Estamos voltando a 1914? A perigosa reconstrução das alianças militares

No último dia 7, uma notícia chamou a atenção daqueles que se dedicam ao acompanhamento dos assuntos estratégicos e de defesa: Arábia Saudita, Turquia e Paquistão assinaram, na cidade sagrada de Meca, um acordo de defesa mútua que estipula que um ataque armado contra qualquer um dos três países seria considerado um ataque contra todos.

O arranjo reúne três países islâmicos sunitas, com capacidades complementares: a Arábia Saudita, detentora de enorme capacidade financeira, bem como recursos energéticos abundantes; a Turquia, país com relevante capacidade militar, com sua indústria de defesa e seu exército, que conta com o segundo maior efetivo dentro da OTAN; e o Paquistão, país detentor da bomba nuclear.

O estabelecimento de uma aliança militar com uma cláusula de defesa mútua que o próprio chanceler turco comparou ao Artigo 5º da OTAN nos obriga a fazer algumas reflexões, bem como a buscar exemplos históricos que ajudem a compreender as repercussões da criação desses arranjos. Afinal, como Mark Twain teria dito, a história, embora não se repita, muitas vezes “rima”…

Seria um exagero dizer que os acontecimentos de 2026 repetem aqueles que se deram antes da Primeira Guerra Mundial. Mas não me parece equivocado afirmar que alguns mecanismos que tornaram o sistema internacional pré-1914 perigoso estão reaparecendo.

Um desses mecanismos é o chamado “dilema de segurança”. Um país reforça suas alianças porque se sente ameaçado. Seu adversário, porém, interpreta a nova aliança como ameaça e procura fortalecer suas próprias capacidades e parceiros. O movimento que é defensivo para um lado parece ofensivo para o outro. É precisamente o tipo de dinâmica que alimentou a corrida armamentista anterior a 1914 e que parece ressurgir hoje: os gastos militares globais cresceram, em 2025, pelo 11º ano consecutivo, alcançando US$ 2,887 trilhões. Nesse sentido, também é importante destacar o contexto de deterioração radical do ambiente de segurança do Oriente Médio em que o novo pacto é firmado. O conflito no Golfo Pérsico, entre Irã e Estados Unidos, levanta, para países como a Arábia Saudita, dúvidas sobre se poderão realmente contar com os norte-americanos em um conflito futuro, o que os obriga, além de buscar outros parceiros militares, a aumentar ainda mais seus investimentos em defesa.

Tal como na primeira década do século 20, estamos nos dias de hoje assistindo, de forma progressiva, ao surgimento de arranjos formais e informais de segurança. Antes da Primeira Guerra, os países foram se agrupando em torno da Tríplice Entente ou da Tríplice Aliança, criando expectativas sobre quem apoiaria quem em uma crise militar. Hoje, para além da tradicional OTAN e das alianças dos EUA com Israel e diversos países do Indo-Pacífico, vemos o estabelecimento da “Amizade além de todos os limites” entre Rússia e China, a aliança formal entre Rússia e Coreia do Norte e a rede de parceiros do Irã por todo o Oriente Médio. Nesse sentido, é preocupante que a Turquia participe concomitantemente da OTAN e dessa nova aliança, uma vez que isso cria linhas de compromisso que conectam crises regionais diferentes. Vamos lembrar que há poucos dias a Ucrânia atacou um navio iraniano no Mar Cáspio, que, segundo a inteligência do país europeu, transportava suprimentos militares do Irã para a Rússia, uma ação que também conectava o conflito europeu ao do Golfo Pérsico.

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O perigo existente nesse tipo de dinâmica é evidente: com a criação da aliança de Meca, uma eventual guerra regional envolvendo Irã e Arábia Saudita poderia acionar os compromissos assumidos pelo Paquistão e pela Turquia, criando fortes pressões para o envolvimento dos dois países; e uma crise envolvendo a Turquia poderia produzir simultaneamente consequências para a OTAN.

Isso não significa que alianças sejam, por natureza, desestabilizadoras. Ao contrário, sua principal função é reforçar a dissuasão. O risco surge quando compromissos de segurança se multiplicam, se sobrepõem e transformam crises locais em desafios que envolvem outras potências que, de outra forma, poderiam permanecer fora do conflito.

O principal ponto de atenção é o seguinte: se nos próximos anos começarmos a enxergar com mais clareza a formação de blocos militares cada vez mais rígidos, como, por exemplo, EUA – OTAN – Japão – Coreia do Sul – Austrália versus Rússia – China – Coreia do Norte – Irã, nesse caso, a analogia com a década anterior a 1914 se tornará consideravelmente mais forte, e bem mais perigosa.

Este artigo foi originalmente publicado na Gazeta do Povo, em 10 de agosto de 2026

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A CRISE NA CAXEMIRA

“Eu sou o comandante Abhinadan, meu número é 27981, sou piloto de caça, minha religião é hindu. Desculpe-me. Isso é tudo o que tenho a dizer.” A declaração do piloto indiano abatido em território paquistanês segue estritamente os manuais militares. Ele se identifica conforme os tratados internacionais e deixa claro que não vai falar mais nada. Apesar de estar vendado, sabe que, na era da informação, certamente a entrevista seria filmada. E foi. O vídeo com a imagem do oficial espalha-se pelo mundo rapidamente, para a alegria nacionalista dos paquistaneses e fúria dos indianos. A mais recente crise entre as duas potencias asiáticas atinge o ápice.

É claro que a escalada de uma crise entre países que detêm armamento nuclear é muito grave e preocupante. Qualquer erro de cálculo de um dos lados pode provocar uma ação que ultrapasse um ponto irreversível. E a prisão filmada de um piloto de caça que teve sua aeronave abatida é um desses eventos que mobilizam as populações de ambos os lados, inserindo um componente bastante perigoso pelo potencial de influenciar emocionalmente os governantes na condução da crise.

A Caxemira é uma área ao norte do subcontinente indiano disputada por Paquistão e Índia desde a independência desses países, em 1947. Uma guerra foi travada à época, mas o problema não foi solucionado. O acordo de cessar-fogo previu a divisão da área, parte menor sob autoridade paquistanesa, parte maior sob autoridade indiana. Mas a questão permaneceu não resolvida. Desde então houve vários conflitos. A partir da década de 1980 a situação se agravou pela atuação de terroristas favoráveis às pretensões paquistanesas.

Em 14 de fevereiro deste ano, 42 paramilitares indianos foram mortos num ataque suicida na parte da Caxemira administrada pela Índia, causando grande comoção popular. Foi o ataque que causou o maior número de baixas nestas três décadas de ações terroristas. O grupo terrorista Jaish-e-Mohammad (Exército de Maomé), que tem sua base na Caxemira paquistanesa, reivindicou a autoria do ataque.

O primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, acusou o Paquistão de usar o grupo para atacar indianos. O Paquistão negou envolvimento. Então, em 26/2 aeronaves indianas cruzaram a linha de controle que demarca a fronteira e atacaram o que foi descrito como um grande campo de treinamento do grupo terrorista, na região de Balakot, Caxemira paquistanesa.

No dia seguinte, 24 caças paquistaneses foram identificados pelos radares indianos voando provocativamente próximos à linha de fronteira. Três F-16 teriam cruzado a linha na direção do espaço aéreo indiano. Em resposta, oito caças indianos decolaram para interceptar as aeronaves paquistanesas. O que aconteceu a seguir foi um combate aéreo em que o Mig-21 do comandante Abhinadan foi abatido. Embora pudesse ter sido previsto, provavelmente um combate aéreo não era o resultado esperado pelos paquistaneses quando planejaram a ação militar.

A História está cheia de exemplos em que guerras foram iniciadas por erros de avaliação, falhas de interpretação ou simples enganos. A crise escala de lado a lado até que não há alternativa senão a guerra.

Esse parece ser um exemplo de como uma crise pode escalar rapidamente, quase saindo do controle. De um lado, o governo da Índia, às vésperas de eleições gerais, sentiu-se compelido a agir contra o grupo terrorista que matou dezenas de indianos. Do outro, ao atacar uma região além da linha de controle, em área paquistanesa, os indianos claramente cruzaram uma linha vermelha. Do ponto de vista paquistanês, o ataque causou sério dano à reputação do governo do primeiro-ministro Imran Khan e à honra das Forças Armadas do país. Era óbvio que o Paquistão se sentiria compelido a retaliar. A retaliação causou o abate de uma aeronave e a prisão de um piloto. Um rastilho de pólvora galvanizando a opinião pública de ambos os lados.

A decisão de devolver o piloto indiano em boas condições de saúde, dois dias após a captura, de forma digna, foi uma saída encontrada pelo governo paquistanês para desescalar a crise, oferecendo à Índia a possibilidade de também abrandar o discurso. Colaboraram para esse desfecho as manifestações de diversos líderes mundiais, além da ONU, clamando por comedimento. A situação permanece explosiva, mas no momento em que escrevo parece que as tensões retrocederam alguns pontos.

O caso traz ensinamentos e relembra questões muito importantes e por vezes ignoradas. Há formas corretas e métodos próprios para o gerenciamento de crises. Os erros e acertos do passado estão aí para ser relembrados e estudados. São exemplos o acerto na condução norte-americana da crise dos mísseis em Cuba, que impediu uma guerra nuclear entra EUA e URSS, e os erros do primeiro-ministro britânico Neville Chamberlain ao conduzir as negociações com a Alemanha nazista, uma das causas da 2.ª Guerra Mundial.

Por mais que se discorde dos princípios, da ideologia e das ações do adversário, reconhecer seus dilemas, entendendo a lógica que norteia seu comportamento, é um princípio fundamental a ser observado na condução de uma crise. Outro é manter abertos os canais de comunicação, proporcionando “saídas honrosas”, de modo a evitar que, emparedado, o oponente não veja outra solução a não ser aumentar o grau de enfrentamento.

A passionalidade que normalmente acompanha uma crise entre Estados vizinhos faz acontecimentos muitas vezes banais tomarem rumos inesperados. Para tentar minimizar essa possibilidade todos os agentes do Estado que podem vir a ter alguma participação nos eventos devem receber diretrizes muito claras, normas e regras de fácil interpretação, para que enganos, dificuldades de entendimento ou erros de avaliação não resultem em consequências ainda mais graves.