uma clara delimitação de uma “linha vermelha” que não pode ser ultrapassada pelo Irã: tornar-se detentor de armamentos nucleares.

Conheça o minicurso Guerra na Ucrânia

Joe Biden também esteve na Cisjordânia, onde se encontrou com Mahmoud Abbas, presidente da Autoridade Palestina. No encontro, reiterou o compromisso norte-americano com uma solução para a questão palestina que contemple a existência de dois Estados, o israelense e o palestino, embora tenha dito que este encaminhamento não está maduro “no momento”. Abbas, por sua vez, disse que a chave da paz para a região seria a saída dos israelenses dos territórios ocupados.

A chegada de Biden à Arabia Saudita foi marcada por um gesto simbólico: a viagem do avião presidencial diretamente de Israel à Arábia Saudita, rota até então interditada pelos árabes. Significativamente, em medida simultânea à presença de Biden no país, os sauditas informaram que tal proibição seria retirada, abrindo seu espaço aéreo à chegada de voos comerciais vindos de Israel.

A presença de Biden na Arábia Saudita causou reações desfavoráveis em sua própria base de apoio, os integrantes do Partido Democrata. Ainda durante a campanha eleitoral, Biden declarou que aquele seria um “país pária”. E expressão foi usada em razão do assassinato, em território turco, do jornalista árabe Jamal Khashoggi. A inteligência norte-americana responsabilizou diretamente o príncipe herdeiro, e homem-forte do regime saudita, Mohammed bin Salman, pelo assassinato. Assim, o encontro entre MBS, como Salman é conhecido, e Biden causou constrangimentos a ambas as partes.

Mas o pragmatismo falou mais alto porque, neste momento, a Arábia Saudita é um parceiro ainda mais importante para os EUA. E isso ficou caracterizado pela declaração conjunta ²emitida após o encontro. Nela, se destacam a questão energética, na qual a Arábia Saudita tem um papel fundamental na estabilização do mercado profundamente afetado pela guerra na Ucrânia, uma vez que é o segundo maior produtor de petróleo do mundo, e a questão de segurança, com ambos os países afirmando que é importante impedir que o Irã “interfira em assuntos internos de outros países, patrocine o terrorismo e atue para desestabilizar a região”.

Ainda em território saudita, Biden aproveitou uma reunião do Conselho de Cooperação do Golfo para se encontrar com os demais líderes dos países do Golfo Pérsico: Omã, Kuwait, Bahrein, Catar e Emirados Árabes Unidos (EAU). Além dos países do Golfo, também compareceram à reunião os líderes do Egito, Iraque e Jordânia. Nesse encontro, Biden disse que os EUA não abandonariam o Oriente Médio à China ou à Rússia, em referência à disputa que essas potências travam por influência na região.

A viagem de Biden ao Oriente Médio foi cheia de significados. Mostrou que dois antagonistas históricos, israelenses e árabes, possivelmente deixarão suas diferenças de lado para enfrentar um adversário comum, cada vez mais poderoso: o Irã. Deixou claro também que o Oriente Médio, quer por sua produção petrolífera, quer por sua posição geográfica privilegiada, ainda é uma área de fundamental importância para o jogo geopolítico das grandes potências, razão pela qual os norte-americanos continuarão a tentar fazer valer sua influência na região.

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¹ https://www.whitehouse.gov/briefing-room/statements-releases/2022/07/14/the-jerusalem-u-s-israel-strategic-partnership-joint-declaration/?utm_source=twitter

² https://www.whitehouse.gov/briefing-room/statements-releases/2022/07/15/the-jeddah-communique-a-joint-statement-betweeen-the-united-states-of-america-and-the-kingdom-of-saudi-arabia/