Trump não comprou a Groenlândia — mas conseguiu parte do que queria

Desde os primeiros dias de seu governo, o presidente Trump vem afirmando que a Groenlândia, a enorme ilha autônoma integrante do Reino da Dinamarca, deveria passar a ser controlada pelos EUA. Na sexta-feira, dia 18 de setembro, Trump finalmente encontrou razões para comemorar o resultado de sua pressão. Em sua rede social, o presidente anunciou que havia chegado a um acordo com a Dinamarca e a Groenlândia, que finalmente concederia aos Estados Unidos “o controle permanente sobre a segurança e todas as demais necessidades na Groenlândia”.

O texto do acordo final deverá se tornar público esta semana, quando será formalmente assinado, durante a Assembleia Geral da ONU, em Nova York. Pelo que Trump divulgou, entretanto, já se sabe que o acordo não teve “custos para os Estados Unidos” e lhe daria a capacidade de “fazer o que for necessário” para “garantir e defender a segurança da Groenlândia”.

Os EUA já tinham, desde 1951, bastante liberdade para atuar na Groenlândia. Um acordo firmado naquele ano entre os EUA e a Dinamarca — e ainda em vigor — já autorizava os EUA a criar e operar “áreas de defesa” em comum acordo com os dinamarqueses. Dentro delas, os EUA têm direitos muito amplos de construção, operação, estacionamento de tropas, armazenagem e segurança. Além disso, o acordo de 1951 dá aos EUA o direito de trânsito terrestre, marítimo e aéreo entre as áreas de defesa e permite que aeronaves americanas sobrevoem e pousem na Groenlândia. Neste ponto, portanto, não parece ter havido grandes mudanças no entendimento entre os dois países sobre o direito dos EUA de operar militarmente na ilha.

Sendo a Dinamarca um membro da OTAN, seria politicamente inconcebível, nas circunstâncias atuais, imaginar a instalação de bases militares russas ou chinesas na Groenlândia, independentemente da existência de qualquer acordo adicional. Há, entretanto, um aspecto inovador no acordo anunciado por Trump: os adversários dos EUA estariam impedidos de realizar determinados “investimentos sensíveis” na ilha. Segundo Trump, tais investimentos dependeriam de aprovação americana. Esse tipo de restrição não está previsto no acordo de 1951 e acrescenta uma dimensão econômica às restrições estratégicas à atuação, por exemplo, de empresas chinesas na ilha. Pode-se imaginar que, a partir de agora, empresas chinesas possam ser impedidas de controlar portos groenlandeses, explorar determinados recursos minerais estratégicos ou realizar outros investimentos considerados sensíveis por Washington.

Essa vedação aos “investimentos sensíveis” de adversários na Groenlândia está perfeitamente alinhada com o “Corolário Trump à Doutrina Monroe”, constante da Estratégia Nacional de Segurança dos EUA, divulgada em dezembro do ano passado. Segundo tal corolário, apelidado de “Doutrina Donroe”, os EUA “negarão aos competidores extra-hemisféricos a capacidade de posicionar forças ou outras capacidades ameaçadoras, ou de possuir ou controlar ativos estrategicamente vitais em nosso Hemisfério”. A novidade do Corolário Trump está justamente aí: a lógica de exclusão de potências extra-hemisféricas passa a alcançar, além da presença militar, portos, infraestrutura, recursos minerais e outros ativos econômicos considerados estratégicos.

O governo dinamarquês já se posicionou acerca do anúncio. A primeira-ministra Mette Frederiksen afirmou estar satisfeita com a perspectiva de um acordo que fortaleça a segurança comum no Ártico e no Atlântico Norte e beneficie a OTAN e a Europa. Mas acrescentou um ponto essencial para o entendimento da questão: o acordo deve reconhecer “a soberania e a integridade territorial do Reino e o direito do povo groenlandês à autodeterminação”. Destaque-se que, enquanto Trump sublinha o controle estratégico obtido sobre a ilha, Frederiksen ressalta a manutenção da soberania dinamarquesa.

O interesse de Trump pela Groenlândia remonta pelo menos ao seu primeiro mandato. A ideia de comprar a ilha foi sugerida ao presidente em 2018 por Ronald Lauder, empresário e amigo de longa data de Trump. Oito anos depois, Trump não conseguiu a posse da Groenlândia, mas parece ter obtido um mecanismo para impedir que seus adversários adquiram posições econômicas consideradas estrategicamente sensíveis na ilha. Em um momento de dificuldades na política externa, marcado pela guerra no Oriente Médio e pela persistência do conflito na Ucrânia, o acordo oferece à administração Trump um resultado concreto a apresentar ao eleitorado americano às vésperas das eleições legislativas de novembro.

Este artigo foi originalmente publicado na Gazeta do Povo, em 21 de setembro de 2026

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Seis meses depois, quem está vencendo a guerra no Golfo Pérsico?

No último dia 28 de agosto, a guerra no Golfo Pérsico completou seis meses. Embora já dure muito mais do que as quatro a seis semanas inicialmente estimadas pela administração Trump para atingir os objetivos das operações militares contra o Irã, ainda não é possível afirmar que o término do conflito esteja próximo.

Recordemos como tudo começou. No dia 28 de fevereiro, norte-americanos e israelenses desencadearam uma ofensiva coordenada contra o Irã, denominada pelos Estados Unidos “Fúria Épica” e, por Israel, “Leão Rugidor”. Utilizando sua enorme capacidade militar, milhares de alvos iranianos passaram a ser atacados e atingidos, a começar pelas lideranças iranianas. Nos ataques do primeiro dia, o líder supremo iraniano, o aiatolá Ali Khamenei, foi eliminado. Também foram mortos muitos outros líderes do país e familiares de Khamenei, enquanto seu filho Mojtaba Khamenei foi gravemente ferido. Alguns dias depois, Mojtaba seria escolhido como o novo líder supremo do Irã.

A resposta iraniana foi imediata. No campo militar, Teerã passou a atacar bases militares e infraestruturas estratégicas em praticamente todos os países do Golfo Pérsico, além da Jordânia e de Israel. No campo econômico, provocou o fechamento quase completo do Estreito de Ormuz, impondo pesadas perdas econômicas não só aos países do Golfo, dependentes daquela passagem marítima para exportar petróleo e gás, mas também a toda a comunidade internacional, que viu os preços desses produtos essenciais dispararem. Dessa forma, a estratégia iraniana ficou clara: distribuir os custos da guerra pelo maior número possível de países, de modo que a comunidade internacional passasse a pressionar os norte-americanos pelo fim das hostilidades.

A primeira fase da guerra terminou no dia 8 de abril, quando o Paquistão mediou um cessar-fogo que deveria durar duas semanas. Essa data marca também o fim da campanha aérea israelense de alta intensidade contra o território iraniano, fazendo da guerra em torno do Estreito de Ormuz um enfrentamento principalmente entre norte-americanos e iranianos. Logo em seguida, no dia 13 de abril, os EUA passaram a colocar em prática uma estratégia de asfixia econômica do Irã, iniciando o bloqueio naval aos portos do país.

A transformação da natureza da guerra, de um conflito de alta intensidade em sua fase inicial para uma estratégia de asfixia econômica do Irã, adotada a partir de abril e bastante intensificada nos últimos dias com o anúncio, pelos EUA, da Operação Economic Outcast (algo como “Operação Isolamento Econômico”, em português), é que permite compreender o impasse estratégico que atualmente caracteriza o conflito, seis meses depois de sua deflagração.

Os EUA demonstraram claramente sua enorme superioridade militar na primeira fase do conflito. Destruíram a maior parte da capacidade naval iraniana e degradaram severamente suas defesas antiaéreas e seus meios de comando e controle. Entretanto, não conseguiram converter essa superioridade militar em uma solução política para a guerra.

Mas por que isso aconteceu?

Em primeiro lugar, destruição militar não redunda automaticamente em vitória política. Sun Tzu, há dois mil e quinhentos anos, já ensinava que vencer todas as batalhas não representa a forma suprema de excelência na guerra. A lição permanece atual: a destruição das forças do inimigo não é um fim em si mesma; ela só ganha sentido estratégico se contribuir para alcançar os objetivos políticos pretendidos. E foi justamente aí que os Estados Unidos falharam até agora: sua superioridade é incontestável no campo militar, mas isso não obrigou as lideranças iranianas a se dobrarem à sua vontade.

Isso se deve, em parte, à assimetria dos critérios pelos quais cada um dos lados define a sua vitória. Se, para os EUA, a vitória exige resultados concretos, como impedir definitivamente que o Irã obtenha uma arma nuclear e obrigar o regime a aceitar condições que atendam aos objetivos norte-americanos, para as lideranças iranianas, simplesmente sobreviver no poder já é suficiente. Se o regime permanece no poder, não capitula e continua conseguindo impor custos aos EUA e aos seus aliados, pode sustentar interna e externamente que resistiu à maior potência militar da atualidade e impediu que ela alcançasse plenamente seus objetivos.

Assim, o tempo trabalha de forma diferente para os dois lados. Se o presidente Trump precisa alcançar ganhos concretos para demonstrar que os enormes custos militares, econômicos e políticos da guerra produziram resultados favoráveis aos Estados Unidos, para os iranianos basta continuar resistindo e impondo custos ao adversário.

Essa é a razão de o conflito ter se tornado uma disputa centrada principalmente na abertura do Estreito de Ormuz. O Irã aproveita sua geografia para causar enormes transtornos ao tráfego marítimo comercial no estreito e compensar, ao menos parcialmente, sua enorme inferioridade militar diante dos Estados Unidos.

O descompasso entre os resultados que uma campanha aérea e um bloqueio naval podem efetivamente produzir e os ganhos estratégicos esperados pelos EUA mantém o impasse atual. Sabendo disso, os EUA intensificam a pressão econômica. Teerã aposta que o tempo, a geografia e a capacidade de continuar impondo custos aos seus adversários acabarão tornando uma solução política favorável a Washington cada vez mais difícil. Seis meses depois, a maior pergunta é quem conseguirá sustentar por mais tempo a sua vontade política.

Este artigo foi originalmente publicado na Gazeta do Povo, em 31 de agosto de 2026

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Doutrina Donroe: os EUA e a pretensão de domínio sobre as Américas

Uma postagem da conta oficial do Departamento de Estado dos Estados Unidos, feita no último dia 11 de agosto, nos faz voltar ao assunto da Doutrina Monroe. Em um vídeo narrado pelo embaixador dos EUA no Panamá, Kevin Cabrera, o Departamento de Estado transforma a Doutrina Monroe, de uma política do século XIX voltada a impedir novas intervenções ou tentativas de recolonização europeias nas recém-independentes repúblicas das Américas, em uma doutrina de primazia estratégica dos Estados Unidos sobre o Hemisfério Ocidental, na qual a frase dita pelo presidente Donald Trump, afirmando que “os EUA nunca mais teriam a sua dominância sobre o Hemisfério Ocidental questionada”, ganha papel de destaque.

No vídeo, o Departamento de Estado desenha uma estrutura hierárquica nas Américas, na qual os EUA desempenham, sem constrangimentos, um papel autoatribuído de dominância, em um tom que, em outras circunstâncias, seria considerado muito pouco usual para uma declaração diplomática: o tom inaugurado com a divulgação, em dezembro do ano passado, da nova Estratégia Nacional de Segurança dos Estados Unidos, que lançou oficialmente o chamado “corolário Trump à Doutrina Monroe”.

Aquele documento deixou clara a natureza do tal corolário, apelidado de “Doutrina Donroe”, que pode ser sumarizado em três ideias principais: (1) os EUA impedirão que concorrentes de fora do Hemisfério (sobretudo a China) posicionem forças ou outras capacidades que possam se constituir em ameaças, ou mesmo que “detenham a propriedade ou o controle de ativos estrategicamente vitais no Hemisfério Ocidental”; (2) os EUA atribuem máxima prioridade ao controle da imigração ilegal e do tráfico de drogas nas Américas; (3) os EUA querem ser vistos pelas outras nações das Américas “como sua parceira de primeira escolha” e “desencorajarão por diversos meios a colaboração delas com outros”.

No campo militar, a implementação prática dessas ideias vai ganhando forma e substância. Na semana passada, no Panamá, ocorreu mais uma reunião da Coalizão Contra Cartéis das Américas, que ganhou a sigla A3C, oportunidade em que foi anunciada a importantíssima adesão da Colômbia, que autorizou a participação das forças armadas de seu país nas operações conjuntas com as forças norte-americanas. O anúncio ocorreu no mesmo momento em que Pete Hegseth, o Secretário da Guerra dos EUA, afirmou que seu país já trabalha com países parceiros no planejamento de operações terrestres contra os grupos narcotraficantes da região. Comparando os grupos criminosos à Al Qaeda e a outras organizações terroristas, Hegseth afirmou que “onde quer que trafiquem drogas ou ameacem o povo americano ou nossos parceiros, essas organizações são um alvo”.

As falas das autoridades norte-americanas acerca da Doutrina Monroe, entretanto, não ganham apoio unânime na América Latina. Brasil e México, as duas maiores economias da região, não integram a A3C e mesmo o Chile, país que compõe a lista dos participantes, mostrou desconforto com o discurso de dominância norte-americano. Comentando a respeito, o ministro da Defesa do Chile manifestou suas reservas ao conceito, declarando que “do ponto de vista do Chile, não somos o quintal de nenhum país. Somos um país muito orgulhoso da nossa realidade”.

É evidente que a colaboração no combate ao crime organizado transnacional deve ser comemorada e que toda ajuda é bem-vinda. O problema é o tom adotado pela “Doutrina Donroe” e a pretensão de transformar a primazia norte-americana em princípio ordenador do Hemisfério, inclusive limitando a liberdade dos países da região de estabelecer relações estratégicas com terceiros.

Além disso, no nível global, há uma questão evidente: se Washington reivindica de maneira explícita uma esfera de influência no Hemisfério Ocidental, torna-se inevitável perguntar como os EUA poderão contestar conceitualmente reivindicações semelhantes de esferas de influência por parte da Rússia e da China em suas próprias vizinhanças estratégicas. Isso não significa que os casos sejam juridicamente ou historicamente equivalentes, mas o argumento para a contestação política de iniciativas expansionistas de outras potências se torna muito mais difícil.

Por fim, a postura dos EUA, percebida como arrogante por audiências em toda a região, vai dilapidando uma vantagem competitiva construída ao longo de décadas pelos EUA: seu inegável soft power, seu poder de atração, a admiração pelo seu modo de vida. Há sinais mensuráveis dessa erosão. Recentemente, o Pew Research Center realizou pesquisas em 36 países e descobriu que, na maioria deles, a visão dos entrevistados era mais favorável à China do que aos EUA. Isso não acontecia em pesquisas anteriores. A opinião pública sobre os EUA nos dois países com os quais faz fronteira é reveladora da perda desse patrimônio intangível. No Canadá, a parcela com opinião favorável aos Estados Unidos se reduziu de 57% para 33% em três anos. No México, apenas 40% da população vê os EUA de forma favorável. Em ambos os países, a avaliação positiva da China é superior à dos Estados Unidos.

Talvez os EUA não percebam, mas seu discurso não parece ser favorável aos seus próprios interesses. Tudo indica que, na Doutrina Donroe, o país esteja sendo mais identificado com as potências europeias que buscavam preservar ou restaurar seu domínio sobre as antigas colônias, do que propriamente com os EUA de James Monroe, que se apresentavam como defensores da independência das novas repúblicas americanas diante de uma eventual restauração colonial europeia. O risco é que “potências extrarregionais”, justamente aquelas que os EUA querem manter afastadas do Hemisfério Ocidental, passem a ser percebidas como aquelas que vão ajudar os latino-americanos na luta pela manutenção de sua autonomia. Afinal, não somos o quintal de ninguém.

Este artigo foi originalmente publicado na Gazeta do Povo, em 17 de agosto de 2026

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A Europa desperta: a ameaça de Trump e o renascimento da Defesa europeia

O ex-presidente e virtual candidato à presidência pelo Partido Republicano nas próximas eleições dos Estados Unidos, Donald Trump, provocou uma onda de choque política entre os aliados europeus da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). Em um discurso de campanha, Trump declarou ter advertido o líder de “um importante país europeu” que, caso falhasse no pagamento de suas obrigações financeiras para com a Aliança, ele, na qualidade de presidente dos EUA, recusaria defender o país europeu contra uma potencial invasão russa. Trump inclusive sugeriu que, nesse caso, poderia incentivar a Rússia a “fazer o que bem entendesse”.

Ao mencionar o descumprimento das obrigações financeiras, Trump se refere à diretriz da Aliança, criada em uma reunião de cúpula realizada no País de Gales, em 2014, que estabelece a meta de 2% do PIB para os investimentos de Defesa de cada um dos 31 membros da organização. O acordo de 2014 previa que os países deveriam se esforçar para atingir a meta em dez anos, ou seja, até este ano de 2024. Em 2014, apenas três Estados alcançavam aquele patamar. Em 2023, esse número já havia subido para onze. Jens Stoltenberg, Secretário Geral da OTAN, lamentou as palavras de Trump, afirmando que “qualquer sugestão de que os aliados não se defenderão mutuamente mina toda a nossa segurança, incluindo a dos EUA, e aumenta os riscos para os soldados americanos e europeus”. Disse ainda que, ao que tudo indica, no final deste ano, dezoito países terão atingido a meta de investimento em Defesa.

A ameaça de Trump reverberou ainda mais porque neste final de semana aconteceu a conferência anual de segurança de Munique, reunindo os ministros da defesa da Europa. A repercussão foi parar na capa da revista semanal alemã Der Spiegel, que pergunta se, dada a ameaça de Trump – e a real possibilidade de sua eleição – não estaria na hora dos europeus, especialmente a Alemanha, considerarem desenvolver a sua própria bomba nuclear.

Capa da Revista Der Spiegel. Edição de 17 Fev 2024

A promessa de assistência recíproca é a pedra angular da Aliança Atlântica. Está fundamentada no famoso artigo 5º, que determina que o ataque a um dos membros da organização “será considerado um ataque contra todos eles” e que, consequentemente, cada um deles tomará “as ações que julgar necessárias, inclusive o uso da força armada para restaurar e manter a segurança do Atlântico Norte”.

Ironicamente, na única vez em que o artigo 5º foi acionado nos 75 anos de existência da Aliança, não o foi por nenhum membro europeu, mas sim pelos EUA, após os ataques de 11 de setembro de 2001. Isso resultou no apoio efetivo da Aliança à guerra ao terror, incluindo às invasões do Iraque e do Afeganistão.

Entretanto, é inegável que Trump trouxe à tona uma realidade preocupante: os europeus se acostumaram a contar com o guarda-chuva dissuasório dos EUA, relegando perigosamente suas próprias capacidades de defesa a um segundo plano. Isso ficou especialmente patente no desabafo do general Alfons Mais, comandante do exército alemão, expressado no Linkedin, no dia em que os russos invadiram a Ucrânia. Disse o general[1]: “No meu 41º ano de serviço em tempos de paz, não teria pensado que teria de passar por uma guerra”. “E o Bundeswehr, o exército que tenho a honra de comandar, está mais ou menos de mãos vazias. As opções que podemos oferecer ao governo em apoio à aliança são extremamente limitadas.”

As palavras do general Alfons completarão dois anos no dia 24 de fevereiro. A guerra na Europa serviu como um duríssimo aviso e os europeus estão se mobilizando. Na conferência de Munique, várias declarações foram dadas nesse sentido. O chanceler alemão, Olaf Scholz, disse que a ameaça da Rússia à Europa é real e os países do continente precisam fazer muito mais para garantir a sua própria segurança. O primeiro-ministro dos Países Baixos, Mark Rutte, afirmou que a Europa deveria parar de reclamar de Trump, e se concentrar em aumentar os investimentos em defesa e “aumentar maciçamente a produção de armas”. O ministro da Defesa da Alemanha, Boris Pistorius, afirmou que seu país atingirá a meta este ano, pela primeira vez desde o fim da Guerra Fria, embora reconhecendo que isso pode não ser suficiente para a construção das capacidades de defesa necessárias.

A Europa vive um momento crucial em sua história. A crise de segurança no continente, representada pela ameaça russa e a possível escalada da guerra para outros países europeus convive com a perspectiva da eleição de Donald Trump à presidência dos EUA, que pode significar que o maior aliado pode vir a faltar em um momento crítico.

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Diante dessa conjuntura, é imperioso que a Europa reavalie sua dependência estratégica dos EUA e invista decisivamente na construção de suas próprias capacidades de defesa. Isso não significa abandonar a OTAN. Pelo contrário, a construção de uma autonomia europeia fortalecerá a Aliança.

Então, é de se esperar que assistamos, já em 2024 e nos próximos anos, a um aumento significativo dos investimentos europeus em Defesa, a um maior desenvolvimento de suas capacidades militares combinadas, ao fortalecimento da cooperação em inteligência e à promoção da indústria de Defesa, com a ampliação da produção de armas e munições, bem como o desenvolvimento de novas tecnologias bélicas.

Tudo isso vai trazer repercussões para os outros continentes, com o provável desencadeamento de uma corrida armamentista, no chamado Dilema de Segurança. Mas isso é assunto para um próximo artigo.

[1] https://www.linkedin.com/feed/update/urn:li:activity:6902486582067044353/

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TRUMP E A DEFESA DOS EUA

“Em 2024, a China realiza um ataque surpresa, para impedir Taiwan de declarar independência. As forças chinesas desencadeiam ataques aéreos e de mísseis, e realizam desembarques anfíbios na ilha, tornando clara a necessidade de intervenção norte-americana. Infelizmente, os EUA não podem mais intervir a um custo aceitável. As capacidades militares chinesas referentes aos domínios aéreos, marítimos e de superfície continuaram a se desenvolver, enquanto as dos EUA estagnaram. Áreas do oeste do Pacífico se tornaram proibidas para as forças dos EUA. O Pentágono informa ao presidente americano que os EUA podem derrotar a China numa guerra de longa duração, em que toda a capacidade nacional seja mobilizada, com perda de grande número de navios e aeronaves, milhares de vidas e grandes transtornos econômicos – tudo isso sem garantias de que haja um impacto decisivo antes de Taiwan ser invadida. Permitir que Taiwan seja incorporada pela China seria um golpe terrível para a credibilidade norte-americana e para a sua posição na região. Mas impedir que isto aconteça agora exigirá assumir perdas horrendas.”

Da mesma fonte de onde se extrai o texto acima podem ser retiradas outras situações hipotéticas que envolvem desafios ao poderio norte-americano: uma situação de escalada de tensões nucleares envolvendo a Coreia do Norte; uma situação de caos doméstico ocasionada por ações russas contra satélites, cabos interoceânicos de fibra ótica e ataques cibernéticos; a proibição do acesso dos navios comerciais e de guerra dos Estados Unidos ao Mar do Sul da China.

Nenhuma dessas situações foi retirada de livros de ficção. Elas foram extraídas de relatório elaborado pela Comissão da Estratégia Nacional de Defesa. Trata-se de um painel suprapartidário instituído pelo Congresso dos EUA com a missão de avaliar a Estratégia de Defesa desse país e de fazer as sugestões que julgasse adequadas. Os especialistas da comissão encerraram seu trabalho em novembro de 2018.

A comissão, em seu relatório – disponível na internet -, concorda com as conclusões da Estratégia de Defesa Norte-Americana, publicada também em 2018 e sobre a qual tratei neste espaço em 18 de abril do ano passado. Ambos inferem que a competição estratégica entre estados nacionais, e não a chamada guerra ao terror, é a primeira prioridade da segurança nacional dos EUA.

E como se pode claramente aduzir da situação hipotética do ataque chinês a Taiwan, os estrategistas e consultores, tanto do Congresso quanto do Pentágono, concordam que a superioridade da capacidade militar norte-americana em relação a seus possíveis adversários, especialmente a China, vem sendo reduzida ano a ano.

Dentro desse cenário, destaca-se a preocupação com a disponibilidade orçamentária. Os especialistas alertam para o fato de que em 1996, para cada dólar gasto por Rússia e China em pesquisa e desenvolvimento científico, os EUA gastavam US$ 8,21. Vinte anos mais tarde os gastos dos EUA na mesma área superam os de seus adversários em apenas seis centavos.

Ao mesmo tempo, a China sob a liderança de Xi Jinping adota uma postura cada vez mais incisiva em relação a Taiwan. No início deste ano Jinping reafirmou que a “China deve ser – e será – reunificada”. Dirigindo-se ao Comitê Central Militar do Partido Comunista, instância máxima das Forças Armadas do país, ele alertou que “o mundo está passando por uma era de mudanças drásticas” e que “riscos previsíveis e imprevisíveis” estavam aumentando.

Por outro lado, Tsai Ing-wen, presidente de facto de Taiwan, repetidas vezes tem conclamado a comunidade internacional a reafirmar “os valores de democracia e liberdade, com a finalidade de conter a China e minimizar a expansão de sua influência hegemônica.”

O presidente Donald Trump, por sua vez, emite sinais contraditórios. Ao mesmo tempo que reforça o orçamento de defesa e endurece a posição comercial dos EUA, travando uma verdadeira batalha no campo econômico contra a China, anuncia a retirada das forças norte-americanas da Síria, ação que enfraquece a posição dos EUA no Oriente Médio, área de enorme importância estratégica. O gesto causou o imediato pedido de demissão de Jim Mattis, respeitadíssimo general fuzileiro naval que era secretário de Defesa e assinou a Estratégia de Defesa de 2018. Não havia forma mais clara de Mattis demonstrar a sua insatisfação.

Confirmando-se a saída dos EUA da Síria, abre-se um vácuo que será necessariamente preenchido. Irã e Rússia, países citados como adversários estratégicos nos documentos de defesa, ganham espaço e os alertas feitos pela Comissão da Estratégia Nacional de Defesa tornam-se mais evidentes, com o enfraquecimento ainda maior das posições relativas dos EUA em mais uma área de importância vital para seus interesses estratégicos.

Mattis não foi o primeiro militar a sair do governo Trump por discordância na condução dos rumos estratégicos da defesa. Em março do ano passado, apenas um ano após sua nomeação como assessor de segurança nacional, outro militar respeitadíssimo, o general H. R. McMaster foi demitido. Assim como Mattis, McMaster dificilmente teria concordado com a retirada das tropas norte-americanas da Síria neste momento.

Alguns analistas internacionais têm definido a política externa de Trump, especialmente em assuntos de defesa, como “errática e cambiante”. Ao mesmo tempo que aprovou a nova Estratégia de Defesa, indicando a necessidade de maior assertividade e alertando para o crescente enfraquecimento da posição estratégica de seu país em várias regiões de interesse vital, Trump toma decisões que vão exatamente na contramão do que seria esperado para a efetivação daquela estratégia. Os aliados e rivais dos EUA acompanham, entre surpresos e incrédulos, para onde caminhará a maior potência militar do planeta.




O ENCONTRO DE CÚPULA DE HELSINQUE

Um dia após premiar os franceses, campeões da Copa da Rússia, perante uma audiência global de mais de 1 bilhão de pessoas, Vladimir Putin viajou a Helsinque, capital da Finlândia, para encontrar-se com o presidente dos EUA, Donald Trump.

O encontro ocorreu após uma intensa movimentação diplomática de ambos os presidentes. Putin vinha de encontrar-se na semana anterior com Ali Akbar Velayati, ex-ministro das Relações Exteriores do Irã, homem de confiança e conselheiro do presidente Ali Khamenei. Antes disso, em 11 de julho, reunira-se com o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu. A guerra civil na Síria certamente esteve na pauta das conversas.

Trump encerrou com o encontro de Helsinque uma atribulada viagem à Europa, que se iniciou em Bruxelas, com a reunião dos países-membros da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Foi um encontro tenso, no qual Trump exigiu que países-membros da aliança militar aumentassem seus gastos com defesa. Ao mesmo tempo, criticou fortemente a Alemanha por, no seu entender, depender excessivamente do fornecimento de gás natural russo. De Bruxelas, seguiu para Londres, para encontrar-se com a primeira-ministra Thereza May. Lá, concedeu uma entrevista em que criticou May pela forma como está conduzindo a saída do Reino Unido da União Europeia. Trump ainda encontrou tempo para chocar os líderes europeus declarando que a União Europeia seria “inimiga comercial” dos EUA.

A semana que antecedeu a reunião de Helsinque contextualiza o encontro e mostra como é o momento dos dois presidentes. Putin vive fase de grande visibilidade, surfando a onda positiva de ter sido o anfitrião de uma Copa do Mundo. Trump, bastante criticado no seu país e na Europa, acusado de tratar melhor os russos, inimigos históricos, do que os próprios aliados europeus. Como se não bastasse, no dia do encontro uma sequência inacreditável de publicações no Twitter expôs Trump a uma onda de críticas ainda maior. Ele escreveu que o relacionamento entre os EUA e a Rússia nunca tinha estado tão ruim quanto atualmente graças a muitos anos de “tolices e estupidez” dos próprios EUA. Imediatamente depois, a conta oficial do Ministério das Relações Exteriores russo respondeu simplesmente: “Nós concordamos”. Talvez seja um caso único na história em que um presidente publicamente e algumas horas antes de se encontrar com o maior adversário reconhece que os problemas que existem entre seus países são de sua própria culpa.

Os problemas a que o presidente Trump se refere e que colocaram as relações entre Rússia e EUA num nível alto de tensão são variados e complexos. Há a questão da interferência dos russos, acusados de atuar por meio de ações de guerra cibernética nas eleições americanas de 2016. Há, também, a guerra civil na Síria, com toda a sua complexidade, que opõe nos campos de batalha sírios coalizões lideradas, de um lado, pelos EUA e, de outro, pelos russos. Outro ponto de grande sensibilidade são a anexação da Crimeia e a ação militar russa (encoberta, mas nem tanto) na Ucrânia, que é a causa das sanções econômicas impostas à Rússia pelos EUA e por seus aliados.

Como se vê, assuntos a serem resolvidos – ou pelo menos que merecessem alguma tentativa de encaminhamento de soluções futuras – não faltavam. Entretanto, na entrevista coletiva concedida ao término da reunião, Trump focou suas respostas na política interna, preocupado em tentar demonstrar que os russos não interferiram nas eleições que o conduziram ao poder. Afinal, admitir tal interferência, tida como certa pelas próprias autoridades das agências de inteligência norte-americanas, seria de alguma forma admitir uma sombra de ilegitimidade no processo eleitoral que o conduziu à presidência. Para isso, disse que Putin negara peremptoriamente tais ações e que ele não tinha nenhum motivo para desconfiar de que isso não fosse verdade. Evidentemente, Putin disse o mesmo. Quanto à crise da Ucrânia/Crimeia, nenhuma novidade. Quanto à Síria, a reafirmação de que ambos os países estão combatendo os terroristas. Ou seja, quanto aos assuntos que realmente importam do ponto de vista geopolítico, nada de relevante.

Ou quase nada. Putin e Trump afirmaram que a era de desconfianças da guerra fria não deveria existir mais, que o mundo hoje mudou e que não deveria haver razão para tensões entre Rússia e EUA.

Essa afirmação não encontra amparo na realidade e é negada pelos próprios documentos de nível político/estratégico de ambos os países. A Estratégia Nacional de Defesa dos EUA, documento de janeiro deste ano, portanto da administração Trump, identifica que os EUA enfrentam uma era em que a competição estratégica entre os Estados é a maior ameaça à segurança e cita a Rússia como um país que viola fronteiras e pressiona diplomática e economicamente seus vizinhos.

Já os russos, em sua Estratégia de Segurança Nacional, publicada em 31 de dezembro de 2015, citam que os EUA e aliados, a fim de manter a atual dominância sobre os assuntos internacionais, adotam uma “política de contenção” que se opõe à implementação de uma política externa russa independente. Expressa, ainda, que a Otan atua em violação às normas do Direito Internacional, expandindo as atividades militares em direção às fronteiras da Rússia, sendo uma ameaça à segurança daquele país.

Ou seja, o discurso de Trump foi focado em seus problemas internos e não levou em consideração os graves desafios geopolíticos identificados nos documentos produzidos por sua própria administração. Já Putin, para aproveitar a metáfora futebolística, entrou em campo e nem precisou se defender. O adversário cedeu o terreno e ele jogou solto, fez embaixadinhas para a torcida e correu para o abraço. A torcida adversária e os comentaristas não entenderam nada…